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terça-feira, 21 de julho de 2026

TEMPO DE CHORAR

 


Dias de tristeza são inevitáveis. O choro é, literalmente, a prova de que estamos vivos. Nascemos entre lágrimas e, quase sempre, nos despedimos da vida também por elas. Deus nunca prometeu uma existência sem dor; prometeu apenas que a dor nunca teria a palavra final.
 
Há momentos em que a tristeza se apresenta como uma ilha. Caminhamos por ela sem direção, cercados por lembranças, perguntas e silêncios que parecem maiores do que a própria esperança. Nessas horas, tudo o que os olhos conseguem enxergar é o terreno do luto. A alma perde a perspectiva, e o coração acredita que aquela pequena porção de sofrimento é tudo o que existe.
 
Mas nunca é.
 
Abraão conheceu esse lugar.
 
Durante anos, peregrinou por uma terra que Deus dizia ser sua, embora não pudesse chamá-la de propriedade. Caminhou por montes, vales e campinas olhando para uma promessa que existia plenamente no céu, mas que ainda não possuía qualquer registro na terra. O homem que recebera a promessa de uma grande herança não tinha sequer um pedaço de chão onde pudesse fincar os pés e dizer: "Isto é meu."
 
Então veio o dia mais escuro.
Sara morreu.
 
A mulher que atravessara desertos ao seu lado, que rira da promessa antes de contemplar o milagre, que dividira tendas, fome, viagens e esperanças, agora precisava ser sepultada. E Abraão descobriu que nem mesmo para enterrar quem amava possuía um lugar. Foi chorando que ele negociou. Foi enlutado que ele assinou. Foi entre lágrimas que recebeu sua primeira escritura.
 
Macpela.
 
Que estranho é o modo como Deus, às vezes, inaugura promessas. A primeira propriedade de Abraão não foi um campo para celebrar, nem um jardim para descansar, nem um palácio para habitar. Foi um sepulcro. O primeiro pedaço oficial da terra prometida era um lugar de despedidas.
 
Se olhássemos apenas para Macpela, concluiríamos que tudo terminava ali. Veríamos apenas uma caverna, uma sepultura, um homem envelhecido abraçado à dor de perder o amor da sua vida. Mas Deus nunca olhou apenas para Macpela. Porque ao redor daquela pequena caverna estava Canaã inteira. Macpela era somente o primeiro metro quadrado daquilo que um dia pertenceria aos seus descendentes.
 
O que parecia um fim era, na verdade, o começo da materialização de uma promessa que sempre existira no coração de Deus. Há dias em que Deus nos entrega apenas uma pequena porção da promessa, e curiosamente ela vem envolta em lágrimas. Recebemos uma caverna quando esperávamos um jardim. Encontramos uma escritura no meio do funeral. Ganhamos um pedaço de terra exatamente quando o coração acreditava ter perdido tudo. E porque nossos olhos estão fixos em Macpela, esquecemos de olhar para Canaã.
 
A tristeza faz isso conosco. Ela reduz o horizonte. Faz a ilha parecer um continente. Faz o momento parecer eterno. Faz a caverna parecer toda a geografia da nossa existência. Mas Deus continua vendo o oceano. Aquilo que chamamos de fim pode ser apenas a primeira coordenada de uma herança muito maior. A pequena caverna onde hoje choramos talvez seja apenas o marco inicial de uma terra que nossos filhos espirituais ainda percorrerão.
 
Macpela nunca foi o destino.
Foi apenas o endereço onde a promessa começou a deixar de ser invisível.
 
Por isso, chore. Há lágrimas que são inevitáveis e até sagradas. O próprio Deus as recolhe. Há dores que precisam ser atravessadas, despedidas que não podem ser evitadas e cavernas onde o silêncio se torna a única oração possível.
 
Mas não construa sua casa em Macpela. Visite-a quando for necessário. Honre suas memórias. Derrame suas lágrimas. Enterre o que precisa ser enterrado. Depois levante os olhos. Porque existe uma Canaã esperando além da caverna.
 
A tristeza é apenas uma ilha. Ao redor dela existe um oceano de graça, de esperança e de futuros que Deus continua preparando. Macpela pode ser o lugar onde hoje você chora, mas jamais será o lugar onde Deus pretende terminar a sua história. Às vezes é triste. Mas também é belo. Porque Deus tem o hábito de transformar lugares de sepultamento em marcos de promessa, lágrimas em escrituras e despedidas em começos.
 
Às vezes dói.
Mas é só o começo.
É - realmente - triste.
Mas também é lindo.


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segunda-feira, 20 de julho de 2026

INCANSÁVEIS ESCAVADORES DE POÇOS


Não se engane... os entulhadores de poços estão — irritantemente — empenhados nessa infame tarefa. São insistentes, arrogantes e presunçosos. Consideram sucesso a destruição do trabalho alheio. Alimentam-se do atraso dos projetos, da interrupção dos sonhos e do sufocamento dos legados. Onde alguém cava com esperança, eles chegam carregando entulho.

 
Foi exatamente isso que aconteceu com Isaque. Os poços que haviam sido abertos por seu pai, Abraão, eram muito mais do que buracos no chão. Eram memória, sobrevivência, herança e promessa. Eram testemunhos de que Deus havia passado por aquele lugar. Entretanto, depois da morte de Abraão, os filisteus fizeram questão de entulhá-los. Não porque precisassem da terra, mas porque não suportavam a lembrança de que Deus havia feito prosperar um homem entre eles.
 
