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domingo, 5 de agosto de 2018

Dono do Barco... Inquilino no Mar


No Rio de Lágrimas somos pescadores de sonhos perdidos...
(Fernando Matos)


Muitas contas para pagar. Bocas famintas para alimentar. E lá vai Simão se lançar no mar escuro, confiante que aquela seria uma pescaria produtiva. Com sorte, a mais produtiva do ano. E mesmo que as primeiras levadas tenham servido apenas para lavar as redes "já limpas", ele não estava disposto a abandonar a esperança de que a próxima hora seria melhor aproveitada. Assim, madrugada a dentro, o pescador progressivamente foi sendo vencido pelo desânimo, e quando o sol raiou no horizonte da Galileia, já não existia mais força para insistir. Era hora de voltar para casa, mesmo ainda estando de mãos vazias.

Assim que chegou a margem. Simão encontrou seus companheiros de pesca. Mas, ao invés de carrancas mal-humoradas, todos tinham sorriso nos lábios. E peixes nos barcos. Na verdade, dezenas deles. Haveria variedade no mercado e fartura nas mesas. Em todas as casas... menos na de Simão. Com um nó preso na garganta, ele lamentou a má sorte num resmungo rancoroso. Sentia-se desafortunado, como se os céus zombassem de sua miséria. Sabia que era bom em seu ofício, mas todos os esforços se mostraram nulos. Confiava plenamente em sua capacidade profissional, porém os peixes se negavam a cooperar. E enquanto todos se afastavam do mar rumo a cidade, ele continuava nas margens, procrastinando o retorno ao lar. Não é fácil “vender” expectativas e somente ter frustração para “entregar”.

Mas, Simão sabe que nem todas as noites são iguais. Se hoje a pescaria não foi nada boa, amanhã será melhor. Então, certo de dias felizes (por mais triste que seja o hoje, certamente eles virão), o pescador se pôs a limpar as redes. Quando chegasse a hora, ele estaria pronto para o mar. Se jogaria nas águas mais uma vez e insistiria nos lançamentos até vencer os cardumes pelo cansaço. Da mesma forma, que os peixes o venceram na noite que se passou.

Este é o detalhe. A pescaria frustrada se tornou passado. O maior fracasso de um homem é "não se recuperar de seus fracassos". Porque ao longo de uma vida, eles serão muitos. Incontáveis. Diários. Cada SIM é precedido por inúmeros “NÃO´s”. Como bem disse o escritor norte americano Zig Ziglar, o fracasso é um “evento” e não uma “pessoa”. Ainda que não seja impossível deleta-lo da história, também não há necessidade de tratá-lo com carinho. Deixe-o ir, enquanto acena para as novas oportunidades que estão chegando. Entenda que o ontem encerrou-se a meia noite de hoje. Assim, mantenha a ferramenta afiada para a posteridade... E lá estava Simão, preparando suas redes para novas pescarias. Limpando seu barco para receber os peixes que ainda viriam as dezenas. O mar esteve momentaneamente de mal humor, porém, costumava sorrir com frequência. Ele não desistira tão facilmente. 

E foi exatamente enquanto “afiava” suas ferramentas, que a vida de Simão mudou para sempre....

Perto dali, um jovem pregador de Nazaré estava cercado pelos seus ouvintes. Em pouco tempo, as centenas se tornaram milhares, de modo que os mais distantes já não conseguiam ouvir a voz do nazareno. Então, ele teve uma ideia. Entraria num barco de pesca, se afastaria um pouco da margem, e desta maneira poderia olhar sua platéia nos olhos, destinando a cada um deles, a mesma atenção. Haviam barcos ancorados na praia, mas seus donos já tinham se retirado para o merecido descanso. Outros tantos se lançaram ao mar nos primeiros raios de sol e se encontravam distantes demais. Sem problemas. Ainda havia um. Alguém transitava entre os turnos, sem saber que aquele espaço de tempo margeando a "pescaria improdutiva" e o "descanso inquieto" estava planejado desde o princípios da eternidade.

- Bom homem...  Poderia me emprestar seu barco?

Os olhos cansados de Simão se voltaram para o nazareno, ainda cerrados para evitar o excesso de luz.. 

