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terça-feira, 24 de abril de 2018

O Velho, o Menino e Eu

O fracasso é um evento, não uma pessoa.
Ontem terminou na noite passada. 
(Zig Ziglar)

  
Numa destas noites onde o sono demora a chegar, dormi inquieto e sonhei comigo mesmo. 

Estava num bosque repleto de ipês floridos, caminhando tranquilamente por entre crisântemos e madressilvas amarelas. Não haviam pensamentos estabelecidos na mente, apenas passos descompassados e aquele assobio inconsistente nos lábios. Por alguns instantes, nada tinha real importância. E então, eu o vi. Sob uma ponte de madeira cujo arco se lançava acima do cristalino riacho, o menino fitava o horizonte com tamanha devoção, que sequer percebeu minha presença. Sua silhueta era estranhamente familiar, e impelido pela curiosidade, me aproximei. Neste instante, a nuvem escura que bloqueava os raios solares se moveu pelos céus. A luz eclodiu intensamente, iluminando o rosto da criança.

Não poderia ser. Mas era.
Ele. Eu.

O menino não era bonito e muito menos charmoso. Mas tinha a vida sendo expelida em cada poro. Olhos vívidos e esperançosos. Carregava no rosto algumas marcas visíveis, cicatrizes que evidenciavam o amadurecimento precoce, o que não influenciava a infância reluzente em sua face. 

Pisei no primeiro degrau, e o som da madeira rangendo sob os sapatos, atraiu a atenção do garoto. Ele deu um passo para trás coagido pelo meu avanço.

– Calma! – Disse eu, apontando gentilmente para o próprio rosto. – Você não está me reconhecendo?

Ele meneou a cabeça negativamente. Pudera. A diferença era gritante. Eu mesmo não me reconheceria. (E não me reconheci). Cheguei mais perto. Com um gesto involuntário passei o dedo indicador sobre a cicatriz que nasce no canto esquerdo do meu lábio superior e corre até a base do nariz. Ele repetiu o gesto. Sorriu discretamente. Me lembrei que o menino nunca foi muito de sorrir. Faltavam alguns dentes na boca, e as narinas assimétricas deixavam qualquer sorriso penso. Estava mais acostumado a conviver com os risos alheios, e até que lidava bem com tudo isto. Afinal, tinha sonhos, projetos e objetivos na vida. Foco. Queria ser um pregador como o apóstolo Paulo. Mudar o mundo com o poder da voz. Os médicos disseram a seus pais que ele nunca falaria, e mesmo assim, Deus o tinha agraciado com a capacidade da fala. Se sentia grato por isso, e imensamente responsável por cada palavra dita. Eu o conhecia bem. Nunca esqueci seu rosto. Por muitos anos imitei o seu sorriso acanhado.

- Você não está me reconhecendo? - Repeti, decepcionado.

- Não! - O menino respondeu num assobio por entre as falhas dentárias.

Caminhei lentamente em sua direção, como que lhe dando tempo para se recordar. Cheguei próximo ao seu rosto e me inclinei, ao ponto de sentir a respiração tensa.

- Eu sou você!

Ele me olhou assustado.
Respirei profundamente e conclui.

- Estou mais velho. Mais gordo. Mais cansado. Mais decepcionado. Mais frustrado... Mesmo assim, ainda sou você!

O menino engoliu em seco. Baixou o olhar e suspirou baixinho. Seus olhos se encheram de lágrimas e os lábios deformados tremeram como se sentissem frio. Por longos minutos o mundo parou. Silêncio. Apenas o som das águas passando aceleradas por baixo da ponte se fazia ouvir. (Águas correndo na direção do futuro para nunca mais voltar). Até que finalmente, ele se recompôs. A voz soou firme, embora estivesse embargada, já que um nó de marinheiro duelava com suas amídalas.


- Posso te fazer uma pergunta?

- Mas é claro! -  Respondi. - Pergunte tudo o que quiser...

A próxima frase dita pelo menino, lacerou meu coração...


- Onde é que vou errar tanto, a ponto de me tornar você?

E eu, verborrágico incorrigível, simplesmente me calei, sem saber exatamente o que responder. Não me lembro onde deixei o brilho dos olhos e nem a vontade de fazer a diferença no mundo. Não me recordo do exato ponto onde a mediocridade se tornou minha amiga e a descrença começou a frequentar a mesa de jantar. Eu sei que muitas pessoas acreditavam no potencial daquele menino, e aos poucos, cada uma delas foi sucumbindo a decepção. Tinha tantos dons em desenvolvimento, mas se especializou em decepcionar as pessoas, incluindo, ele mesmo. Sonhos engavetados. Projetos esquecidos. Planos deixados de lado em detrimento a prioridades que se perderam no tempo. Trocou o tudo pelo nada, e ainda fez questão de pagar a diferença. Ele não mudou o mundo, mas o mundo mudou ele. O ensinou a sorrir, enquanto lentamente roubava toda a sua felicidade. Se especializou em teorias, e esqueceu de colocar a vida em prática. Simplesmente, deixou de ser a pessoa que nasceu para ter sido.

O menino que eu fui, jamais conseguiria reconhecer o homem que me tornei. Certamente teria preferido morrer em qualquer uma das muitas mesas cirúrgicas que visitou, ao invés de viver a plenitude do fracasso retumbante de todas as suas ideologias. E pior ainda. Se acostumar com o falhanço. Apadrinhá-lo. Mantê-lo aquecido e confortável no sótão da alma, como se fosse seu bichinho de estimação favorito.

