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domingo, 13 de agosto de 2017

Encontrando propósito em destroços

As oportunidades multiplicam-se à medida que são agarradas.
(Sun Tzu)


Se Paulo tivesse vivido dez anos a mais, talvez, ao invés de Pedro Alvares Cabral, fosse o seu nome que estaria grafado nos livros sobre a história do Brasil. Sim, o apóstolo dos gentios era também um viajante do mundo. Um evangelista de povos. Um desbravador a serviço do Reino de Deus. Ao longo de seu ministério, ele realizou três grandes viagens missionárias, espalhando o evangelho de Jesus Cristo a um numero incalculável de pessoas. A quantidade de igrejas fundadas por sua trupe missionária é impressionante. Paulo era como um pássaro de asas longas e vigorosas, que voava imponente sobre as nações. Imagine, então, o impacto traumático, quando este pássaro se viu preso em uma gaiola.

Ou será que existe propósito em prisões, linchamentos, tempestades e naufrágios?

Ao término de sua terceira viagem missionária, quando retornou a Jerusalém, Paulo foi duramente  confrontado pelos líderes da religião judaica (sempre eles), por estar “contaminado” pelos ritos pagãos dos povos que visitou. Mais, uma vez, as armas usadas por estes homens pravos, foram palavras caluniosas e acusações infundadas.

- Este homem é uma peste: suscita tumultos entre todos os judeus do mundo inteiro e é um chefe do partido dos nazoreus. Tentou mesmo profanar o Templo; nos então o prendemos, e agora o queremos o julgar conforme nossas leis.

Este texto de Atos 24:5-6, é parte do depoimento dos religiosos judeus durante o julgamento de Paulo em Cesária, e não condiz muito com os fatos. Em Jerusalém, estes mesmos acusadores, incitaram o povo, promovendo um linchamento público contra o apóstolo. A beira da morte, Paulo foi “salvo” por soldados romanos, que o conduziram a fortaleza de Antônia. Nem mesmo ali, era possível manter a segurança do apóstolo, e após algumas audiências tumultuadas na cidade, as autoridades locais, decidiram que seria mais prudente Paulo ser julgado em Roma.

E o que a apóstolo achava de tudo isto? Simples! Que sua vida estava enquadrada perfeitamente nos planos de Deus. Ele confiava em seu Senhor, mesmo que em volta, o mundo parecesse desmoronar. A intimidade com Cristo, nos assegura paz em meio ao caos:

- Na noite seguinte o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: "Coragem! Assim como você testemunhou a meu respeito em Jerusalém, deverá testemunhar também em Roma". (Atos 23:11)

Quando Paulo embarcou para seu julgamento em Roma, se sentia maravilhosamente bem e plenamente confiante. Embora fosse um “prisioneiro”, o apóstolo estava honrado desta condição. O desejo de evangelizar as nações era o combustível de sua vida, e se aquele era o jeito de falar de Jesus aos romanos, ele estava feliz e realizado (II Timóteo 3:16 / Efésios 3:1).

Paulo zarpou de Cesaréia sob a custódia do centurião Júlio, pelo qual  nutriu uma simpatia recíproca. Entre os companheiros de viagem também estavam seus amigos Lucas e Aristarco. O ambiente era quase familiar.  Ao chegarem em Sidom, foi permitido a Paulo que visitasse alguns cristãos da cidade, dos quais recebeu muito carinho e provisões. A viagem prosseguiu por Chipre, Cilícia, Panfília e Lícia. Nesta última parada, Júlio achou por bem transferir seus passageiros para um navio cargueiro que ia para a Itália, abarrotado de trigo. A partir daí, a viagem começou a ficar bem complicada, já que o navio cruzou a rota de um vendaval, e a intensidade dos ventos limitava drasticamente a velocidade da embarcação. Quase se arrastando, a nau foi direcionada para a costa de Creta, onde usou a ilha como um escudo contra a tempestade. Dali, eles conseguiram aportar em uma cidade receptiva, com um novo bem promissor: Bons Portos.

Quem disse que quando o Senhor nos dá uma missão, ela já vem respaldada de facilidades? Por outro lado, Deus não é um sádico que se diverte com o sofrimento incessante de seus servos. Tudo visa nosso crescimento. Tempestades e Bons Portos se alternam ao longo do caminho. Noites de choro e manhãs de alegria. Lagartas se esgueirando para fora do casulo, enquanto fortalecem asas que se arvoraram no primeiro voo da borboleta.

Bons Portos, sempre é um acalento porém, não dura para sempre. Antes de zarparem da cidade, uma reunião foi realizada para decidir a viabilidade da empreitada, já que aquela não era uma estação propícia para se lançar em alto mar. Entre os consultados estava o próprio Paulo, que se dirigindo aos responsáveis pela viagem advertiu:

- Senhores, vejo que esta viagem será muito trabalhosa, com danos e prejuízos, não apenas da carga e da embarcação, mas também de nossas própria vidas (Atos 27:10).

Como aquela seria uma longa jornada, o centurião Júlio deu mais crédito as palavras do piloto e do mestre do navio, que insistiram para que a viagem fosse retomada com imediatismo, pois queriam chegar ao porto de Fênix antes que o inverno agitasse permanentemente o mar. Aproveitando-se da calma momentânea das águas, a tribulação se lançou ao mar rapidamente. E tudo parecia estar indo muito bem, até que a embarcação foi apanhada pela fúria do tufão “Euro-Aquilão” vindo do nordeste de Creta.

