Há uma
diferença entre visitar uma casa e pertencer a ela. Quem visita permanece por
algumas horas. Quem pertence encontra descanso. O visitante procura um lugar
para sentar; o filho sabe onde repousar a alma.
Talvez seja por
isso que o Salmo 84 não começa descrevendo um templo, mas revelando um desejo.
Antes de contemplar os altares, os filhos de Corá deixam transbordar aquilo que
carregam no peito: "Quão amáveis são os teus tabernáculos, Senhor dos
Exércitos! A minha alma anela e desfalece pelos teus átrios..."
Há saudades em
cada verso. Há uma fome que nenhuma outra paisagem consegue alimentar. Porque
todo homem que experimentou a presença de Deus descobre que existe um vazio que
somente a Casa do Pai sabe preencher.
Esse salmo
nasce na estrada. É um cântico de peregrinos. Homens que caminham olhando para
Sião enquanto o coração já chegou antes dos pés. A cada quilômetro vencido,
cresce a expectativa de voltar para casa. Não caminham apenas em direção ao
templo; caminham em direção ao Deus que os espera. E talvez ninguém tivesse
mais motivos para cantar esse retorno do que os próprios filhos de Corá.
O sobrenome
deles carregava uma tragédia. Corá foi o homem que acreditou que a ambição
poderia ocupar o lugar da submissão. Ergueu-se contra Moisés, desprezou a
autoridade de Deus e viu a terra abrir-se sob seus pés. A rebelião terminou em
sepultura. Parecia o fim daquela história. Mas a graça de Deus possui o hábito
de escrever continuações onde os homens enxergam ponto final. A sentença
alcançou o pai, mas a misericórdia preservou a descendência.
É impossível
ler este salmo sem imaginar aqueles descendentes entrando pelos átrios e
pensando consigo mesmos: "Nós nem deveríamos estar aqui." Cada louvor
que entoam é um testemunho de que a graça é maior que a genealogia. Cada passo
dentro do templo anuncia que Deus não permite que o passado tenha a última
palavra.
Por isso eles
não dizem apenas que o templo é bonito.
Eles dizem que é amável.
Porque quem já esteve longe aprende a amar aquilo que os outros apenas admiram.
Então, de
repente, o salmo nos surpreende. Em vez de citar reis, sacerdotes ou grandes
heróis da fé, os olhos daqueles homens repousam sobre duas pequenas aves. "Até
o pardal encontrou casa, e a andorinha, ninho para si, junto dos teus
altares..."
Que escolha
curiosa.
Se fôssemos
escrever esse verso, talvez escolhêssemos uma águia cortando os céus, um falcão
dominando as montanhas ou alguma ave rara, admirada por sua força e imponência.
Mas Deus inspira os salmistas a olhar para um pardal. Porque o Reino de Deus
nunca começou pelos extraordinários. Ele sempre abriu espaço para os
esquecidos.
O pardal não
era uma ave rara. Era comum. Pequeno. Cinzento. Sua plumagem jamais chamou
atenção. Seu voo nunca impressionou. Seu valor comercial era quase inexistente.
Enquanto alguns pássaros eram admirados, o pardal era ignorado. Enquanto alguns
eram desejados, o pardal era apenas tolerado. Em muitos lugares, considerado
uma praga. Incômodo. Descartável.
Mas aquilo que
o mundo aprende a desprezar, Deus insiste em notar. Séculos depois, o próprio
Cristo olharia para essas mesmas aves e perguntaria: "Não se vendem
dois pardais por um asse? Contudo, nenhum deles cairá em terra sem o
consentimento de vosso Pai."
Para o mercado,
um pardal vale quase nada.
Para o Pai, nenhum deles passa despercebido.
Porque Deus nunca avaliou vidas pelo preço que os homens lhes atribuem.
Ele vê valor onde o mundo vê descarte.
Ele vê história onde o mundo vê fracasso.
Ele vê filhos onde o mundo vê órfãos.
Talvez seja
exatamente por isso que os filhos de Corá enxergam a si mesmos naquele pequeno
pássaro. Afinal, quem melhor do que eles para entender o que significa
encontrar casa quando ninguém esperava que você sobrevivesse a viagem?
O pardal
encontrou casa.
Os filhos de Corá também.
E nós?
Quantas vezes
voamos sem direção, confundindo liberdade com distância? Gastamos forças
tentando permanecer no ar, enquanto nossa alma apenas procura um lugar para
repousar.
Vivemos dias em
que todos desejam parecer águias. A cultura celebra quem voa sozinho. Quem não
depende. Quem nunca demonstra fraqueza. Quem conquista alturas. Mas o Evangelho
jamais prometeu formar águias orgulhosas. O Evangelho acolhe pardais. Pássaros
cansados. Feridos. Pequenos. Homens e mulheres que descobriram que não precisam
impressionar Deus para serem recebidos por Ele.