A verdade golpeia com a potência de um peso pesado. Não se consegue assimilar o golpe e continuar de pé. E então, eu caí de joelhos. Cobrindo o rosto com as mãos, choraminguei amargamente. A vergonha do espelho. O desespero dos anos. A angustia pela linha vermelha cada vez mais próxima, enquanto a estrada deixada para traz se revela fria, vazia, escura e assustadoramente “inexpressiva”. De repente, uma frase de Jonh Kennedy rasgou minha mente como um gêiser irrompendo placas de gelo: - “O fracasso não tem amigos”. E como a muito tempo não acontecia, me senti completamente solitário. Terrivelmente sozinho.

O menino se aproximou de mim. Colocou a mão em meu queixou e me levantou o rosto. Limpou as minhas lágrimas com as mangas compridas de uma blusa azul e branca que mantinha amarrada na cintura:

- Por favor... Não chora!

- Como posso não chorar? - Argumentei ressentido - Olha o que fiz com a nossa vida! Eu simplesmente... (as palavras demoravam a sair) ... Matei você!

O menino me olhou com bondade.

- Você, pelo menos, ainda tem uma Bíblia, não é?

Enxuguei uma lágrima retardatária que insistia em brotar dos olhos...

- Tenho mais de cem versões da Bíblia dentro do meu notebook.

- Note “o quê”?

- Book. Notebook. Um computador portátil... Cabem milhares de Bíblias e livros na memória dele.  Um dia ele ainda vai ser a extensão de seu corpo. - Expliquei

- Tenho certeza que não preciso de tudo isto. Estou bem feliz com a Thompson que ganhei do pai... Uma biblioteca inteira! Talvez ter muito, esteja te desviando daquilo que realmente é importante...  Agora por exemplo, só precisamos de alguns versos...

O menino atravessou a ponte e parou sobre a grama. Gastou alguns segundos procurando alguma coisa algo entre as flores. Achou. Uma pedra calcaria em tons azulados. Enquanto ele voltava para o centro da ponte, me recompus. Se aproximou caminhando serenamente pelas tábuas de jacarandá, enquanto cantarolava: -  “Meu barco encheu com a fúria do mar, precisei de ajuda para não afundar”. Ainda tentava me lembrar a letra da música, quando o menino estendeu o braço direito em minha direção, e sem titubear, ordenou: – Toma! 

Entregou a pedra em minha mão.

- O que faço com isto?

- Se lembra do que Paulo disse em II Timóteo 2:13?

A lembrança emergiu rápido. Este sempre foi um dos meus textos favoritos:

- Mesmo que sejamos infiéis a Deus, Ele continua sendo fiel, porque a fidelidade faz parte de quem Ele é!

- Boa memória, velhinho! – Disse o menino, com um "meio" sorriso de aprovação. – Agora, jogue a pedra no rio!

Joguei. A pedra ricocheteou sobre a água, produzindo pequenas ondas circulares antes de afundar completamente. Olhei para ele, com genuína curiosidade: - E agora?

- Agora, nada. Me respondeu sem qualquer sarcasmo. E então, completou - O rio parou de correr por interferência da pedra?

- Obviamente que não. – Respondi. – É uma pedra contra o rio!

- Errado! - Ele me corrigiu. - É a tua infidelidade contra a fidelidade de Deus.

Eu conheço este conceito. Já escrevi sobre ele.

O rio caudaloso segue o fluxo sem se importar com as pedras que atingem seu leito. Por maior que seja o pedregulho, tudo o que ele pode fazer, é tumultuar uma pequena porção de água no entorno, para depois afundar vertiginosamente. Uma vez que atinja o fundo, ali ficará até desaparecer debaixo das algas. Já o rio, continuará seu caminho. Imparável. Irreprimível. Alguém pode até construir uma represa e negar vazão as correntes. Porém, quanto mais água for retida por detrás das paredes, maior será a explosão nos diques.  O rio não para. Não discute com barreiras. Apenas avança, retirando do caminho os empecilhos. Ou simplesmente, passando por cima de cada um deles. Infatigável. Incontrolável.

Assim é a fidelidade de Deus, seguindo sempre em frente, mesmo que muitos tentem impedir o avanço. E entre estes “muitos”, lá estou eu.

Ao longo desta vida, quantas pedras lancei no rio. Tentei desviar o curso, mudar a rota e impedir o fluxo. Regular a vazão. Este foi o meu maior erro. O mais retumbante fracasso. O decreto que arquivou muitos sonhos e alforriou pecados mantidos no cativeiro. Eu dizendo “não” a Deus, impedindo que o Pai se aproximasse de mim. Filho rebelde. Servo ingrato. Avesso a abraços. Propenso ao descaso. Mas, apesar da minha infidelidade aos propósitos, o Senhor se manteve fiel em cada promessa. O rio trazendo a pedra de volta para a superfície, como se fosse um barco de papel selado com o verniz vermelho carmesim, obtido na cruz do calvário. O Dono dos Mares recalculando a rota. O Arquiteto do Universo, (em pessoa), apontando o próximo retorno para a estrada principal.

Enquanto meditava na mensagem e repensava a minha vida, olhei para o sol poente. Só então percebi que uma simples canoa de madeira deslizando serena pelo rio, contornando o horizonte. Dentro dela, despreocupado e faceiro, um homem grisalho e muito solicito, acenava entre sorrisos. 

Sorrisos assimétricos.

