Existem rios mais bonitos. Águas mais
claras... margens mais verdes... correntes mais suaves. Há rios que encantam os
olhos antes mesmo de tocarem a pele. Rios que parecem convidar ao descanso...
que refletem o céu como espelhos... que despertam a admiração de qualquer
viajante.
O Jordão nunca foi assim.
Suas águas sempre carregaram terra demais.
A corrente desce apressada, revolvendo barro, escondendo o fundo, apagando
qualquer possibilidade de transparência. Não é o rio que alguém escolheria para
contemplar. Muito menos para mergulhar. Talvez por isso a pergunta de Naamã
pareça tão razoável.
- Não são Abana e Farfar, rios de Damasco,
melhores do que todas as águas de Israel?
Ele não estava mentindo. O olhar humano
dificilmente discordaria. Há águas que realmente parecem melhores. Mas Deus
nunca escolheu trabalhar apenas com aquilo que impressiona os olhos. Existe uma
diferença entre aquilo que é bonito... e aquilo que foi consagrado. Porque
alguns lugares escondem histórias que a superfície nunca consegue contar. O
Jordão é um deles.
Seu próprio nome já denuncia seu caminho.
Yarden.
O rio da descida.
O rio que sempre corre para baixo.
Tudo nele aponta para quem aceita deixar as
alturas.
Talvez seja por isso que Deus goste tanto
dele.
Porque Deus sempre encontra quem desce.
Naamã precisou descer. Não apenas do
cavalo. Não apenas da Síria. Não apenas até as margens. Precisou descer do
orgulho. Precisou abandonar a própria importância. Precisou permitir que sua
dignidade fosse mergulhada sete vezes em águas barrentas. Enquanto ele
permanecia nas alturas de sua reputação, continuava leproso. Foi somente quando
desceu que saiu limpo.
O rio não mudou.
Quem mudou foi Naamã.
Mas esta não foi a primeira vez que Deus
escolheu aquele rio. Séculos antes, outro povo também chegou às suas margens. Depois
das pragas. Depois da noite da Páscoa. Depois do mar dividido. Depois da coluna
de fogo. Depois da nuvem. Depois do maná. Depois de quarenta anos caminhando. Ali
estava a última fronteira. Entre a promessa e seu cumprimento. Mais uma vez,
Deus escolheu o Jordão.
As águas se abriram.
O impossível aconteceu.
Josué mandou que doze homens retirassem
pedras do leito do rio. Essas pedras seriam colocadas do outro lado. Seriam
vistas. Os filhos perguntariam. As gerações responderiam. Seria um memorial
público. Um altar levantado diante das pessoas.
Então, o monumento público deu lugar a
solitude do secreto. Silenciosamente. Sem destaque. Sem explicações. Josué
voltou ao meio do rio. Desceu outra vez. E ali fez algo estranho. Ergueu outro
altar. Também com doze pedras.
Mas este ninguém carregaria.
Ninguém fotografaria.
Ninguém visitaria.
Ninguém sacrificaria nele.
Quando as águas voltassem ao seu lugar...
aquelas pedras desapareceriam para sempre. Um altar submerso. Um altar
invisível. Um altar escondido sob as águas. Talvez seja exatamente assim que
Deus escreva suas maiores histórias. Nem todo altar foi feito para ser visto.
Existem altares erguidos diante das
multidões.
Eles produzem testemunhos.
Existem altares construídos no secreto.
Eles produzem pessoas transformadas.
Existem lugares onde somente Deus conhece o
endereço.
Somente Deus conhece o custo.
Somente Deus conhece as lágrimas.
Somente Deus sabe quanto custou cada pedra
colocada naquele lugar.
As muitas águas jamais conseguiram apagar
aquela história.
As correntezas passaram.
As gerações passaram.
Os impérios passaram.
Mas aquelas pedras permaneceram onde Josué
as deixou.
Escondidas dos homens.
Conhecidas por Deus.
Talvez o segredo da vida espiritual nunca
tenha estado naquilo que fazemos diante das pessoas. Talvez esteja naquilo que
construímos onde ninguém consegue ver.
O quarto fechado.
A oração sem plateia.
A renúncia sem aplausos.
O joelho dobrado.
O coração quebrantado.
O altar escondido.
Porque o secreto nunca apenas revela quem
somos para Deus.
O secreto revela Deus para nós.
Foi naquele mesmo Jordão que um machado
voltou a flutuar. Foi naquele mesmo Jordão que a lepra perdeu sua força. Foi
naquele mesmo Jordão que Elias abriu as águas. Foi naquele mesmo Jordão que
Eliseu repetiu o milagre.
Sempre o mesmo rio.
Sempre a mesma descida.
Sempre o mesmo Deus.
Mas ainda faltava a maior das histórias. Chegou
o tempo em que o próprio Deus resolveu descer. O Verbo tornou-se carne. O
Criador caminhou entre criaturas. E, quando chegou o momento de iniciar seu
ministério, não escolheu Abana... nem Farfar. Escolheu outra vez o Jordão.
João estava ali. Chamando homens ao
arrependimento. Preparando caminhos. Anunciando que Alguém maior estava
chegando. Então o Cordeiro apareceu. Entrou nas mesmas águas. Desceu ao mesmo
rio. O Espírito repousou sobre Ele. O céu se abriu e o o Pai falou... se
revelou.
Ali, o Jordão voltou a ser ponto de
encontro entre a terra e o céu. E somente então o segredo daquele rio se revela.
Nunca foi sobre a beleza das águas. Nunca foi sobre a geografia. Nunca foi
sobre o barro. O Jordão nunca foi especial porque suas águas eram melhores. O
Jordão tornou-se diferente porque, escondido sob suas águas, havia um altar.
Um altar que ninguém via.
Um altar que Deus jamais esqueceu.
Um altar reservado para um sacrifício.
O sacrificio.
Esperando o cordeiro.
O cordeiro de Deus.
O cordeiro que tira o pecado do mundo.
O cordeiro que limpa.
Limpa as águas.
Limpa corações.
Talvez seja por isso que Deus continuou
voltando ali. Porque Deus sempre volta aos lugares onde encontra altar. Onde existe altar... o impossível encontra
endereço.
Onde existe altar... o perdido pode ser
recuperado.
Machados voltam.
Ministérios são restaurados.
Águas se abrem.
Caminhos aparecem.
Leprosos são purificados.
Enfermos encontram cura.
O céu torna a conversar com a terra.
Talvez ainda existam muitos Abanas. Muitas
águas cristalinas. Muitos lugares capazes de impressionar. Mas Deus continua
procurando Jordões. Lugares onde alguém esteja disposto a descer. Porque toda
grande obra de Deus começa assim. Primeiro o homem desce. Depois o céu desce
também.
E se o altar, mesmo em secreto, foi
edificado para receber o CORDEIRO... a seu tempo... em todo tempo... a tempo e
fora de tempo... o CORDEIRO virá. E benditas serão as águas... e as nações pelas
quais estas águas irão passar.
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