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quinta-feira, 18 de junho de 2026

CORDAS DE AMOR

 


Há perguntas que Deus não faz para obter respostas. Ele pergunta apenas para despertar memórias adormecidas dentro da alma:
 
“Pode uma mãe se esquecer do filho que gerou?”
 
E, por um instante, o coração humano se cala diante da imagem. Porque existe algo quase eterno no colo de uma mãe. Há um tipo de amor que nasce antes do rosto, antes da voz, antes mesmo do primeiro choro. Um vínculo tecido no invisível, costurado entre sangue, dor e esperança. O ventre se torna morada; o coração aprende a bater em dois corpos ao mesmo tempo.
 
Como imaginar que uma mãe se esqueça?
 
Mas Deus continua.
“Ainda que ela se esquecesse… Eu não me esquecerei de vocês.”
 
E então o amor humano, tão profundo aos nossos olhos, se revela apenas sombra tímida de um amor maior. Porque o amor de Deus não depende da constância dos afetos humanos. Ele não enfraquece com a distância, não adormece com o tempo, não se rompe diante das nossas ausências.
 
Nós esquecemos.
Nós nos afastamos.
Nós nos perdemos dentro de nós mesmos.
Mas Ele permanece.
 
Há dias em que tentamos fugir desse amor como quem foge da própria luz. Caminhamos para longe acreditando que distância produz esquecimento. Construímos paredes, enterramos orações, silenciamos lágrimas e fingimos independência. Ainda assim, em algum lugar profundo da alma, continuamos ouvindo os passos de Deus atravessando nossos desertos.
 
Porque existem amores que visitam.
Mas o amor de Deus habita.
Ele ama com permanência.
Ama sem pressa.
Ama sem desistir.
 
Enquanto o mundo condiciona o afeto ao merecimento, Deus continua chamando filhos cansados pelo nome. Quando todos os altares da vida exigem desempenho, Ele oferece abrigo. Quando a culpa nos convence de que somos esquecíveis, Ele grava nossa existência nas marcas eternas de Sua memória. Seu amor não é distraído. Não é passageiro. Não sofre erosão do tempo. É amor que atravessa a morte sem perder a ternura. É amor que entra no túmulo para nos ensinar que nem o fim consegue vencê-lo. É amor que nos encontra até quando tentamos nos esconder de nós mesmos.
 
Talvez seja esse o maior mistério da graça: não é apenas que buscamos a Deus… é que, desde o princípio, era Ele quem nunca deixou de nos procurar.
 
Ele ama mães. Ama filhos. Ama órfãos de afetos. Ama corações cansados de existir. E mesmo quando o mundo inteiro se torna silencioso demais, ainda existe uma Voz eterna sussurrando sobre nós:
 

“Eu não me esqueci.”


domingo, 22 de fevereiro de 2026

O AMOR ME FERIU

                          


É justo que o Deus onipotente permita que a dor visite os frágeis habitantes do tempo finito e do espaço limitado?

Ou seria o sofrimento uma linguagem mais profunda que a razão, escrita pelo Deus onisciente sobre corações que ainda enxergam apenas microscópicos fragmentos da eternidade?

Aquilo que chamamos de ferida, talvez o céu conheça como lapidação. O que os homens interpretam como silêncio, talvez seja apenas uma resposta pronunciada em uma frequência que a alma ainda não aprendeu a ouvir.

Há dores que não nascem da ira, mas do amor. Um amor severo, porém santo. Um amor que prefere cicatrizes redentoras a condenações irreversíveis. Pois o Deus que tudo pode não desperdiça lágrimas, e o Deus que tudo sabe não permite tempestades sem contemplar o porto.

Nós contamos o tempo em dias; Ele o contempla em eternidades. Nós vemos o corte exposto na pele; Ele vê a cura. Nós sentimos o peso do processo; Ele conhece a glória do destino.

Talvez algumas das mais profundas obras da graça sejam realizadas precisamente nos lugares onde a alma sangra. Afinal, o ouro não teme o fogo porque o fogo não foi enviado para destruí-lo, mas para revelar aquilo que já estava escondido em sua essência.

Entre perguntas sem resposta, noites sem explicação e lágrimas que insistem em cair, permanece o mistério que atravessa os séculos: Seria a ausência de dor verdadeira misericórdia... ou a mais cruel das permissões?

Pois talvez o maior ato de amor não seja impedir toda lágrima, mas garantir que nenhuma delas caia em vão. A amor verdadeiro fere... para curar. O tempo decorrente entre a dor e o alivio passa pela teimosia relutante... na insistência em recalcitrar contra o amoroso aguilhão!