- Sabe quem é? – Perguntou o menino.

- É claro que sei - Respondi. - Somos nós.

- Dá para acreditar que você vai conseguir envelhecer ainda mais! Quem diria que isso fosse possível!

O menino começou a rir alto. Naquele instante, os poucos dentes não eram um problema. Eu também gargalhei jocosamente. Uma alegria verdadeira como a muito tempo não sentia. E então, tudo ficou sério mais uma vez. O menino se virou na minha direção e com autoridade exclamou:

- Filipenses 4:6!

Ele se aproximou de mim e abraçou-me com força. – Por favor... Nunca se esqueça...

O velho no barco já era apenas uma silhueta desenhada no sol laranja que tingia de dourado a água do rio, porém sua voz reverberou correnteza acima:

- Aquele que começou a boa obra em minha vida, não vai deixá-la incompleta!

O menino e eu, descemos apressados da ponte e corremos pela margem do rio em direção ao sol poente, até a cansaço nos derrotar. O velho homem no barco sempre se mantinha muitos metros em nossa dianteira. Não se pode alcançar o futuro enquanto ainda se vive o presente. Deitamos sobre a relva afim de recuperar o fôlego e ponderar sobre a brevidade da existência. O tempo coexistindo e simultaneamente, acontecendo. Conversa boa. A maturidade desconfiada dialogando com a ousadia inocente. As lembranças futuras de um passado que ainda não aconteceu. E por mais paradoxal que tudo possa parecer, lá está Deus no controle absoluto do tempo/espaço. Criando, recriando e voltando a criar.   

- Estou muito cansado de tudo isso. Esgotado de corpo, mente e alma. Eu já não quero mais nadar contra a correnteza, se tenho a possibilidade de navegar com segurança ao lado de Cristo!

O menino se voltou na minha direção, meio que surpreendido com aquele desabafo. Sentamos na grama. Ele me olhou nos olhos e sorriu. Pela primeira vez naquele dia, se reconheceu em mim...

- Acho que você não me matou de verdade, velhinho.... Apenas me pôs para dormir.

Eu sorri encabulado.

- Então, acho que é hora de finalmente acordar!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Arquiteto de Flores Adocicadas

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho.
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!
(Machado de Assis)


Este é um texto escrito a seis mãos. E sendo bem sincero, meu trabalho aqui é o menor de todos. Apenas reescrevi as frases, moldei os parágrafos e contextualizei algumas situações. Teve gente que fez muito mais. E muito melhor.

Tudo começou quando a Jô (exímia confeiteira / decoradora), nos enviou a foto de uma “flor” cor-de-rosa que ela tinha acabado de esculpir. O desafio proposto, era “descobrir” a matéria prima utilizada. Meu palpite imediato (e miseravelmente equivocado) foi “sabonete”. Porém, enquanto eu apenas tentava ganhar o “jogo de adivinhas”, a Valquíria estava vivenciando uma linda experiência com Deus. Certamente, naquela manhã, enquanto esculpia uma simples (e bela) “rosa”, a Jô não fazia ideia que pregava uma mensagem poderosa. E que seria ouvida por muita gente.

Impactada pela ministração “inesperada”, a Val tomou uma caneta nas mãos, e começou a escrever, fato que por si só, já é motivo para “glorificar em pé”. O texto produzido naquela manhã foi postado em algumas redes sociais com resultados surpreendentes, mesmo sem nenhuma edição esmerada. Durante todo o dia, ela ficou bem ocupada, atendendo inúmeras chamadas. Mulheres que se sentiram tocadas pela mensagem despretensiosa, e que impelidas pelo Espírito Santo, partilhavam experiências, aconselhamentos e orações. Deus sempre tem um meio inusitado para “acalentar” o coração de seus filhinhos. E, de forma bem peculiar, de suas filhinhas mais atentas.

Não tenha o talento artístico da Jô e nem a sensibilidade espiritual da Valquíria. Coube a mim, neste caso, apenas pensar num nome bonito para a postagem e  retransmitir a mensagem, dando algum contexto aos eventos. E oro para que as palavras que se seguem, também edifique a vida de outras pessoas, como edificou a todos os envolvidos nesta história.

Méritos das próximas linhas:
 A Escultura: Jusileine Alves Beatriz Luis
O Texto: Valquíria Aparecida Cassia de Andrade Gomes

Hoje não tomei o café da manhã na cozinha juntamente com meu filho, como costumo fazer todos os dias. Enquanto o Nicolas (entre as muitas colheradas de cereal), assistia o “Pequeno Missionário”, enchi minha xícara com café, e voltei para o quarto. Ali, sozinha, de forma introspectiva, conversava com Deus, enquanto meus pensamentos voavam sem rumo na direção do futuro: - “Senhor, como as coisas serão daqui para frente... Tudo está tão difícil”. Assim que terminei esta breve oração, coloquei a xícara de lado e peguei nas mãos o celular. Como a maioria das pessoas, abri o WhatsApp (rsss). E a primeira coisa que chamou minha atenção foi exatamente uma foto enviada pela Jô. Uma "rosa" habilmente esculpida com a seguinte legenda: - Olha o que eu fiz!

Sem maiores explicações, fiquei muito emocionada e comecei a chorar. Alguma coisa naquela imagem tinha mexido profundamente comigo, mesmo não sabendo "o que" e o "por que". A curiosidade despertou e logo perguntei: -  Como você fez a flor? Então, ela me explicou: - Hoje eu acordei muito triste. Sentei no sofá, peguei uma bala de iogurte nas mãos, e enquanto orava, fui esculpindo... Saiu esta rosa...