- O Senhor vai pescar? -

- Nunca se sabe o que o mar nos reserva, não é?  Antes, porém, preciso conversar com toda esta gente... Tenho certeza que seu barco será uma ótima sinagoga...

- Bom... Eu já estou indo para casa.... Trabalhei a noite toda... Mas, se quiser, o barco é todo seu... Só o deixe no mesmo lugar quando terminar sua pregação...

- Na verdade, eu preciso de alguém para remá-lo... Será que você não poderia esticar um pouco seu expediente?

Pobre Simão. Hora extra de um emprego não remunerado. Mas, apesar de turrão, aquele sempre foi um homem gentil e prestativo. Coração de ouro! Ele ajeitou as redes no fundo do barco, recolocou os remos na posição e ajudou o nazareno a se equilibrar na meia-nau. E pelas próximas horas, lutou contra o sono enquanto ouvia o sermão mais longo de sua vida...

Coisas ruins parecem dominós enfileirados. Basta o primeiro toque, e tudo desmorona sem intervalos para recomposição. Os antigos diziam que “desgraça pouca é bobagem”, e aparentemente tinham razão. Tem dias que as notícias ruins fazem fila na porta, se acotovelando para ver qual entra primeiro. A tempestade resulta em inundação. O terremoto causa desmoronamentos. A gripe evolui para pneumonia. Uma sucessão de infortúnios caindo do céu sobre a cabeça, enquanto a mente se vê soterrada pela inoperância. E nesta condição, sequer temos a capacidade de distinguir o cenário em volta. Não percebemos que há alguém sobre os escombros, erigindo novos alicerces.

Simão ainda não sabia, mas as redes vazias dentro barco haviam se transformado num tapete de boas-vindas para o criador de todos os peixes. E durante a noite, os cardumes ouviram sua voz. E obedeceram. – Afastem-se deste barco! Fujam destas redes. Para Simão não está autorizado nem mesmo o menor dos lambaris. E enquanto isso, lá estava o velho marujo, confiante de si mesmo, certo que as técnicas centenárias jamais falhariam. O mar era o quintal da sua casa. Ainda jovem, já era considerado um dos maiores pescadores da Galileia. Seus pescados eram famosos em Jerusalém e abasteciam as fartas mesas de Roma. Aquela era a temporada mais produtiva nas águas sempre generosas de Betsaida, literalmente, “A Casa da Pesca”. Não existiam variantes que apontassem para o revés. E mesmo assim, Simão fracassou, sem ao menos entender que o fracasso momentâneo resultaria em sucesso permanente... Afinal de contas, enquanto a lua deslizava pelo céu, um Cristo incógnito observava da margem...

- Não Pedro! Não esta noite!  Hoje não será do seu jeito, e sim do meu...

O jeito de Jesus nem sempre nos agrada. Porém, funciona com perfeição. Neste exato instante, o planejamento divino está em vigoroso funcionamento com diversas etapas concluídas, mesmo que você não observe qualquer resultado imediato. Os cardumes já nadam para o ponto de encontro enquanto as palavras de Jesus são aparentemente destinadas a pessoas aleatórias. Não se engane, o centro de tudo é Cristo, mas o epicentro da transformação é você! A grande verdade é que não será do "seu" jeito e sim do jeito "Dele"... mas algo grandioso está  acontecendo agora mesmo. 

