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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

FERIDAS QUE CURAM


Após a sua ressurreição, Jesus não fez da glória a primeira evidência da sua vitória. O céu havia recebido de volta o Rei, a morte havia sido vencida, o inferno havia perdido sua maior batalha, mas o Ressuscitado não chamou seus discípulos para contemplarem o esplendor da eternidade. Em um gesto que somente o amor seria capaz de compreender, preferiu que as cicatrizes falassem por Ele.
 
Foi como se dissesse que existem verdades que a luz não consegue revelar, mas que somente uma ferida pode contar. Então lhes mostrou as mãos.
 
É impossível não perceber a delicadeza desse momento. Cristo olha para homens profundamente feridos e, em vez de esconder aquilo que sofreu, oferece justamente o lugar onde mais doeu. As mãos que foram rasgadas pelos cravos tornam-se, agora, o primeiro sermão da ressurreição.
 
Ele não aponta para o túmulo vazio.
Não aponta para os anjos.
Não aponta para o caminho por onde saiu vencendo a morte.
Aponta para as feridas.
 
Porque sabia que aqueles homens carregavam feridas que não eram visíveis. Pedro ainda sangrava pela negação. João carregava o silêncio de quem assistiu ao Calvário sem conseguir impedir a dor. Tomé havia transformado sua decepção em incredulidade. Os demais estavam aprisionados entre portas fechadas, não por causa dos judeus, mas por causa da culpa. Havia mais cruz dentro deles do que atrás deles.
 
E Cristo sabia que nenhuma demonstração de poder seria suficiente para curar aquilo que somente o amor poderia alcançar. Por isso, antes de lhes entregar uma missão, entrega-lhes as mãos. Antes de enviá-los ao mundo, convida-os a contemplar as marcas. Antes do "Ide", existe o "Olhem". Porque ninguém consegue anunciar esperança enquanto ainda é governado pelas próprias feridas.
 
Talvez seja este o detalhe mais extraordinário da ressurreição: Jesus não removeu as marcas da cruz para provar que venceu a morte. Preferiu conservá-las para provar que o amor continua o mesmo. As cicatrizes não permaneceram porque a cruz foi forte demais; permaneceram porque o amor se recusou a esquecer o preço da nossa redenção.
 
Depois, Ele lhes oferece a paz.
Não é uma paz separada das cicatrizes.
É uma paz que nasce delas.
A paz não vem apesar das feridas.
A paz vem através das feridas.
 
Como um rio que brota exatamente da rocha que foi ferida no deserto, a paz de Cristo nasce do lugar onde o sangue encontrou a madeira. As mãos atravessadas tornam-se fonte para corações atravessados. As feridas do Salvador começam, silenciosamente, a costurar as rupturas dos discípulos.
 
No caminho de Emaús, o mesmo milagre...
 
Dois homens caminham esmagados pelo peso das expectativas sepultadas. Não lhes faltava informação; faltava esperança. Conheciam os fatos, mas já não conseguiam enxergar Deus dentro deles. O Ressuscitado caminha ao lado daqueles homens durante quilômetros. Expõe as Escrituras. Reacende as promessas. Faz o coração voltar a arder. Mas seus olhos continuam fechados. Somente quando Ele toma o pão em suas mãos, dá graças e o parte, as marcas aparecem novamente.
 
E é curioso perceber que o reconhecimento nasce exatamente ali. Os olhos dos discípulos não se abrem diante da eloquência de Cristo. Abrem-se diante das suas feridas. As mãos que repartem o pão são as mesmas que foram rasgadas pelos cravos.
E, naquele instante, eles compreendem que a cruz não foi o fim da história; foi o lugar onde Deus decidiu reescrevê-la.
 
Talvez seja aí que repousa uma das maiores tragédias da alma humana.
Gastamos anos contemplando as nossas próprias feridas.
Medimos nossas perdas.
Contamos nossas decepções.
Reabrimos lembranças que Deus já desejava cicatratrizar.
Transformamos nossas dores em identidade e nossas cicatrizes em morada.
O sofrimento exige os nossos olhos o tempo todo.
 
Mas Cristo continua dizendo a mesma coisa que disse naquela primeira noite da ressurreição: "Olhem para as minhas mãos."
 
Porque existe uma diferença infinita entre olhar para a ferida que carregamos e olhar para a ferida que nos carrega. As nossas feridas contam aquilo que o pecado, as pessoas e a vida fizeram conosco. As feridas de Cristo contam aquilo que Deus fez por nós.
 
As nossas sangram culpa.
As d'Ele derramam graça.
As nossas nos lembram do que perdemos.
As d'Ele anunciam tudo aquilo que jamais poderá nos ser tirado.
Enquanto nossos olhos permanecerem presos às marcas que a vida deixou em nós, continuaremos vivendo como sobreviventes da dor. Mas quando aprendermos a contemplar as marcas que o amor deixou n'Ele, descobriremos que há uma cura que não nasce do tempo, nem do esquecimento, nem das respostas. Ela nasce das mãos traspassadas do Cordeiro.
 
Porque, no Reino de Deus, não são as nossas cicatrizes que curam as nossas feridas.
São as feridas d'Ele. Anda abertas... sangrando sobre nossas pisaduras. 

 

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