Como meu Deus é bom! Numa foto despretensiosa estava a resposta imediata ao meu clamor. O leão que rugia em minha mente se silenciou por completo, e neste momento pude ouvir a doce voz do Espírito Santo a me ensinar:  

- Filha, você é a rosa que está sendo moldada na bala de iogurte!

Lá estava eu, na prateleira da existência. Apenas mais uma entre tantas outras. As pessoas ditavam uma história para minha vida, mas Deus tinha planos diferentes. Nasci para ser “bala”. Ele me escolheu para “flor”. Mas, aceitar a vontade do Senhor tem um preço. O processo é longo e doloroso. A transformação deixa marcas irreversíveis. Deus pega aquela massinha retangular e inexpressiva, e começa o trabalho. Amassa ali e acolá, estica de um lado, repuxa do outro, vira tudo do avesso, remonta e repete outra vez. E enquanto Ele esculpe, só nos resta gritar:

- Senhor, está doendo demais! Eu não vou aguentar! Jesus tenha misericórdia... Não vês que estou quase morrendo?

Quer uma boa notícia? Deus também te escolheu para ser flor. Quer uma má notícia? Você sentirá muita dor durante a transformação. Mas, não se preocupe. O trabalhar de Deus não mata. Produz vida. É um caminho de vitória, mesmo que os pés sangrem por causa dos espinhos no chão. O sofrimento é apenas um ingrediente extra nesta receita, na verdade, o mais essencial. O amargo que se revela doce no fim. Porém, o tempo necessário para esta mudança depende da resistência oferecida pela matéria prima. Quanto mais "dura" for a bala, mas difícil é a modelagem. O escultor não tem pressa alguma. Ele sabe que depois de todo “estica”, “amassa” e “puxa”, o resultado será maravilhoso. Uma flor belíssima, com curvas delineadas e revestida de um brilho radiante, deixado em cada pétala pelo toque do arquiteto celestial.

O brilho, porém, atrai uma infinidade de olhares. Muita gente vai olhar para a rosa esculpida e destilar algum veneno: - “Ficou sabendo o preço da casa que ela comprou?”... “Você viu com quem ela se casou?”... “Já reparou como o ministério dela cresceu?” Quando a flor desabrocha, é fácil ressaltar sua beleza ou criticar seus espinhos. Mas, o processo de lapidação é um segredo que só a “bala” e “Deus” conhecem com propriedade. Muitos vêem o sorriso, mas poucos testemunharam as lágrimas. A beleza do rosto é notada, mesmo que as feridas do coração ainda sangrem em segredo. Quem olha a mesa farta, não sabe das noites que se dormiu com fome. Aquele que “avalia” seu louvor, nunca ouviu suas orações em plena madrugada fria.

A “bala” foi escolhida por Jesus. A "escultura" é o trabalhar do Senhor. A “rosa” brilhante é a vontade de Deus se concretizando em nós. Processo infalível...

Então, acalme-se. Coloque sua alma angustiada para descansar. Talvez seja difícil entender a motivo de tanto sofrimento, mas a resposta é singela: - Você está sendo moldado! Simples assim... Moldado por Deus! Fique tranquilo...

Eu sei que existe alguma coisa errada nesta solicitação de calmaria. Afinal, se o Senhor está no controle de tudo, porque nos desesperamos com tanta facilidade? A resposta também é objetiva. Não gostamos de esperar. Odiamos o tempo da preparação. No ateliê de Deus, “balas” não se transformam em “rosas” de um dia para o outro. Cada procedimento tem um propósito maior. Aprendizado. Amadurecimento. Intimidade entre escultor e escultura. O meu desespero não acelera Deus. O Senhor não atropela etapas. Por mais que eu ache que esteja no meu limite, Ele sabe o quanto eu ainda posso aguentar. Então, deixa-me profetizar de olho aberto e te afirmar com toda a certeza da minha alma: - Você aguenta! Fique firme e não perca a fé! O Deus que te criou, é o mesmo que te molda. Ele nunca perde a mão. E não vai parar até completar o trabalho.

Seja a “bala”. Deixe que Ele te transforme numa “rosa adocicada”. As lágrimas existem para regar a terra e fazer a flor brotar. As lutas são o adubo cooperando para que a flor cresça e desabroche. A provação esculpe e perfuma cada pétala. A aprovação de Deus é o brilho que jamais poderão tirar de você!

terça-feira, 17 de abril de 2018

Entre a Vergonha e a Honra

Foi um grande conselho o que ouvi certa vez, dado a um jovem:
"Faça sempre o que tiver medo de fazer".
(Ralph Waldo Emerson)


Uma túnica colorida, rasgada e coberta de sangue. Jacó conhecia bem aquele pedaço de pano. Foi ele mesmo quem encomendou o tecido, escolheu as cores e recomendou a atendente que um laço azul turquesa adornasse a caixa de presente. Um traje digno de reis! O velho patriarca não poupou despesas. Sequer fez orçamentos. Pagaria o que fosse necessário. Até porque, quando um príncipe completa dezessete anos, a redução de custos deixa de ser prioridade. "O príncipe". Seu príncipe. Filho favorito. Filho de Raquel. Fruto do amor verdadeiro. A materialização de um milagre ardentemente desejado. A colheita de uma flor cuja semente foi plantada em oração e regada com lágrimas.