Deixe me compartilhar um “insight” que clareou minha mente dias atrás. Por anos a fio, tenho ouvido profecias e revelações acerca do meu ministério: - Você levará a Palavra de Deus para pessoas espalhadas pelos quatro os cantos da Terra! E cada vez que ouvia está promessa, sempre me imaginava viajando de primeira classe e desembarcando nos mais famosos aeroportos do planeta. Porém, já tenho três  dezenas de anos acumulados (na verdade, um pouco mais), e meu passaporte continua em branco. Por muito tempo, esta frustração foi minha longa noite de pescaria improdutiva. Promessas que não se realizaram. Ou pelo menos, era isto que eu pensava. Enquanto escrevo este parágrafo, estou com uma página aberta no meu computador, na qual posso visualizar o histórico de acessos do “QUANDO (NÃO) ENTENDO DEUS”. Embora todos os textos sejam escritos para "leitores brasileiros", o blog tem sido acessado de diversos pontos do planeta, em TODOS os continentes. Rússia, Líbia, Ucrânia, Austrália, Peru, Estados Unidos, Uganda, Canada, Espanha Alemanha, Gana, Itália, Líbano, México, Japão, Portugal, Bolívia, Coréia, Jamaica... Não sei explicar o real motivo, mas “Filipinas” está entre os dez países com mais acessos registrados. Vai entender o trabalhar de Deus...  O barco é meu, porém o oceano é Dele, sou apenas um inquilino nestas imensas águas. Não está sendo do jeito que planejei, mas o Senhor já está realizando em minha vida os seus propósitos. Por anos tenho vivido o cumprimento das promessas sem ao menos me atentar para a fidelidade de Deus. Eu posso não compreender, mas Ele sabe o que faz... E acredite... Já está fazendo!

O jovem pregador era mais que um líder espiritual. Suas belas palavras entraram no coração de Simão e o fizeram acreditar que tudo poderia ser diferente. Mudança! Transformação! Nenhum homem continua o mesmo depois que permite que Jesus entre em seu barco. Quando o sermão acabou, Simão já não se sentia tão desanimado. Ele remou despreocupadamente até o barco tocar na areia, esperando que Jesus desembarcasse. Mas, o Mestre tinha outros planos...

- Ainda está cedo, Simão. Porque você não volta ao mar e lança suas redes mais uma vez?

- Senhor! Eu passei a noite inteira nestas águas e não apanhei um único peixe... Mas, pelas suas palavras, lançarei as redes no mar...

Estaria Simão crendo no milagre ou apenas se livrando de um homem bem inconveniente? A quem diga que as palavras de Simão indicavam convicção absoluto: - Até agora deu tudo errado. Mas agora será diferente!  Pela sua palavra, eu vou lançar a rede! Outros acreditam que o pescador estava sendo apenas... "irônico": - Com toda a minha experiência, passei a noite inteira no mar e nada apanhe..., Mas se você, um "carpinteiro" de Nazaré acha que conhece o mar melhor que eu, então vamos lá... Lançarei a rede! Certo é, que concordando ou não com a ideia, Simão obedeceu a voz de Jesus. Este é o segredo. Nem sempre é possível entender Deus. Geralmente é quase impossível concordar com Ele. E isto não muda as estatísticas. Os planos do Senhor possuem 100% de exatidão. A mais “sábia” decisão humana, é aceitar de bom grado a mais “ilógica" das ordenanças divinas. O jeito Dele é o correto, independente do manual de instrução que  teimamos seguir. 

Logo, esqueça o que você sabe, e faça o que Ele manda.

Simão levou seu barco até o ponto indicado por Jesus. O mesmo da noite passada. Lançou as redes na direção apontada por Jesus. A mesma da noite passada. A diferença? Centenas de peixes. Lucas 5 nos conta que os cardumes abarrotaram as redes, ao ponto de rompê-las. O barco estava sucumbindo ao peso, quando André,  Tiago e João vieram ajudar. O volume dos pescados foi tamanho, que ambas as embarcações quase vieram a pique. Benção recebida, conquistada e repartida. Fora do horário planejado. No mesmo cenário do último fracasso. Não estava nos planos, mas tudo se encaixou perfeitamente no propósito...

E foi então que Simão finalmente compreendeu a verdade. Entendeu quem era o homem que acolheu em seu barco...

- Afasta-te de mim Senhor, pois tu es Santo e eu pecador...

Sabe porque o teu fracasso momentâneo está presente nos planos divinos? Para cortar as asas da autossuficiência. Ensinar que vemos apenas parte de um plano, mas o Senhor conhece todo o planejamento, incluindo o seu papel dentro dele. Naquele dia, Simão aprendeu que pescar ao lado de Jesus é sempre a melhor opção, não interessando o que você acha que sabe sobre o mar. As águas são apenas a superfície de um oceano muito mais profundo, que apenas Deus conhece com total propriedade. O lugar exato onde estão os peixes que realmente importam...

- Venha comigo Pedro.... Eu farei de você um pescador de almas!


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