Não se engane... os entulhadores de poços estão —
irritantemente — empenhados nessa infame tarefa. São insistentes, arrogantes e
presunçosos. Consideram sucesso a destruição do trabalho alheio. Alimentam-se
do atraso dos projetos, da interrupção dos sonhos e do sufocamento dos legados.
Onde alguém cava com esperança, eles chegam carregando entulho.
Foi exatamente isso que aconteceu com Isaque. Os poços que
haviam sido abertos por seu pai, Abraão, eram muito mais do que buracos no
chão. Eram memória, sobrevivência, herança e promessa. Eram testemunhos de que
Deus havia passado por aquele lugar. Entretanto, depois da morte de Abraão, os
filisteus fizeram questão de entulhá-los. Não porque precisassem da terra, mas
porque não suportavam a lembrança de que Deus havia feito prosperar um homem
entre eles.
Gente que não quer possuir aquilo que é do outro... quer
apenas impedir que o outro desfrute do favor do próprio Deus.
Não é diferente conosco. Existem pessoas que tentam entulhar
nossa fé com dúvidas, nossa vocação com críticas, nossos relacionamentos com
ofensas, nossos sonhos com desprezo e nossa esperança com o peso das decepções.
Os entulhadores sempre existirão. Eles encontram satisfação onde outros
encontram propósito.
Contra eles, mantenha-se irredutível. Não desperdice suas
forças tentando convencê-los, tampouco permita que determinem o destino daquilo
que Deus colocou em suas mãos. Há batalhas que não se vencem com argumentos,
mas com perseverança.
Existe uma ferramenta poderosa e infalível, capaz de vencer
toda a insistência dos entulhadores: a perseverança dos escavadores.
Isaque sabia que qualquer poço que abrisse poderia ser
tomado, disputado ou novamente entulhado. Ainda assim, cavou. A coragem dele
não estava na garantia do sucesso, mas na convicção de que desistir jamais
produziria água. Ele reabriu os antigos poços de Abraão. Isso nos ensina que
algumas gerações não precisam inventar novas fontes; precisam apenas remover o
entulho que cobre verdades antigas. Há promessas esquecidas debaixo da terra.
Há princípios soterrados pela pressa. Há intimidade com Deus escondida sob
camadas de distração.
Reabrir também é um ato de fé.
Mas Isaque não viveu apenas de herança.
Ele continuou cavando.
O primeiro poço disputado recebeu o nome de Eseque,
que significa "contenda". A água apareceu, mas, junto dela, surgiram
aqueles que reivindicavam aquilo que não haviam construído. É assim na vida.
Muitas vezes, a primeira batalha não é contra a escassez, mas contra a
oposição. Há quem queira transformar sua conquista em conflito, sua bênção em
discussão, seu chamado em competição. Nem toda contenda merece resposta.
Algumas merecem apenas uma pá nas mãos e a decisão de continuar cavando em
outro lugar.
Então Isaque cavou novamente.
O segundo poço foi chamado Sitna,
"inimizade" ou "acusação". Se em Eseque havia disputa, em
Sitna a resistência tornou-se ainda mais pessoal. A oposição deixou de ser
circunstancial e passou a ser intencional. Quantas vezes também atravessamos os
territórios de Sitna? São dias em que somos mal interpretados, injustiçados,
acusados ou combatidos sem razão aparente. Nesses momentos, a tentação é
abandonar a missão. Mas Isaque nos ensina que há ocasiões em que a resposta
mais madura não é permanecer brigando, mas permanecer caminhando.
E ele cavou outra vez.
Foi então que surgiu Reobote, cujo significado é
"lugares amplos" ou "espaço". Depois da contenda e da
inimizade, Deus lhe deu amplitude. Não porque os inimigos desapareceram, mas
porque chegou o tempo em que ninguém mais conseguiria impedir aquilo que Deus
havia decidido estabelecer. Algumas bênçãos não acontecem quando nossos
adversários mudam; acontecem quando Deus decide abrir espaço onde antes só
havia limites.
Reobote é o lugar onde entendemos que a perseverança sempre
encontra recompensa. Quem suporta Eseque e atravessa Sitna acaba descobrindo
que Deus continua sendo especialista em preparar lugares largos para quem se
recusa a desistir.
Mas a história ainda não termina ali.
De Reobote, Isaque seguiu para Berseba. Ali não encontrou
apenas um poço; encontrou um altar. Antes de consolidar a água, consolidou a
adoração. Antes de celebrar a provisão, celebrou o Provedor. Naquela noite,
Deus lhe apareceu dizendo: "Não temas, porque eu sou contigo." Há uma
lição preciosa nisso: os poços sustentam a vida, mas é a presença de Deus que
sustenta quem cava.
Depois do altar, seus servos cavaram mais uma vez e
encontraram água. A sequência é reveladora. Primeiro a presença, depois a
provisão. Primeiro Deus reafirma Sua aliança; depois confirma Sua fidelidade. Talvez
este seja o grande segredo da perseverança. Os entulhadores trabalham olhando
para o passado; os escavadores trabalham olhando para a fonte. Uns concentram
esforços para cobrir a água. Outros concentram forças para alcançá-la
novamente.
Nunca permita que a determinação do inimigo para entulhar
seus poços seja maior do que sua disposição para abri-los. Que a insistência de
quem destrói jamais supere a perseverança de quem constrói. Continue escavando.
Se encontrar Eseque, não transforme a contenda em
morada.
Se atravessar Sitna, não permita que a inimizade
enterre sua vocação.
Até que Deus o conduza a Reobote, onde haverá espaço
suficiente para florescer.
E quando chegar a Berseba, não se esqueça de erguer um
altar antes de celebrar o poço.
Porque os entulhadores podem cobrir a terra por um tempo, mas
jamais conseguirão secar a fonte que Deus determinou para aqueles que
permanecem cavando.
No fim, não prevalece quem mais entulhou, mas quem nunca
desistiu de escavar. A água sempre recompensa aqueles que tiveram mais
perseverança para cavar do que seus inimigos tiveram persistência para
entulhar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário