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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Para onde vão as lágrimas?

As lágrimas possuem uma força especial:
Derretem gelo e aquecem corações.
(Provérbio Judaico)


Existem mais de trezentos motivos conhecidos que podem nos levar a um estado de choro. E apesar de não gostarmos muito desta evasão inevitável de lágrimas, fato é, que elas são benéficas para o ser humano.

Clinicamente, a lágrima lubrifica os olhos, mantendo os órgãos hidratados e descansados. Economicamente, ela é o melhor substituto para o colírio e pode ser conseguida gratuitamente "em qualquer lugar". Isso sem contar que o choro é um excelente terapeuta, capaz de aliviar as mais acentuadas tensões. Poeticamente falando, chorar é como deixar a alma tomar banho em uma incrível banheira de hidromassagem, com direito a rosas e sais suíços.

Chorar é a primeira coisa que aprendemos (e fazemos) na vida. Já no instante do nascimento, as lágrimas se mostram nossas amigas, tornando-se em verdadeiras aliadas, até mesmo na hora da morte. Quem não chora pode sofrer com falta de ar, asma, ansiedade e até úlcera intestinal. E para tudo isso, a ciência tem uma explicação. É que, enquanto o choro rola no rosto, o corpo precisa agir com controle sobre a respiração, o que requer equilíbrio entre as emoções agradáveis e desagradáveis. Todo esse esforço do organismo tem como único objetivo o relaxamento imediato. Depois de alguns minutos de choro, o organismo extravasa. É como se um enorme elástico estivesse estendido enquanto choramos, e depois, perdesse completamente a força. O choro alivia as tensões físicas e emocionais.

Agora o fato mais importante (e talvez desconhecido) sobre as nossas lágrimas, é que elas são peças importantes de uma coleção, cujo dono é o próprio Deus. E a Bíblia fala abertamente sobre esta questão, quando Davi afirma no Salmo 56:8: 

-Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre”.

Davi chorou muito ao longo de sua vida. Poucos homens verteram tantas lágrimas como o salmista de Belém. Sua vida foi marcada por lutos estendidos, noites de apreensão, fugas não planejadas e vários funerais de seus filhos. Davi chorou sem reservas, sabendo que as suas lágrimas seriam enxugadas pelo próprio Deus! Ele testifica que o Senhor recolhia as suas lágrimas com um odre divino. 

Odres eram recipientes feitos de couro para guardar líquidos. E nos céus, o belemita tinha alguns frascos com seu nome.

A verdade, é que Deus interpreta nossas lágrimas, e com isso entende a intensidade de nossa dor. Lágrimas são frases para Deus. Quando não temos mais forças para orar e só conseguimos chorar aos pés do Senhor, Ele não só ouve o nosso clamor sem palavras, como também recolhe todas as nossas lágrimas em seu precioso tesouro. Mas, por ser fiel ao nosso livre arbítrio, o Senhor só recolhe para si, as lágrimas que lhe entregamos voluntariamente. Então, a grande questão é: -  Para quem temos chorado? 

Em II Reis 4, encontramos a história de uma mulher lidando com a morte do próprio filho, e que pode nos ensinar algumas lições sobre o choro produtivo.

O profeta Elizeu fazia questão de caminhar pelas ruas de Suném durante suas peregrinações até o Carmelo.  Esta rotina anual, não passou despercebida por uma das moradoras locais. Percebendo que o profeta tinha o hábito de passar próxima a sua casa e reconhecendo que ele era de fato um homem santo; essa hospitaleira sunamita, cuja identidade sequer foi revelada, convidou ao profeta para realizar refeições regulares em sua casa. Não sendo isto o bastante, ela convenceu seu marido a construir um cômodo extra no segundo andar, próximo ao muro da residência, para que Elizeu pudesse se hospedar com conforto e privacidade. O profeta do Senhor, consternado com tamanha hospitalidade, sentiu a necessidade de retribuir o favor. A mulher era estéril e nada melhor que um filho para alegrar a casa, então ela recebeu de Elizeu a seguinte promessa: - No próximo ano, nesta mesma data, terás um filho em seus braços!

Sua palavra foi tão poderosa que naquela mesma noite o marido se tornou fértil, e a mulher foi curada de sua esterilidade. Porém, passados alguns anos, de forma repentina, o menino teve uma dor de cabeça muito forte. Ela tomou a criança em seus braços, e passou as horas seguintes clamando ao Senhor pela cura de seu filhinho. Aquela mulher, certamente não contava com o óbito da criança, pois tinha certeza que Deus não tiraria o presente que lhe fora dado, sem ao menos que ela tivesse pedido. Mas, a tragédia inesperada bateu em sua porta. Por volta do meio dia, o menino faleceu e com ele as esperanças de cura. Porém, a sunamita não desistiu. Se a cura não era mais possível, que o impossível acontecesse. Se a enfermidade venceu, a morte teria que ser derrotada. E ela iria até as últimas consequências.

Sem alarmar ao marido, a mulher levou seu filho já sem vida até o quarto construído para o profeta (subindo escadas). Enxugou o seu choro, e disse ao esposo para não se preocupar, pois “tudo estava tudo bem”. Depois, caminhou confiadamente por cinco quilômetros até o Monte Carmelo, onde o profeta realizava suas orações. Ao vê-la se aproximando, o profeta percebeu sua aflição de espírito, mas não recebeu de Deus a revelação do ocorrido. Elizeu ordenou que Geazi fosse ao seu encontro e a indagasse sobre como estariam os membros de sua família.  - Como vai você? Como vai seu marido? Como vai seu filho? E as respostas ainda dadas por ela, ainda soam surpreendentes. -  Bem... muito bem... vai tudo muito bem!

Aquela mulher entendeu a necessidade de ser forte, e manter inabalada a sua fé, certa de que nada estava perdido, e que se Deus lhe havia dado um filho, nem mesmo a morte poderia tirá-lo dela. Com esta crença, se manteve inabalável por fora, ainda que estivesse aflita em seu interior. A sunamita não perdeu tempo com reclamações, indagações e questionamentos. Tampouco gastou suas lágrimas com inutilidades ou lamúrias com quem nada poderia fazer por ela. Mas, diante do profeta, representante de Deus na terra, a mulher descortina seu coração e as lágrimas rolam em sua face.

Ela chora pra Deus. Suas lágrimas são orações quebrantadas que movem os céus em seu favor. O Senhor recolhe suas lágrimas em um odre especial.  O efeito deste choro produtivo? Ela recebeu seu filho de volta para vida. O odre celestial transforma lágrimas em milagres!

Na cidade de Estiva Gerbi, fiz um grande amigo chamado Carlos Alexandre Alves de Lima. Após um gravíssimo acidente automobilístico, ele enfrentou dois anos de muito sofrimento, convivendo com procedimentos clínicos dolorosos e cirurgias agressivas que não surtiam resultados positivos. Até, que, cessado os recursos clínicos, os médicos lhe informaram que a melhor solução seria a amputação completa de seu braço esquerdo. Segundo seu relato, naquele momento crítico, ele buscava conforto na promessa do Salmo 30:5: - “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. Sua forma de enxergar esta experiência, me emociona até hoje:

Lembro-me perfeitamente do dia 28 de agosto de 2006. Eu estava sozinho, deitado em uma cama de hospital, e naquela noite, um oceano de lágrimas rolaram dos meus olhos. O que eu estava sentindo? Dor, tristeza, angústia. Sabe aquela sensação ruim provocada por uma despedida? Eu me sentia assim. Na manhã seguinte, eu iria passar por uma cirurgia, onde todo o meu braço esquerdo seria amputado. Durante aquela longa noite, eu segurei o meu braço, o acarinhei, pois sabia que nunca mais poderia fazer aquilo. O choro durou toda a noite. Eu chorava porque sabia que no dia seguinte, uma parte de mim iria embora para sempre. Minha manhã de alegria chegou no dia 30 de novembro de 2012. Mas, não se engane, pois eu também chorei muito neste dia. Desta vez por um motivo bem diferente. Esta foi a manhã que minha filha Ester Glória nasceu. Uma nova parte de mim tinha acabado de nascer. Eu me senti completo novamente.

Como é possível tamanha mudança de perspectiva? Como lamentos se tornam em brados de júbilos? Quando os israelitas repatriados encontraram o livro da lei, regozijaram-se de alegria. Porém, conforme Esdras lia os mandamentos, o povo foi assolado por imensa tristeza e se pôs a chorar copiosamente. Seus erros, pecados e fraquezas foram escancarados, e saltavam em suas consciências como um borrifo de tinta preta no mais alvo dos lençóis. Então, Esdras e Neemias, ergueram a voz em clamor e bradaram: -  Não chorem, e nem se lamentem. A alegria do Senhor nos fortalece (Neemias 10:8).

Deus não se contenta em apenas recolher nossas lágrimas. Ele as transforma em sementes produtoras de sorrisos. A nossa vida é um ciclo constante de longas noites de choro, seguidas de manhãs de imensa felicidade. Significa que estamos vivos, que nosso coração pulsa, que nossa alma sente e que nosso espírito ainda clama por Deus. O choro é uma estrada que nos leva de volta ao Senhor. Basta querer caminhar nela. A jornada pode não ser fácil, mas, nos torna mais fortes.

E a maior beleza de tudo isto é que nos céus, as lágrimas só são encontradas em “odres” e nunca em “olhos”. Por mais que choremos aqui na terra, Deus tem nos preparado um lugar onde não existe sofrimento e nem dor. Um céu onde não há espaço para tristeza. Nenhuma promessa é mais bela do que a feita em Apocalipse 21:4: 

-  E Deus limpará de nossos olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.

No céu, lágrimas até existem, mas são peças de museu. Estão guardadas carinhosamente em odres. Relíquias de um passado do qual não nos lembraremos mais.

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