Dias de tristeza são inevitáveis. O choro é, literalmente, a
prova de que estamos vivos. Nascemos entre lágrimas e, quase sempre, nos
despedimos da vida também por elas. Deus nunca prometeu uma existência sem dor;
prometeu apenas que a dor nunca teria a palavra final.
Há momentos em que a tristeza se apresenta como uma ilha.
Caminhamos por ela sem direção, cercados por lembranças, perguntas e silêncios
que parecem maiores do que a própria esperança. Nessas horas, tudo o que os
olhos conseguem enxergar é o terreno do luto. A alma perde a perspectiva, e o
coração acredita que aquela pequena porção de sofrimento é tudo o que existe.
Mas nunca é.
Abraão conheceu esse lugar.
Durante anos, peregrinou por uma terra que Deus dizia ser
sua, embora não pudesse chamá-la de propriedade. Caminhou por montes, vales e
campinas olhando para uma promessa que existia plenamente no céu, mas que ainda
não possuía qualquer registro na terra. O homem que recebera a promessa de uma
grande herança não tinha sequer um pedaço de chão onde pudesse fincar os pés e
dizer: "Isto é meu."
Então veio o dia mais escuro.
Sara morreu.
A mulher que atravessara desertos ao seu lado, que rira da
promessa antes de contemplar o milagre, que dividira tendas, fome, viagens e
esperanças, agora precisava ser sepultada. E Abraão descobriu que nem mesmo
para enterrar quem amava possuía um lugar. Foi chorando que ele negociou. Foi
enlutado que ele assinou. Foi entre lágrimas que recebeu sua primeira
escritura.
Macpela.
Que estranho é o modo como Deus, às vezes, inaugura
promessas. A primeira propriedade de Abraão não foi um campo para celebrar, nem
um jardim para descansar, nem um palácio para habitar. Foi um sepulcro. O
primeiro pedaço oficial da terra prometida era um lugar de despedidas.
Se olhássemos apenas para Macpela, concluiríamos que tudo
terminava ali. Veríamos apenas uma caverna, uma sepultura, um homem envelhecido
abraçado à dor de perder o amor da sua vida. Mas Deus nunca olhou apenas para
Macpela. Porque ao redor daquela pequena caverna estava Canaã inteira. Macpela
era somente o primeiro metro quadrado daquilo que um dia pertenceria aos seus
descendentes.
O que parecia um fim era, na verdade, o começo da
materialização de uma promessa que sempre existira no coração de Deus. Há dias
em que Deus nos entrega apenas uma pequena porção da promessa, e curiosamente
ela vem envolta em lágrimas. Recebemos uma caverna quando esperávamos um
jardim. Encontramos uma escritura no meio do funeral. Ganhamos um pedaço de
terra exatamente quando o coração acreditava ter perdido tudo. E porque nossos
olhos estão fixos em Macpela, esquecemos de olhar para Canaã.
A tristeza faz isso conosco. Ela reduz o horizonte. Faz a
ilha parecer um continente. Faz o momento parecer eterno. Faz a caverna parecer
toda a geografia da nossa existência. Mas Deus continua vendo o oceano. Aquilo
que chamamos de fim pode ser apenas a primeira coordenada de uma herança muito
maior. A pequena caverna onde hoje choramos talvez seja apenas o marco inicial
de uma terra que nossos filhos espirituais ainda percorrerão.
Macpela nunca foi o destino.
Foi apenas o endereço onde a promessa começou a deixar de ser invisível.
Por isso, chore. Há lágrimas que são inevitáveis e até
sagradas. O próprio Deus as recolhe. Há dores que precisam ser atravessadas,
despedidas que não podem ser evitadas e cavernas onde o silêncio se torna a
única oração possível.
Mas não construa sua casa em Macpela. Visite-a quando for
necessário. Honre suas memórias. Derrame suas lágrimas. Enterre o que precisa
ser enterrado. Depois levante os olhos. Porque existe uma Canaã esperando além
da caverna.
A tristeza é apenas uma ilha. Ao redor dela existe um oceano
de graça, de esperança e de futuros que Deus continua preparando. Macpela pode
ser o lugar onde hoje você chora, mas jamais será o lugar onde Deus pretende
terminar a sua história. Às vezes é triste. Mas também é belo. Porque Deus tem
o hábito de transformar lugares de sepultamento em marcos de promessa, lágrimas
em escrituras e despedidas em começos.
Às vezes dói.
Mas é só o começo.
É - realmente - triste.
Mas também é lindo.
Sara morreu.
Foi apenas o endereço onde a promessa começou a deixar de ser invisível.
Mas é só o começo.
É - realmente - triste.
Mas também é lindo.

