Existem pessoas
que passam a vida inteira tentando descobrir quem realmente são. Não porque
lhes falte uma identidade... mas porque, ao longo do caminho, muitas vozes
passam a lhes dizer quem elas deveriam ser. E, quase sempre, essas vozes falam
mais alto do que a verdade.
Mefibosete foi
um desses homens. Sua história pode ser contada a partir de quatro olhares
diferentes. Quatro perspectivas sobre a mesma vidam. Quatro maneiras distintas
de enxergar o mesmo homem.
Seu pai o olhou
primeiro. Quando Jonatas tomou aquele menino nos braços, não enxergou apenas um
filho. Viu um futuro. Viu continuidade. Viu um príncipe que pisaria sobre os
campos de batalha carregando a honra de sua casa. Por isso lhe deu um nome
digno de um vencedor: Meribe-Baal. Um nome que carregava o peso da
coragem, da força e da conquista. Antes mesmo de aprender a andar, seu pai já
acreditava que ele pisaria firme sobre a história.
Mas a vida, às
vezes, escreve capítulos que nenhum pai conseguiria prever. Bastou um tropeço
para que os pés que nasceram destinados ao trono jamais voltassem a sustentar o
próprio corpo. O menino que recebeu um nome de campeão passou a ser conhecido
por sua limitação. E quando a tragédia muda a nossa história, quase sempre muda
também a maneira como as pessoas nos enxergam.
Foi assim com
Ziba. Aquele servo jamais viu um príncipe. Seus olhos nunca atravessaram a
deficiência para encontrar a dignidade. Para ele, Mefibosete era apenas um
aleijado inconveniente, um sobrevivente que representava mais ameaça do que
herança. Um homem que deveria permanecer escondido em Lô-Debar, longe do
palácio, longe da memória, longe da possibilidade de voltar a ocupar o lugar
que um dia lhe pertenceu.
Porque há
pessoas que conseguem enxergar apenas as nossas cicatrizes. Elas reduzem toda
uma existência ao pior capítulo da nossa história. Não importa quem fomos. Não
importa quem poderíamos ser. Seremos sempre aquilo que perdemos. O problema é
que, quando ouvimos essa mentira por tempo suficiente, ela deixa de ser apenas
a opinião dos outros.
Ela se
transforma na nossa.
E então surge o terceiro olhar.
O olhar do próprio Mefibosete.
Os anos em
Lô-Debar fizeram mais do que atrofiar seus sonhos; ensinaram-no a acreditar que
não possuía valor algum. O menino que nasceu príncipe passou a se apresentar
como um cão morto. Não porque Deus o chamasse assim. Não porque sua história o
definisse dessa maneira. Mas porque a vergonha é uma lente cruel. Ela deforma a
alma antes mesmo de deformar o rosto. Há espelhos que não refletem a realidade.
Refletem apenas as feridas. E quem vive tempo demais olhando para esses
espelhos termina acreditando que é exatamente aquilo que a dor lhe mostrou.
Quantos vivem
assim?
Carregando nomes que Deus nunca pronunciou.
Aceitando rótulos que o céu jamais escreveu.
Convencidos de que o fracasso se tornou sua identidade.
Mas existe um
quarto olhar.
O único que realmente importa.
Enquanto
Mefibosete via um cão, Ziba via um aleijado e a tragédia insistia em apagar o
príncipe, Davi via uma aliança. Porque o amor nunca olha primeiro para a
condição. Olha para a promessa. Quando Davi perguntou: "Ainda resta alguém
da casa de Jonatas?", ele não estava procurando um deficiente para sentir
pena. Não buscava um fugitivo para julgar. Não queria um fracassado para
humilhar.
Procurava um
príncipe para restaurar.
Seus olhos
atravessaram Lô-Debar, venceram os anos de silêncio, ignoraram os pés feridos e
encontraram aquilo que ninguém mais conseguia enxergar: um filho da aliança. Foi
por isso que Davi não lhe devolveu apenas terras. Devolveu-lhe um lugar à mesa.
Não lhe restituiu apenas uma herança. Restituiu-lhe uma identidade.
Porque é isso
que o Rei faz.
Os homens nos chamam pelo trauma.
O céu nos chama pela promessa.
Os homens enxergam aquilo que a queda destruiu.
O Rei contempla aquilo que a graça ainda irá restaurar.
Todos nós
viveremos cercados por vozes. Algumas nos chamarão de fracassados. Outras nos
definirão pelos nossos erros, pelas nossas perdas ou pelas marcas que
carregamos. Em alguns dias, nós mesmos repetiremos essas acusações diante do
espelho, acreditando que elas são verdadeiras.
Mas o espelho
também mente.
A dor também interpreta.
A vergonha também inventa nomes.
E nem sempre aquilo que vemos em nós corresponde ao que o Rei vê quando olha para nós. No fim, não será a opinião da multidão que definirá nossa identidade. Nem a dos nossos inimigos. Nem mesmo a nossa. A única voz capaz de revelar quem realmente somos é a voz do Rei.
E é exatamente
por isso que Mefibosete aponta para Cristo. Porque o Filho de Davi continua
fazendo a mesma pergunta através dos séculos. "Ainda resta alguém?"
Ainda resta
algum leproso escondido?
Ainda resta algum paralítico convencido de que nunca mais caminhará?
Ainda resta algum mendigo acreditando que nasceu para viver do lado de fora?
Ainda resta algum coração sepultado em sua própria Lô-Debar?
Então
tragam-no. Não por causa dos seus méritos. Não porque tenha forças para voltar
sozinho. Não porque seja digno de ocupar um lugar à mesa. Mas por causa da
aliança. O Evangelho é a história de um Rei que continua procurando aqueles que
aprenderam a se esconder. Cristo atravessa nossas terras de esquecimento e nos
encontra onde ninguém mais nos procuraria. Seu olhar não para sobre nossas
deformidades, nem sobre os rótulos que o mundo nos deu. Ele olha além das
feridas, além da vergonha, além da culpa, e enxerga filhos onde todos os outros
veem mendigos.
É por isso que,
no Reino de Deus, leprosos participam do banquete. Aleijados assentam-se à
mesa. Publicanos tornam-se apóstolos. Prostitutas recebem um novo nome. Mortos
voltam a viver.
Porque, diante
do olhar do Rei, ninguém é definido por aquilo que perdeu.
Todos são redefinidos pela graça que os encontrou.
E então surge o terceiro olhar.
O olhar do próprio Mefibosete.
Carregando nomes que Deus nunca pronunciou.
Aceitando rótulos que o céu jamais escreveu.
Convencidos de que o fracasso se tornou sua identidade.
O único que realmente importa.
Os homens nos chamam pelo trauma.
O céu nos chama pela promessa.
Os homens enxergam aquilo que a queda destruiu.
O Rei contempla aquilo que a graça ainda irá restaurar.
A dor também interpreta.
A vergonha também inventa nomes.
E nem sempre aquilo que vemos em nós corresponde ao que o Rei vê quando olha para nós. No fim, não será a opinião da multidão que definirá nossa identidade. Nem a dos nossos inimigos. Nem mesmo a nossa. A única voz capaz de revelar quem realmente somos é a voz do Rei.
Ainda resta algum paralítico convencido de que nunca mais caminhará?
Ainda resta algum mendigo acreditando que nasceu para viver do lado de fora?
Ainda resta algum coração sepultado em sua própria Lô-Debar?
Todos são redefinidos pela graça que os encontrou.
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