Após a sua
ressurreição, Jesus não fez da glória a primeira evidência da sua vitória. O
céu havia recebido de volta o Rei, a morte havia sido vencida, o inferno havia
perdido sua maior batalha, mas o Ressuscitado não chamou seus discípulos para
contemplarem o esplendor da eternidade. Em um gesto que somente o amor seria
capaz de compreender, preferiu que as cicatrizes falassem por Ele.
Foi como se
dissesse que existem verdades que a luz não consegue revelar, mas que somente
uma ferida pode contar. Então lhes mostrou as mãos.
É impossível
não perceber a delicadeza desse momento. Cristo olha para homens profundamente
feridos e, em vez de esconder aquilo que sofreu, oferece justamente o lugar
onde mais doeu. As mãos que foram rasgadas pelos cravos tornam-se, agora, o
primeiro sermão da ressurreição.
Ele não aponta
para o túmulo vazio.
Não aponta para os anjos.
Não aponta para o caminho por onde saiu vencendo a morte.
Aponta para as feridas.
Porque sabia
que aqueles homens carregavam feridas que não eram visíveis. Pedro ainda
sangrava pela negação. João carregava o silêncio de quem assistiu ao Calvário
sem conseguir impedir a dor. Tomé havia transformado sua decepção em
incredulidade. Os demais estavam aprisionados entre portas fechadas, não por
causa dos judeus, mas por causa da culpa. Havia mais cruz dentro deles do que
atrás deles.
E Cristo sabia
que nenhuma demonstração de poder seria suficiente para curar aquilo que
somente o amor poderia alcançar. Por isso, antes de lhes entregar uma missão,
entrega-lhes as mãos. Antes de enviá-los ao mundo, convida-os a contemplar as
marcas. Antes do "Ide", existe o "Olhem". Porque ninguém
consegue anunciar esperança enquanto ainda é governado pelas próprias feridas.
Talvez seja
este o detalhe mais extraordinário da ressurreição: Jesus não removeu as marcas
da cruz para provar que venceu a morte. Preferiu conservá-las para provar que o
amor continua o mesmo. As cicatrizes não permaneceram porque a cruz foi forte
demais; permaneceram porque o amor se recusou a esquecer o preço da nossa
redenção.
Depois, Ele
lhes oferece a paz.
Não é uma paz separada das cicatrizes.
É uma paz que nasce delas.
A paz não vem apesar das feridas.
A paz vem através das feridas.
Como um rio que
brota exatamente da rocha que foi ferida no deserto, a paz de Cristo nasce do
lugar onde o sangue encontrou a madeira. As mãos atravessadas tornam-se fonte
para corações atravessados. As feridas do Salvador começam, silenciosamente, a
costurar as rupturas dos discípulos.
No caminho de
Emaús, o mesmo milagre...
Dois homens
caminham esmagados pelo peso das expectativas sepultadas. Não lhes faltava
informação; faltava esperança. Conheciam os fatos, mas já não conseguiam
enxergar Deus dentro deles. O Ressuscitado caminha ao lado daqueles homens
durante quilômetros. Expõe as Escrituras. Reacende as promessas. Faz o coração
voltar a arder. Mas seus olhos continuam fechados. Somente quando Ele toma o
pão em suas mãos, dá graças e o parte, as marcas aparecem novamente.
E é curioso
perceber que o reconhecimento nasce exatamente ali. Os olhos dos discípulos não
se abrem diante da eloquência de Cristo. Abrem-se diante das suas feridas. As
mãos que repartem o pão são as mesmas que foram rasgadas pelos cravos.
E, naquele instante, eles compreendem que a cruz não foi o fim da história; foi o lugar onde Deus decidiu reescrevê-la.
Talvez seja aí
que repousa uma das maiores tragédias da alma humana.
Gastamos anos contemplando as nossas próprias feridas.
Medimos nossas perdas.
Contamos nossas decepções.
Reabrimos lembranças que Deus já desejava cicatratrizar.
Transformamos nossas dores em identidade e nossas cicatrizes em morada.
O sofrimento exige os nossos olhos o tempo todo.
Mas Cristo
continua dizendo a mesma coisa que disse naquela primeira noite da
ressurreição: "Olhem para as minhas mãos."
Porque existe
uma diferença infinita entre olhar para a ferida que carregamos e olhar para a
ferida que nos carrega. As nossas feridas contam aquilo que o pecado, as
pessoas e a vida fizeram conosco. As feridas de Cristo contam aquilo que Deus
fez por nós.
As nossas
sangram culpa.
As d'Ele derramam graça.
As nossas nos lembram do que perdemos.
As d'Ele anunciam tudo aquilo que jamais poderá nos ser tirado.
Enquanto nossos olhos permanecerem presos às marcas que a vida deixou em nós, continuaremos vivendo como sobreviventes da dor. Mas quando aprendermos a contemplar as marcas que o amor deixou n'Ele, descobriremos que há uma cura que não nasce do tempo, nem do esquecimento, nem das respostas. Ela nasce das mãos traspassadas do Cordeiro.
Porque, no
Reino de Deus, não são as nossas cicatrizes que curam as nossas feridas.
São as feridas d'Ele. Anda abertas... sangrando sobre nossas pisaduras.
Não aponta para os anjos.
Não aponta para o caminho por onde saiu vencendo a morte.
Aponta para as feridas.
Não é uma paz separada das cicatrizes.
É uma paz que nasce delas.
A paz não vem apesar das feridas.
A paz vem através das feridas.
E, naquele instante, eles compreendem que a cruz não foi o fim da história; foi o lugar onde Deus decidiu reescrevê-la.
Gastamos anos contemplando as nossas próprias feridas.
Medimos nossas perdas.
Contamos nossas decepções.
Reabrimos lembranças que Deus já desejava cicatratrizar.
Transformamos nossas dores em identidade e nossas cicatrizes em morada.
O sofrimento exige os nossos olhos o tempo todo.
As d'Ele derramam graça.
As nossas nos lembram do que perdemos.
As d'Ele anunciam tudo aquilo que jamais poderá nos ser tirado.
Enquanto nossos olhos permanecerem presos às marcas que a vida deixou em nós, continuaremos vivendo como sobreviventes da dor. Mas quando aprendermos a contemplar as marcas que o amor deixou n'Ele, descobriremos que há uma cura que não nasce do tempo, nem do esquecimento, nem das respostas. Ela nasce das mãos traspassadas do Cordeiro.
São as feridas d'Ele. Anda abertas... sangrando sobre nossas pisaduras.
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