Jacó cai ajoelhado no chão, enquanto aperta o tecido contra o peito. O sangue já coagulado, se umidifica com as gotas quentes de um choro copioso, manchando de vermelho a longa e embranquecida barba

– Achamos a túnica no campo, pai.... Haviam pegadas de lobos em volta.... Mas, nenhum vestígio de José!  

Os irmãos, cinicamente, choram com o pai, enquanto sentem um misto de culpa e alívio. Haviam se livrado de José, o vendendo a mercadores ismaelitas que rumavam ao Egito. O pirralho fofoqueiro nunca mais poria os pés em Canaã novamente, e nenhum deles seria incriminado por isto. Ninguém é culpado se não existe crime. As feras do campo tinham se banqueteado com as vísceras de José. Apenas a natureza seguindo seu curso. Jacó nunca saberia que Simeão, Gade e Rubem rasgaram o tecido com as próprias mãos, enquanto Judá, Issacar e Naftali matavam uma ovelha do rebanho. Com o sangue recolhido, eles tingiram os farrapos, enquanto a silhueta de José desaparecia no horizonte. O álibi perfeito. E o pai, cujo amor pela prole cegava os olhos para uma verdade tão cruel, não tinha motivos para questionar a veracidade do relato.

Ele chorou a morte do filho. Passou noites velando um túmulo vazio. Estava farto de dias e cansado da vida. Tarde demais para ter esperanças outra vez. José tinha sido um raio de luz cortando o céu escuro da velhice. Os bons dias de milagres e providencias, certamente já não passavam de lembrança. Um raio, como todos sabem, não cai duas vezes no mesmo lugar.

Ou será que cai?

Rebeca era estéril. A gestação de José havia sido um milagre grandioso. Deus abriu-lhe a madre e a presenteou com um filho virtuoso. Revestido de promessas. Ela nunca chegaria a saber, mas a criança que amamentou em seus seios, num futuro muito próximo, seria chamada de "Safenate-Paneia". O Salvador do Mundo! Mas agora, naquele momento, tudo que Rebeca sabe, é a intensidade de uma dor sem precedentes. Ela nunca voltaria a ver seu rebento. O filho, cujo nome significava “Deus Acrescenta”, havia sido subtraído de seus braços. Uma mulher incompleta, cujo coração pulsava no peito de forma descompassada. Pudera. Faltava metade dele.

Raquel ainda se vestia de preto, quando percebeu um novo atraso em seu ciclo menstrual. O cheiro do guisado a enjoou, e sentiu profundo desejo de saborear mandrágoras com mel em plena madrugada. Ela já conhecia os sintomas. Sentia que um novo milagre desabrochava em seu ventre. Deus havia se compadecido dela mais uma vez. Observado suas lágrimas. - Um filho! Ele jamais poderia substituir José, mas, encheria a casa de vida e alegria. Uma criança correndo pela sala, abrindo a dispensa e jogando no chão toda a farinha, era exatamente o tipo de incentivo que o casal precisava para voltar a sorrir. E com a esperança renovada, Raquel decorava de azul, o quarto a tanto tempo mantido sob portas trancadas.

Porém, enquanto a dor no coração diminuía, o corpo de Raquel era lancetado pelo sofrimento. Tudo estava diferente. Haviam sangramentos. Desmaios. Excesso de vômitos. Alguma coisa estava errada. Não com o bebê, já que ele saltava em seu ventre como se fosse uma corça selvagem. O problema era ela. Raquel sorria, mesmo sentindo vontade de chorar. Tentava divagar os pensamentos para se esquivar da agonia. - No fim, tudo vai dar certo. Em poucas semanas, ela teria seu filho nos braços e ouviria o doce som da palavra “mamãe” sendo pronunciado mais uma vez. Apesar dos pesares, tudo ficaria bem.

E então, o grande dia chegou. Os espasmos. As contrações. Raquel estava com medo. Sentia-se fraca quando mais precisava de força. Percebia os olhares apreensivos das parteiras. Respirava, e o ar não entrava em seus pulmões. Tentava gritar, mas apenas murmúrios saiam de sua boca. A visão turva. Os lábios ressecados. A pelves dilacerada por um esforço sobre-humano. E então, sem maiores alardes, o cérebro começou a se desligar paulatinamente, poupando o corpo de tamanho sofrimento. Primeiro, a luz sendo cortada pela escuridão, depois a escuridão pontuada por fragmentos de luz. E foi por uma fresta iluminada que Raquel viu seu filho pela primeira (e última) vez. Mal ouviu o choro. Não identificou a cor da íris. Porém, estava esgotada demais para se sentir decepcionada. Ciente da própria condição, pediu para que Jacó se aproximasse, e num esforço descomunal lhe fez o pedido:

- O nome... Sussurrou.

- Calma, meu amor. - Disse, Jacó com ternura. – Não fale nada, apenas tente respirar...

- O nome... - Insistiu Rebeca.

- Depois pensamos nisto, querida. - Os olhos de Jacó se enchiam de lágrimas enquanto ele, com um lenço branco,  enxugava o suor que escorria pelo rosto da mulher que tanto amava. - Descansa meu bem. Por favor.... Feche os olhos e descanse...

- O nome dele... O nome do meu filho... Ele se chamará Benoni...

E então, Rebeca acatou o conselho do marido. Fechou seus olhos para nunca mais abri-los outra vez. Morreu, gerando vida, e no sofrimento, finalmente descansou.