O mais belo do
salmo não é que o pardal voe. É que ele tenha encontrado onde pousar.
Os átrios do Senhor sempre foram pista de pouso para quem já não suporta voos aleatórios. O altar nunca foi apenas lugar de sacrifício. Sempre foi endereço de órfãos. Casa para os esquecidos. Refúgio para os que perderam o rumo.
E o pardal não
chega sozinho. A andorinha encontra ninho para seus filhotes. Porque a graça
nunca acolhe apenas um indivíduo. Ela protege gerações. Ela cria futuro onde
antes existia apenas sobrevivência.
Mas há outro
detalhe quase escondido nesse salmo. O pardal canta. Seu canto não possui a
imponência de outras aves. Não domina as florestas. Não impressiona multidões. Ainda
assim, ele canta. Talvez porque quem encontrou casa descobre que adorar não
depende da grandeza da própria voz, mas da grandeza Daquele que a escuta.
Deus nunca
procurou o canto mais bonito. Sempre procurou o coração que encontrou descanso.
Mais tarde, Jesus ampliaria essa mesma imagem ao chorar sobre Jerusalém.
"Quantas vezes eu quis ajuntar vocês, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo das asas..."
Agora já não
existe apenas uma casa.
Existem asas.
Porque toda casa verdadeira termina em abraço.
Debaixo dessas asas, o medo perde a voz.
A ansiedade encontra silêncio.
A culpa perde seu argumento.
O órfão descobre um Pai.
O peregrino encontra descanso.
O pequeno deixa de ter vergonha de sua pequenez.
Ali não existe
disputa por grandeza. Debaixo das asas ninguém precisa provar que é uma águia. Basta
ser um pardal. Andorinha. Pintainhos.
Se você está
cansado, ainda há lugar.
Se você está ferido, ainda há lugar.
Se você perdeu o rumo, ainda há lugar.
Se o pecado convenceu você de que não pertence mais...
... ainda há lugar.
Os átrios
continuam abertos. O altar continua de pé. O convite nunca foi recolhido.
Ainda existe casa para pardais. Ainda existe ninho para andorinhas. Ainda existem asas para pintinhos assustados. Ainda existe graça para filhos de Corá. Ainda existe misericórdia para homens como nós.
No fim,
descobrimos que o maior milagre não é aprender a voar mais alto. É descobrir
que nunca fomos sustentados pelas nossas asas. Sempre fomos sustentados pelas
Dele.
Somos pássaros
lembrados.
Somos pássaros acolhidos.
Somos pássaros guardados.
E quando
finalmente repousamos na presença do Altíssimo, compreendemos que toda a beleza
do Evangelho pode ser resumida em uma única imagem: o Deus infinito construiu
uma casa onde até um pardal pode morar.
Que Ele cresça.
E que nós diminuamos.
Que as minhas asas se fechem...
Para que as asas Dele se abram sobre mim.
Eles dizem que é amável.
Porque quem já esteve longe aprende a amar aquilo que os outros apenas admiram.
Para o Pai, nenhum deles passa despercebido.
Porque Deus nunca avaliou vidas pelo preço que os homens lhes atribuem.
Ele vê valor onde o mundo vê descarte.
Ele vê história onde o mundo vê fracasso.
Ele vê filhos onde o mundo vê órfãos.
Os filhos de Corá também.
E nós?
Os átrios do Senhor sempre foram pista de pouso para quem já não suporta voos aleatórios. O altar nunca foi apenas lugar de sacrifício. Sempre foi endereço de órfãos. Casa para os esquecidos. Refúgio para os que perderam o rumo.
"Quantas vezes eu quis ajuntar vocês, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo das asas..."
Existem asas.
Porque toda casa verdadeira termina em abraço.
Debaixo dessas asas, o medo perde a voz.
A ansiedade encontra silêncio.
A culpa perde seu argumento.
O órfão descobre um Pai.
O peregrino encontra descanso.
O pequeno deixa de ter vergonha de sua pequenez.
Se você está ferido, ainda há lugar.
Se você perdeu o rumo, ainda há lugar.
Se o pecado convenceu você de que não pertence mais...
... ainda há lugar.
Ainda existe casa para pardais. Ainda existe ninho para andorinhas. Ainda existem asas para pintinhos assustados. Ainda existe graça para filhos de Corá. Ainda existe misericórdia para homens como nós.
Somos pássaros acolhidos.
Somos pássaros guardados.
E que nós diminuamos.
Que as minhas asas se fechem...
Para que as asas Dele se abram sobre mim.
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