Ela
nunca foi a personagem principal da narrativa. Quando abrimos Gênesis, nossos
olhos são conduzidos para Abraão, o homem da promessa. Depois, para Sara, a
mulher da aliança. A história gira em torno deles, de suas expectativas, de sua
esterilidade, de suas decisões acertadas, de suas falhas evitáveis e da
fidelidade de Deus em cumprir aquilo que havia prometido. Agar aparece quase
como um detalhe.
Seu
nome entra na narrativa não porque tenha sido escolhida, mas porque foi
escolhida por outros. Ela não possui voz nas decisões que determinam seu
destino. Não lhe perguntam se deseja gerar um filho. Não lhe perguntam se
aceita participar daquele plano. Não lhe perguntam se quer permanecer ou
partir. Ela é conduzida pelos desejos de quem possui poder. Sua vida é escrita
pelas mãos de outras pessoas.
É
assim que vivem os invisíveis... pessoas presentes na história, mas ausentes
das decisões. Carregam responsabilidades, mas não possuem autoridade.
Influenciam acontecimentos sem receber qualquer reconhecimento. São lembradas
apenas enquanto são úteis e esquecidas quando deixam de servir aos interesses
de alguém. Agar era exatamente isso... uma escrava. E a escravidão não
aprisiona apenas o corpo; ela tenta convencer alguém de que sua existência
possui menos valor do que a dos outros.
Ela
era apenas um instrumento dentro da história da promessa. Ou, pelo menos, era
isso que todos imaginavam. Porque existe uma característica extraordinária na
maneira como Deus escreve.
Enquanto
os homens enxergam personagens secundários, Deus vê filhos.
Enquanto
a narrativa humana estabelece protagonistas e figurantes, Deus não mede pessoas
pela quantidade de linhas que ocupam na história dos homens, mas pelo infinito
valor que possuem diante do Seu coração. É por isso que existe um momento em
que Deus, por assim dizer, separa Agar da grande narrativa de Abraão para
escrever uma história exclusivamente dela.
O
deserto se torna esse lugar. Aquilo que parece o fim da sua participação é, na
verdade, o começo da sua própria narrativa. Enquanto todos os olhares
permanecem voltados para a tenda de Abraão, Deus dirige Seus olhos para o
deserto. Enquanto todos acompanham a história da promessa, Deus acompanha a
história da esquecida. Enquanto os homens registram o nascimento de Isaque,
Deus visita a mãe de Ismael.
Que
contraste extraordinário. Os homens olham para quem ocupa o centro do palco. Deus
olha para quem está chorando nos bastidores. O deserto possui e ssa estranha
capacidade de retirar todas as vozes que nos definiam. Ali, Agar já não era a
serva de Sara. Já não era a mulher de ninguém. Já não era apenas a mãe do filho
de Abraão. No deserto permanecia somente Agar.
E
talvez seja justamente por isso que Deus a encontra ali. Porque Deus sempre
teve interesse em pessoas, muito mais do que em papéis. Ele não conversa com a
escrava. Ele conversa com a mulher. Ele não procura uma função. Ele encontra um
coração. E então acontece algo que jamais havia acontecido em toda a narrativa
bíblica até aquele momento. Não é apenas Deus falando com Agar. É Agar
descobrindo quem Deus é.
Ela
lhe dá um nome.
Não
foi Abraão.
Não
foi Sara.
Não
foi um patriarca.
Não
foi um sacerdote.
Foi
uma mulher estrangeira, escrava, rejeitada e sozinha quem recebeu o privilégio
de revelar uma das mais belas formas pelas quais Deus seria conhecido nas
Escrituras.
El
Roi... "O Deus que me vê."
A
mulher que ninguém enxergava tornou-se a primeira pessoa na Bíblia a declarar
que Deus é o Deus que vê. Parece haver um princípio escondido nisso. Talvez
aqueles que experimentam os desertos mais profundos desenvolvam uma percepção
mais sensível da presença de Deus.
Quem
nunca foi ignorado dificilmente compreenderá a beleza de ser visto.
Quem
jamais experimentou o abandono talvez nunca compreenda completamente o consolo
da presença divina. Foi no lugar da rejeição que Agar descobriu um atributo de
Deus que ninguém ao seu redor havia percebido. Porque Deus possui o hábito de
revelar aspectos do Seu caráter exatamente no lugar onde nossas maiores feridas
sangram.
Para
Moisés, Ele foi o "Eu Sou".
Para
Gideão, o Senhor da paz.
Para
Abraão, o Deus que provê.
Mas,
para Agar, Deus revelou-Se como aquele que vê.
Quando
todos passaram por você sem notar sua existência... Eu vi.
Quando
usaram sua vida para realizar seus próprios projetos... Eu vi.
Quando
seu nome deixou de ter importância para as pessoas... Eu continuei
pronunciando-o.
Quando
ninguém mais acreditava que sua história merecia ser contada... Eu comecei a
escrever um capítulo só seu.
Talvez
essa seja uma das mais belas verdades do Evangelho. O Reino de Deus não
funciona como os reinos deste mundo. O mundo concentra luz sobre os
importantes. Cristo caminha em direção aos invisíveis.
Ele
toca leprosos. Senta-se
à mesa com pecadores. Conversa
com samaritanas. Chora
com irmãs enlutadas. Olha
para viúvas. Escuta
cegos. Percebe
mulheres que apenas tocam Suas vestes em meio à multidão.
Enquanto
todos veem multidões, Deus continua enxergando pessoas. E talvez essa seja a
pergunta que permanece ecoando depois da história de Agar. Se Deus é o Deus que
vê os invisíveis, será que nós aprendemos a olhar como Ele?
Ou
continuaremos medindo o valor das pessoas pela posição que ocupam na história
dos homens, enquanto Deus continua escrevendo, silenciosamente, as mais belas
histórias justamente com aqueles que ninguém percebe?
Afinal... enxergar o invisível
também é comtemplar o próprio Deus.