Benoni. Você não encontrará este nome na genealogia de Jacó. Nenhum “benonita” foi contado entre o povo de Deus. Benoni significa “Filho da Dor”. "Filho da Tristeza”. “Filho da Vergonha”. Uma personificação do sofrimento, da angústia e do desespero. Em cada aniversário, um cortejo fúnebre. Quando alguém chamasse seu nome, o filho sentiria o peso da culpa pela morte da mãe. Jacó não permitiria isso. Quando os “lobos” devoraram José, sua felicidade foi servida como sobremesa. Agora, seria diferente. Mesmo que seu coração estivesse partido, ele homenagearia sua esposa amada, negando-se a realizar o último desejo dela. Uma ilha de felicidade no meio do oceano de tristeza e enlutamento.

- O nome dele será Benjamim!

Benjamim. O significado deste nome é uma mensagem poderosa. “Filho da minha Destra”. “Filho da Honra”. “Filho da Alegria”. Quando seu nome for chamado, o sorriso de Raquel será trazido a memória. Bons momentos serão revividos com intensidade e paixão. Deus será louvado pela vida, mesmo que a morte tenha levado embora familiares queridos. Benjamim foi amado intensamente por Jacó, e com a mesma intensidade também amou seu velho pai. Nenhum resquício de mágoa ou desprezo. O patriarca o enxergava como uma obra de arte, que no rodapé, levava tanto a assinatura Deus quanto a de Raquel. Todas as essências  de um amor multiforme concentradas num único recipiente. Eles ainda não sabiam, mas um dia, dentro do palácio do Egito, José e Benjamim se olhariam nos olhos, e abraçados, derramariam lágrimas de felicidade. “O Deus que Acrescenta” e o “Deus que Honra” entronizado no coração e na história daquela família.  

Assim como Jacó, Rebeca, José e Benjamim, também não sabemos qual é nosso real papel neste enredo chamado "vida". Os propósitos que o amanhã nos reserva, sempre serão uma incógnita. E isso não é mal. Nos permite viver a plenitude do hoje, cientes que o amanhã pertence a Deus. 

É a forma como enxergamos o agora, que ilumina os corredores da eternidade. Diariamente, nos é apresentada uma cartela de opções, sem possibilidade de negativas. Quais caminhos seguir? Qual direção olhar? Qual perspectiva adotar? Enxergar o “melhor” ou o “pior” das pessoas? A escolha efetuada é apenas a primeira peça do dominó sendo derrubada sobre as fileiras do tempo. Impacto na posteridade, sentido por gerações a perder de vista . A vida seguindo em frente, mesmo que você tenha desistido dela. A grande verdade, é que se a alegria não dura para sempre, a tristeza também não é permanente.

Sendo assim, siga em frente. Não se pode segurar o furacão entre os dedos ou acalmar o terremoto com os pés. Não se vence um “mano a mano” com a morte. Aquilo que os outros fizeram, independe de você. Foi decisão deles. Provocou lágrimas? Enxugue-as! Rasgou seu coração? Deixe-o se cicatrizar! Apenas recomece de onde decretaram seu fim, e não pare jamais. Por mais que tentem influenciar sua decisão, você é o dono das escolhas. Contrarie os prognósticos negativos e enxergue a vida com olhos mais positivos. Confie na sabedoria de Deus em amarrar pontas soltas. Até porque, elas nunca estiveram soltas de verdade. São linhas de chegada que marcam os novos ciclos da vida. Finais e recomeços. Ações e reações. Escolhas e consequências.

Entenda assim. Hoje Deus coloca diante de você uma decisão que mudará os rumos de sua vida e a história das pessoas que te cercam. O momento não é favorável para a tomada de decisões importantes, e Ele sabe disto. É proposital. Faz parte dos planos. O Senhor está testando seu coração e tudo que tem escondido nele. Calibrando a direção do olhar. Checando a intensidade da fé. Mas, fique tranquilo. Não será uma questão dissertativa onde cada argumento deverá ser embasado com provas científicas. É uma questão de múltipla escolha. Melhor que isso. Apenas duas alternativas. Não há certo e nem errado. Apenas você, o hoje e seus planos para o futuro. Então, mantenha a calma... Reflita, deseje e assinale uma das opções abaixo. 

Qual é o nome do teu amanhã?

(   ) Benoni  
(   ) Benjamim


Livremente inspirado nos textos de Gêneses 35 a 37

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Quem tem medo da Sexta-Feira?


O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.
(Mahatma Gandhi)



Pense numa criança nascida na década de oitenta e dotada de imensa coragem. Certamente, não sou eu. Na minha infância, curiosidade aguçada e imaginação fértil, foram combustíveis para dias maravilhosos e noites tenebrosas. Assistir “Gremlins”, “Edward, Mãos de Tesoura” e “Convenção das Bruxas” na “Sessão da Tarde” era uma excelente diversão vespertina, que certamente provocaria inquietantes pesadelos noturnos. Isso, obviamente, se houvesse alguma condição psicológica para dormir. 

Sempre que ia a uma vídeo-locadora (faz tempo) tinha tanto medo da seção identificada como “terror”, que minha “autodefesa” era justamente ficar lendo as sinopses no verso das caixas dos filmes de ... terror. O efeito colateral desta “curiosidade” era a “imaginação” preenchendo lacunas quando as luzes se apagavam. As imagens ilustrativas da capa de “Presente Macabro” ou “Colheita Maldita” ganhando vida, enquanto as descrições vagas de publicidade se tornavam histórias fragmentadas na minha cabeça. Frio. Suor. Tremedeira. Olhos secos. Insônia. Medo imaginário provocando efeitos físicos reais.