Gente que não quer possuir aquilo que é do outro... quer apenas impedir que o outro desfrute do favor do próprio Deus.
 
Não é diferente conosco. Existem pessoas que tentam entulhar nossa fé com dúvidas, nossa vocação com críticas, nossos relacionamentos com ofensas, nossos sonhos com desprezo e nossa esperança com o peso das decepções. Os entulhadores sempre existirão. Eles encontram satisfação onde outros encontram propósito.
 
Contra eles, mantenha-se irredutível. Não desperdice suas forças tentando convencê-los, tampouco permita que determinem o destino daquilo que Deus colocou em suas mãos. Há batalhas que não se vencem com argumentos, mas com perseverança.
 
Existe uma ferramenta poderosa e infalível, capaz de vencer toda a insistência dos entulhadores: a perseverança dos escavadores.
 
Isaque sabia que qualquer poço que abrisse poderia ser tomado, disputado ou novamente entulhado. Ainda assim, cavou. A coragem dele não estava na garantia do sucesso, mas na convicção de que desistir jamais produziria água. Ele reabriu os antigos poços de Abraão. Isso nos ensina que algumas gerações não precisam inventar novas fontes; precisam apenas remover o entulho que cobre verdades antigas. Há promessas esquecidas debaixo da terra. Há princípios soterrados pela pressa. Há intimidade com Deus escondida sob camadas de distração.
 
Reabrir também é um ato de fé.
 
Mas Isaque não viveu apenas de herança.
Ele continuou cavando.
 
O primeiro poço disputado recebeu o nome de Eseque, que significa "contenda". A água apareceu, mas, junto dela, surgiram aqueles que reivindicavam aquilo que não haviam construído. É assim na vida. Muitas vezes, a primeira batalha não é contra a escassez, mas contra a oposição. Há quem queira transformar sua conquista em conflito, sua bênção em discussão, seu chamado em competição. Nem toda contenda merece resposta. Algumas merecem apenas uma pá nas mãos e a decisão de continuar cavando em outro lugar.
Então Isaque cavou novamente.
 
O segundo poço foi chamado Sitna, "inimizade" ou "acusação". Se em Eseque havia disputa, em Sitna a resistência tornou-se ainda mais pessoal. A oposição deixou de ser circunstancial e passou a ser intencional. Quantas vezes também atravessamos os territórios de Sitna? São dias em que somos mal interpretados, injustiçados, acusados ou combatidos sem razão aparente. Nesses momentos, a tentação é abandonar a missão. Mas Isaque nos ensina que há ocasiões em que a resposta mais madura não é permanecer brigando, mas permanecer caminhando.
 
E ele cavou outra vez.
 
Foi então que surgiu Reobote, cujo significado é "lugares amplos" ou "espaço". Depois da contenda e da inimizade, Deus lhe deu amplitude. Não porque os inimigos desapareceram, mas porque chegou o tempo em que ninguém mais conseguiria impedir aquilo que Deus havia decidido estabelecer. Algumas bênçãos não acontecem quando nossos adversários mudam; acontecem quando Deus decide abrir espaço onde antes só havia limites.
 
Reobote é o lugar onde entendemos que a perseverança sempre encontra recompensa. Quem suporta Eseque e atravessa Sitna acaba descobrindo que Deus continua sendo especialista em preparar lugares largos para quem se recusa a desistir.
 
Mas a história ainda não termina ali.
 
De Reobote, Isaque seguiu para Berseba. Ali não encontrou apenas um poço; encontrou um altar. Antes de consolidar a água, consolidou a adoração. Antes de celebrar a provisão, celebrou o Provedor. Naquela noite, Deus lhe apareceu dizendo: "Não temas, porque eu sou contigo." Há uma lição preciosa nisso: os poços sustentam a vida, mas é a presença de Deus que sustenta quem cava.
 
Depois do altar, seus servos cavaram mais uma vez e encontraram água. A sequência é reveladora. Primeiro a presença, depois a provisão. Primeiro Deus reafirma Sua aliança; depois confirma Sua fidelidade. Talvez este seja o grande segredo da perseverança. Os entulhadores trabalham olhando para o passado; os escavadores trabalham olhando para a fonte. Uns concentram esforços para cobrir a água. Outros concentram forças para alcançá-la novamente.
 
Nunca permita que a determinação do inimigo para entulhar seus poços seja maior do que sua disposição para abri-los. Que a insistência de quem destrói jamais supere a perseverança de quem constrói. Continue escavando.
 
Se encontrar Eseque, não transforme a contenda em morada.
Se atravessar Sitna, não permita que a inimizade enterre sua vocação.
Até que Deus o conduza a Reobote, onde haverá espaço suficiente para florescer.
 
E quando chegar a Berseba, não se esqueça de erguer um altar antes de celebrar o poço.
Porque os entulhadores podem cobrir a terra por um tempo, mas jamais conseguirão secar a fonte que Deus determinou para aqueles que permanecem cavando.
 
No fim, não prevalece quem mais entulhou, mas quem nunca desistiu de escavar. A água sempre recompensa aqueles que tiveram mais perseverança para cavar do que seus inimigos tiveram persistência para entulhar.