Há uma regra
silenciosa que atravessa gerações de homens de honra, soldados e irmãos de
batalha: ninguém abandona um ferido para trás. Não importa o peso da
missão, o perigo do caminho ou o custo do resgate. Um companheiro caído nunca é
tratado como um obstáculo. Ele é tratado como responsabilidade.
Jesus contou
uma história que começa exatamente assim: um homem ficou caído à beira da
estrada. Ferido. Ensanguentado. Incapaz de dar mais um passo. O detalhe mais
perturbador da parábola não é a violência dos assaltantes. Deles, já se
esperava a crueldade. O verdadeiro escândalo começa quando homens bons chegam
ao local.
Primeiro veio o
sacerdote.
Um homem de
mãos erguidas para Deus, mas incapazes de se estender ao próximo. Em nome da
santidade, preservou sua pureza e sacrificou a misericórdia. Preferiu manter
limpas as vestes do que sujar as mãos com sangue alheio. Seguiu adiante. O
homem ficou para trás.
Depois veio o
levita.
Trabalhador.
Dedicado. Incansável. Um homem ocupado com as coisas de Deus. Mas havia um
problema: sua agenda era mais importante que a dor de um irmão. Continuou
subindo em direção ao templo, usando, sem perceber, o sofrimento do próximo
como degrau para sua própria devoção.
Há pecados que deixam cicatrizes nas mãos. Outros deixam cicatrizes na consciência. Mas talvez os mais perigosos – uma vez que passam desapercebidos - sejam aqueles que nunca cometemos com nossas ações, apenas com nossa omissão.
Não há santidade em passar ao largo.
Não há zelo que justifique a ausência de compaixão.
Não há louvor suficientemente alto para abafar o gemido de quem foi ignorado.
No fim da parábola, Jesus não perguntou quem conhecia melhor a Lei. Perguntou quem havia se tornado próximo do ferido. Porque, no Reino de Deus, todo homem bom também é responsável pelo bem que não fez. E nenhuma missão será considerada bem-sucedida se, para concluí-la, foi preciso abandonar um ferido pelo caminho.

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