E nada apavorou mais a minha infância que o “serial killer” usando uma máscara de hóquei para massacrar jovens “inocentes” numa sexta feira qualquer. Ou melhor. Numa Sexta Feira - 13.  Nem precisava assistir à película. Bastava saber que a “Tela Quente” exibiria o novo filme da franquia, para passar a noite em claro, com os olhos vidrados no teto, enquanto “ouvia” sons inexistentes embaixo da cama. Já era homem feito quando tive coragem para realmente assistir o “tenebroso” filme, e então, devidamente encabulado, descobrir que a origem do meu medo era ridícula. – Como é que alguém pode ficar tão amedrontado diante de tanta bobagem?

Por mais incrível que possa parecer, todos somos crianças apavoradas por medos tolos e infantis. Na verdade, a grande maioria dos nossos temores, não passam de projeções pessimistas da própria imaginação. O famoso “sofrimento” antecipado. Ou retroativo. Tempos atrás, uma aluna de teologia que passava maus bocados com o comportamento dos filhos me procurou aflita, dizendo que finalmente tinha descoberto a causa raiz dos males que atingiam sua família: - somos descendentes de espanhóis!

Segundo sua interpretação, na época das grandes navegações, quando a Espanha expandiu as fronteiras conquistando territórios na América, os colonizadores espanhóis escravizaram diversas civilizações nativas, promovendo assassinatos e estupros massivos. Era muita iniquidade entranhada na genética dos descendentes, cujas mãos ainda estavam manchadas de sangue. Assim, em pleno século XXI, Deus estava punindo aquela família pelas atrocidades cometidas pelos colonizadores em meado de 1492.  Ao final da explicação, ela estava em lágrimas, apavorada, pedindo que orasse por ela, pois precisava urgentemente ser perdoada pelo extermínio dos índios americanos.  Não pude negar um pedido de oração, mas não sem antes, trazer a pauta algumas observações pontuadas em perguntas meramente retóricas:

- Qual o tamanho do Deus que você serve?

- Que valia tem o sacrifício de Cristo no Calvário?

- A sua Bíblia não fala sobre “Novo Nascimento”, “coisas antigas ficando para trás” e “a Verdade que promove libertação?”

Medo do passado. Medo do presente. Medo do futuro. Estão mais para exercícios de imaginação, do que para provas científicas conclusivas. Podem até ter origem palpável, mas geralmente, não possuem propósito efetivo. E nesta curiosidade pelo “desconhecido”, nos esquecemos que Deus propositalmente mantem alguns aspectos da existência sob um manto de mistério. Enigmas a serem decifrados apenas na eternidade (I Coríntios 13:12). E mesmo assim, lá vamos nós, movidos pela curiosidade (ou seria teimosia?) escavar em terrenos minados na busca de respostas fantasiosas, que ao invés de esclarecer, nos lançam ainda vez mais fundo no abismo do desconhecimento. E o desconhecido, sempre provoca medo. Uma nova Sexta Feira -13 a cada amanhecer. 

Incontáveis são as pessoas que possuem verdadeira aversão ao "13", dando ao pobre algarismo a alcunha de "número do azar". Outros tantos consideram a "sexta feira" como o dia da semana mais propício aos maus agouros. Neste contexto, quando ambas teorias se entrelaçam, está formado o pandemônio. Não é exagero dizer que alguns indivíduos  caminham na fronteira da loucura, apavorados com tamanho pressagio de uma "possível" falta de sorte. Tem gente que até cita as Escrituras Sagradas como argumento, claramente confundindo fé e superstição.

- Quando o décimo terceiro dia do mês coincidir com a noite enluarada da sexta feira, melhor para ti é trancar-se em casa, pois as portas do inferno se levantarão com tamanha fúria, que em números incontáveis, as almas serão devoradas pelas trevas, e de nada valerá a tua fé ou o teu deus.  (Livro do Profeta Babaquias 13:6)

Elevando o nível de suspensão da descrença ao máximo, me ponho a perguntar se existe algum subsídio bíblico para a má fama desta data, temida, inclusive, por muitos cristãos.

A conjectura mais plausível (imagine a menos plausível) para justificar o teórico infortúnio da "sexta feira- 13" num contexto neo-testamentário, remonta a famosa ceia que Jesus realizou com os discípulos antes de sua paixão. Nela, treze homens se assentaram juntos na mesma mesa. Todos amigos. Porém, entre eles, havia um traidor, Judas Iscariotes. Portanto, o homem Nº 13, era na verdade, um agente do maligno infiltrado na família de Cristo. E agora pasmem (!?!)... em qual dia da semana tudo isto aconteceu? Na noite de quinta para sexta.  Somados os fatores, a superstição enraizada na cristandade encontra seu epicentro. Tudo tem a ver com a “Maldição da Cruz”.

Mas, será que esta sucessão de eventos fatídicos realmente respalda biblicamente o temor por uma data aleatória circulada de vermelho no calendário da sociedade ocidental?

A resposta, obviamente, é NÃO!  

A morte de Jesus não está ligada a nenhum tipo de maldição. Muito pelo contrário. Isaías 53:5 é revelador quanto a essência do sacrifício vicário de Cristo, quando poeticamente profetiza:  - "O castigo que nos trouxe a paz estava sobre Ele, e pelo seu sofrimento na cruz, nós fomos sarados."

