“E o sacerdote vestirá a sua veste de
linho, e vestirá as calças de linho sobre a sua carne, e levantará a cinza,
quando o fogo houver consumido o holocausto sobre o altar, e a porá junto ao
altar. Depois despirá as suas vestes, e vestirá outras vestes; e levará a cinza
para fora do arraial, a um lugar limpo. O fogo sobre o altar arderá
continuamente; não se apagará. O sacerdote queimará lenha nele cada manhã, e
sobre ele porá em ordem o holocausto, e sobre ele queimará a gordura das
ofertas pacíficas. O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se apagará.” Levítico
6:10–13
Se compararmos os obreiros do Tabernáculo
com as estruturas eclesiásticas contemporâneas, encontraremos nos sacerdotes
levitas homens revestidos de uma responsabilidade espiritual extraordinária.
Eles não eram apenas líderes religiosos; eram guardiões do altar. Sobre eles
estava a responsabilidade de aproximar-se de Deus, ministrar diante de Sua
presença, cuidar das coisas santas e manter aceso aquilo que o próprio Deus
havia acendido. E o que vem de Deus não precisa ser fabricado pelo homem;
precisa ser recebido com reverência, cuidado com temor e preservado com
fidelidade.
O fogo não nasceu no altar.
O fogo veio do céu.
Deus acendeu a chama.
Entregou ao sacerdote a responsabilidade de
cuidar daquele altar.
Essa é a tensão extraordinária de Levítico
6: a origem é divina, mas existe uma responsabilidade humana diante dela.
O homem não fabrica a chama, mas pode negligenciar a lenha. Não produz o fogo,
mas pode abandonar o altar. Não determina a presença de Deus, mas precisa
decidir como permanecer diante dela.
Antes, porém, de o fogo descer, houve
preparação. Arão e seus filhos foram separados para o sacerdócio e apresentados
à congregação à porta da tenda da congregação. Moisés os lavou com água, vestiu
Arão com as vestes sacerdotais, ungiu-o com óleo e realizou os sacrifícios
determinados por Deus. Tudo isso está registrado em Levítico 8:1–30. Houve
oferta pelo pecado, holocausto e o carneiro da consagração. O sangue do
carneiro da consagração foi colocado na ponta da orelha direita, no polegar da
mão direita e no polegar do pé direito de Arão e de seus filhos (Levítico
8:22–24).
O sacerdote deveria ouvir, servir e andar
em submissão a Deus.
Depois da consagração, Moisés ordenou que
Arão e seus filhos permanecessem à porta da tenda da congregação por sete dias,
até que se completassem os dias de sua consagração (Levítico 8:33–35). Eles
precisaram esperar diante de Deus.
Havia preparação, consagração, expiação,
unção e permanência.
Eles não estavam apenas sendo preparados
para executar uma função; estavam sendo preparados para permanecer diante da
presença de um Deus santo.
Então chegou o momento.
Levítico 9:23–24 registra que Moisés e Arão entraram na
tenda da congregação, saíram e abençoaram o povo, e a glória do Senhor apareceu
a todo o povo:
“E saiu fogo de diante do Senhor e consumiu
o holocausto e a gordura sobre o altar; o que vendo todo o povo, jubilaram e
caíram sobre as suas faces.”
O fogo veio.
E, quando veio, ficou evidente de onde
havia vindo.
O fogo do altar não foi fabricado pelos
sacerdotes. Não foi resultado da habilidade de Arão, nem consequência de alguma
técnica religiosa. Não foi produzido por mãos humanas. Saiu de diante do
Senhor. O fogo veio de Deus e veio pelos termos de Deus.
Nenhum sacerdote poderia reivindicar
autoria da chama. Eles poderiam preparar o altar, organizar o sacrifício,
permanecer em reverência e cumprir todas as determinações recebidas, mas não
poderiam dizer: “Nós produzimos o fogo.”
Existem coisas que o homem pode organizar,
mas não pode originar; coisas que pode administrar, mas não pode produzir;
coisas que pode cuidar, mas que precisam nascer no coração de Deus. Essa
verdade continua profundamente atual. Podemos construir templos, preparar
púlpitos, organizar liturgias, desenvolver métodos, aperfeiçoar apresentações,
preparar sermões e reunir multidões. Podemos criar ambientes extraordinários.
Mas o que realmente importa é: de onde o fogo virá?
Podemos produzir ambiente, mas não podemos
produzir a presença de Deus.
Podemos produzir emoção, mas não podemos
fabricar a manifestação de Deus. Podemos organizar o altar, mas não podemos
acender a chama do céu.
O fogo verdadeiro não sobe da terra; ele
desce do céu.
Antes do fogo houve consagração,
obediência, sacrifício, temor e espera. Não porque essas coisas fossem uma
fórmula capaz de obrigar Deus a agir, mas porque Deus estava formando aqueles
que haveriam de servi-lo. O fogo não foi recompensa pela habilidade do
sacerdote. Foi manifestação da santidade e da presença de Deus. Por isso, quem
recebe a chama nunca pode se comportar como se fosse dono dela. O fogo pertence
ao Senhor.
É justamente aqui que Levítico 6:12–13 se
torna ainda mais profundo. O fogo já havia descido. Deus já havia manifestado
Sua presença. Agora o Senhor estabelece a responsabilidade contínua do
sacerdote:
“O fogo sobre o altar arderá continuamente;
não se apagará; mas o sacerdote acenderá lenha nele cada manhã...”
O sentido do texto é claro: o sacerdote
deveria colocar lenha, ordenar o holocausto e manter o altar em serviço
contínuo.
“O fogo arderá continuamente sobre o altar;
não se apagará.”
Deus não ordenou ao sacerdote que reproduzisse
a origem da chama.
O sacerdote recebeu a responsabilidade de mantê-la
acesa.
O fogo é dom; o serviço é resposta.
Deus acende, e o homem serve.
Deus inicia, e o homem responde.
Deus manifesta, e o homem cuida daquilo que
recebeu.
O trabalho do sacerdote era absolutamente
necessário, mas nunca era a fonte da chama. Havia responsabilidade real. Todas
as manhãs era necessário trazer lenha. Era necessário cuidar da ordem. Era
necessário remover as cinzas. Era necessário permanecer diante do altar. Limpar
o que sobrou de ontem para que o altar esteja preparado para hoje. Há dias em
que Deus nos permite contemplar o fogo. Há dias em que nos chama para colocar
lenha. Há dias de sacrifício e há dias de cinzas. Mas todos eles pertencem ao
serviço do altar. Não existe demérito em carregar cinzas. Quem cuida do altar
sabe que até aquilo que foi consumido pelo fogo precisa ser tratado com
reverência.
O sacerdote trabalha, mas não é a fonte do
fogo. E essa verdade também nos protege de um dos maiores perigos da vida
espiritual: tentar produzir aquilo que somente Deus pode produzir.
O fogo de Deus não é neutro.
Ele ilumina, mas também consome.
Aquece, mas também purifica.
Manifesta, mas também confronta.
O fogo divino não existe para
entretenimento espiritual. Ele não está no altar para produzir espetáculo. Está
associado à santidade, ao juízo e à manifestação de Deus.
Por isso, existe uma diferença entre querer
a presença de Deus e querer ser transformado pela presença de Deus. Muitas
vezes queremos o consolo, mas não queremos a correção; queremos a bênção, mas
não queremos o altar; queremos a presença, mas não queremos a transformação. O
fogo verdadeiro trabalha em nós.
Ele confronta aquilo que precisa morrer.
Revela aquilo que escondemos.
Consome aquilo que não pode permanecer.
Levítico 10:1–3 apresenta uma advertência
solene. Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário,
colocaram fogo nele e ofereceram diante do Senhor “fogo estranho, que ele não
lhes ordenara”. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu. Eles
conheciam o sacerdócio, o altar e os utensílios. Mas decidiram apresentar
diante de Deus aquilo que Ele não havia ordenado. O problema não era
simplesmente falta de conhecimento do ambiente religioso. Eles conheciam o
ambiente. O problema era a falta de reverência diante do Deus que havia
estabelecido o altar.
E aqui está o alerta: é possível conhecer o
sistema e perder o temor do Deus do sistema. É possível conhecer a linguagem da
igreja, dominar métodos, conhecer técnicas, organizar estruturas e ainda assim
substituir o fogo que veio do céu por aquilo que nós mesmos produzimos.
O fogo estranho é perigoso porque pode
parecer fogo. Pode iluminar, impressionar e atrair. Pode produzir movimento.
Mas não veio de Deus. Quando aquilo que deveria apontar para Deus começa a
apontar para o homem, o altar deixa de ser altar e transforma-se em palco.
No altar há ordem, reverência, sacrifício,
constância e obediência.
No palco, quando dominado pela lógica da
performance, existe o risco da auto exaltação, da aparência e da substituição
da glória de Deus pela glória humana.
O altar consome o homem para que Deus
apareça.
O palco tenta usar Deus para que o homem
apareça.
No altar, a pergunta é:
“O que precisa morrer para que Deus seja
glorificado?”
Na lógica da performance, a pergunta pode
se tornar:
“O que preciso fazer para que as pessoas me
vejam?”
É por isso que a conhecida frase de
Dietrich Bonhoeffer continua tão confrontadora: “Quando Cristo chama um
homem, Ele o chama para vir e morrer.” Morrer para o ego. Morrer para a
necessidade de reconhecimento. Morrer para a necessidade de controlar. Morrer
para a necessidade de ser visto. Morrer para a tentação de transformar o
ministério em plataforma pessoal. Porque o altar não foi feito para preservar o
nome do sacerdote. Foi feito para revelar a santidade de Deus.
Deus acende; o homem serve.
O fogo não começa no altar.
Começa em Deus.
O
sacerdote não é a fonte da chama; é o servo que permanece diante dela.
“O fogo arderá continuamente sobre o altar;
não se apagará.”
O fogo permanece porque Deus estabeleceu a
chama, mas o sacerdote continua sendo chamado a cuidar do altar. É o chamado das
chamas chamando quem foi chamado para servir o próprio Criador do fogo.
Talvez o maior perigo da vida espiritual
não seja simplesmente apagar o fogo, mas esquecer de onde ele veio. Quando
esquecemos sua origem, começamos a tentar produzir aquilo que somente Deus pode
gerar e conceder. Queremos fabricar presença, avivamento, poder e glória,
enquanto negligenciamos a simplicidade da obediência.
Em vez de colocar lenha, queremos produzir
fogo.
Em vez de remover as cinzas, queremos ser
vistos.
Em vez de permanecer, queremos controlar.
Deus está nos chamando de volta ao altar.
De volta à consagração.
De volta à reverência.
De volta à presença.
De volta à simplicidade de servir.
Deus não precisa de geradores de chama.
Ele procura servos fiéis diante do fogo que
Ele mesmo acendeu.
Nossa responsabilidade não é fabricar a
chama, mas permanecer fiéis diante dela: trazendo a lenha, cuidando do altar,
removendo as cinzas e obedecendo ao Deus que nos chamou.
Porque o fogo é dEle.
A glória é dEle.
E nós somos apenas servos diante da chama.
Este é o chamado.