O problema, é que alguns eruditos do achismo, não se contentam com a simplicidade das respostas bíblicas. Acham sempre que existe algo mais sombrio por trás das intempéries. Precisam justificar fracassos pessoais com argumentos cósmicos. E aí, recorrem a qualquer fonte que jorre algum tipo de líquido. Mesmo que não seja água potável.  E quem procura chifre na cabeça de cavalo, acaba galopando nos lombos de unicórnios imaginários.

Um fato histórico que pode “justificar” o tom sombrio de uma "Sexta Feira - 13" teria acontecido em 13 de outubro de 1307, e está descrito no livro "Tales of the Knights Templar". Nesta data, o rei francês Philip IV, invadiu as casas dos Cavaleiros Templários (os monges guerreiros que atuaram durante as cruzadas realizadas em nome de "Cristo"), aprisionando milhares de pessoas sob acusações que nunca foram comprovadas. Centenas de homens foram barbaramente assassinados e tantos outros sofreram torturas inenarráveis, gerando um grande pesar cada vez que a data se repetia. Historicamente, um dia negro sob nuvens densas de amargas lembranças.

Já segundo alguns pesquisadores, o mito da "Sexta-Feira - 13" teria sua origem em duas lendas nórdicas (ou escandinavas). A primeira conta que houve um banquete em Valhalla (o palácio para onde iam os guerreiros mortos em batalha), para o qual foram convidadas 12 divindades. Loki, o “deus do fogo”, a mais controversa figura daquele panteão, não foi convidado. Cheio de ciúmes, ele apareceu sem ser chamado e armou uma cilada mortífera para Baldur (deus do sol ou da luz), o preferido de Odin, deus dos deuses. Deste conto mitológico, nasceu a ideia que ter treze pessoas à mesa para um jantar, é conclamar a desgraça para dentro de casa. A outra história está mais associada com a malignidade da sexta-feira, e tem origem na lenda nórdica de Frigga (ou Freya), a deusa escandinava da paixão e da fertilidade. Segundo a crença local, quando as tribos nórdicas e germânicas foram obrigadas a se converterem ao cristianismo, as narrativas passaram a descrevê-la como uma bruxa exilada no alto de uma montanha. Dizia-se, então, que buscando vingança, ela reunia todas as sextas-feiras um grupo de doze bruxas, que juntamente com um demônio (perfazendo treze entidades), rogavam pragas sobre os humanos.

E neste ponto, é bem possível que algum leitor já esteja clamando o “Sangue de Jesus”, por estar sentindo calafrios na espinha. Ainda mais se a leitura estiver acontecendo numa sexta feira. Treze. Graças aos Céus, servimos a um Deus absoluto que não divide sua mesa com “senhores do trovão” ou “comensais da morte”. Tudo está em suas mãos. Ele é Dono do Poder. A matemática se dobra em reverência. O tempo se curva para adorá-lo. O maior de todos os números (ainda desconhecido ao homem), é apenas mais um algoritmo incrustado na engenharia do universo, que o Criador projetou e construí tendo o "nada absoluto" como matéria-prima, usando como ferramenta, nada mais que sua Palavra. Viva, ativa e eficaz.

Enfim, a superstição com a “Sexta Feira- 13” ou com “A Maldição dos Espanhóis” são meros fenômenos equivocadamente espiritualizados. Não que Satanás deixe de aproveitar as brechas que lhe são dadas, mas sim, porque muitos parecem se esquecer que basta sujeitar-se a Deus (e resistir ao Diabo), para que o inimigo bata em retirada. Independentemente do dia que seja. Não importando a nacionalidade do nome que invoca o nome de Jesus.

Quem deve sentir medo de "Jason Voorhees", são os personagens caricatos e desprovidos de inteligência que Hollywood produz em larga escala. E, é claro, crianças incautas como eu já fui, suscetíveis aos medos mais efêmeros, decorrentes da curiosidade desenfreada e de imaginação fervilhante. Não é mais o caso. Há tempos perdi este direito. Minha experiência com Deus precisa levar-me ao amadurecimento. A maturidade, por sua vez, potencializa em nós a fé, a esperança e o amor. E o verdadeiro amor, lança fora todos os medos (I João 4:18).

Para o cristão, a "Sexta Feira - 13" é um dia como outro qualquer, e deve ser vivenciada em santidade e adoração, tendo como lema o texto do Salmo 118:24. Aliás, adote o mesmo tema para todos os outros dias do ano: 

- "Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos, e alegremo-nos nele!". 

Alegre-se no Senhor que renova todas as coisas. Que transforma em benção as maiores maldições. Que redime o homem de sua perdição. Cuja graça superabundante soterra a abundância do pecado. Viva sem medo o “hoje”, ciente que no ontem, Deus já reservou o amanhã para si.  

Cresça. Amadureça. Deixa para trás as coisas de menino. Não perca noites de sono por causa de filmes da TV. Não seja assombrado por fantasmas que você mesmo projetou ou atormentado pelos demônios que povoam apenas tua mente. A Sombra do Altíssimo é seu refúgio contra os perigos da escuridão, e tua maturidade espiritual é a senha que garante acesso ao bunker que nem mesmo um ataque massivo do inferno consegue invadir. Carpe Diem, sem se perder na noite!


- Porque Deus não te deu um espírito de temor, mas de coragem, e de amor, e de equilíbrio! (II Timóteo 1:7)