Com o navio sendo açoitado pelas ondas, e arrastado sem direção pelo vento, logo a tripulação percebeu que a embarcação não seria párea para a natureza. Afim de aliviar o peso do barco, eles começaram a se desfazer das cargas. Para não ficarem ao sabor dos ventos, se livraram da armação do velame do navio. Durante dias, nenhum daqueles homens viu o sol e nem as estrelas, e desencorajados, deixaram de se alimentar, perdendo por completa as esperanças de sobreviver.

Paulo descobriu que os tripulantes do navio tramavam abandonar o barco em um bote, deixando os “prisioneiros” para traz. Imediatamente comunicou o fato a Júlio, que tomou medidas disciplinares para que todos trabalhassem em conjunto. No de como quarto  dia de tormenta, Paulo insistiu para que todos se alimentassem, pois, o navio se perderia, mas, as pessoas seriam salvas (Atos 27:21-26).

Após a refeição, os homens avistaram uma praia, e se livrando do resto da comida para aliviar a embarcação, tentaram levar o já fragilizado barco rumo a terra seca. Porém, no meio do caminho, o navio se chocou com um recife, encravando a quilha na areia. Com o impacto, a embarcação se fragmentou, sendo varrida pelas ondas. Como era usual entre a guarda romana, os soldados decidiram assassinar seus prisioneiros para que não houvesse fuga. Porém, Paulo intercedeu. Júlio, ordenou que todos se agarrassem em alguma parte dos destroços, para que pudessem chegar a praia nadando. E todos alcançaram a terra firme com vida.

Mas, aquele barco não era o meio pelo qual Paulo chegaria ao seu destino? 

Não foi o próprio Deus que o colocou ali, visando que chegasse a Roma, afim de ministrar sua Palavra? 

Nestas situações, muitos se perguntam porque Deus tira nossos pés do navio e põem em nossas mãos apenas destroços. Penso que a resposta é bem pragmática.

É que o “NAVIO” afunda, mas, os “DESTROÇOS” boiam. São eles que te levarão até a praia. Deus tem seus meios de trabalhar e não cabe a nós entendê-los, e sim, vivê-lo. Quando houver naufrágio, se agarre ao destroço, nade como nunca e siga o fluxo das águas. Deus conhece a geografia do mar, e sempre haverá um porto por perto. E não uma porto qualquer. Nada é ao acaso. Deus não trabalha com achismos ou coincidências.

Quando Paulo anunciou aos companheiros de viagem que a embarcação fatalmente se perderia, também revelou que por trás do naufrágio estava estrategicamente delineado um grande propósito: -  É necessário que cheguemos a uma ilha. É interessante observar que sem os velames do navio, não é possível direcionar uma embarcação, e, portanto, é correto concluir que Deus tirou a direção de mãos humanas e tratou Dele mesmo conduzir o barco pela rota traçada nos céus. Para o Senhor, o mar revolto é uma estrada muito bem pavimentada.

Vivos e exauridos. Soldados e prisioneiros se olharam aliviados. Não demorou para descobrirem que estavam numa ilha chamada Malta, habitada por um povo bárbaro. Certamente, aquela era uma terra renegada, onde o evangelho de Cristo teria muita dificuldade para entrar, não fosse o providencial naufrágio de um barco com alguns missionários dentro.

É maravilhoso contemplar a cada página da Bíblia como Deus tem um plano meticuloso e perfeito, afim de que todos os homens se salvem (João 3:16). Deus se importava com as almas “bárbaras” de Malta, da mesma forma que se importava com as almas da elite social romana. Afim de alcançar esses “filhos” amados, Deus simplesmente levou até suas portas, o maior missionário de todos os tempos. Mesmo que para isso, um navio tivesse que afundar. E para surpresa geral, todos foram recebido entre os nativos com cordialidade e muito carinho.

Quem milita na obra do Senhor, e se sujeita a vontade de Deus (mesmo que isso signifique naufragar), sempre enfrentará a fúria do inimigo. Para Paulo, ela se manifestou na forma de uma serpente mortífera, temida pelos moradores locais, que furtivamente escondida entre os galhos secos, atacou a mão do apóstolo, que mais uma vez, estava sendo usada no trabalho em prol do próximo. Uma fogueira para seus companheiros se esquentarem do frio.

A víbora que atacou Paulo era tão venenosa, que os habitantes de Malta, conhecedores dos efeitos de sua picada, ao verem as algemas nas mãos do apóstolo, julgaram que Paulo era um “assassino” por receber tamanha punição. Então, esperaram para vê-lo “inchar e morrer”. 

Nada disso aconteceu. Paulo simplesmente a jogou no fogo e se assentou junto a fogueira. Mais uma vez, a expectativa da morte terrena tinha se transformado em esperança de vida eterna. Aos servos do Senhor, as melhores oportunidades vão aparecer habilmente disfarçadas em problemas insolúveis e dificuldades insuperáveis. E Paulo fazia desta verdade, uma lema para sua vida.

Sobreviver a um naufrágio e resistir ao veneno da serpente, foram testemunhos pessoais que deram credibilidade a mensagem de Paulo aos moradores de Malta. Em poucos dias, toda aquela ilha declarava Jesus como Senhor e Salvador. Durante dois meses, Paulo e seus amigos ensinaram aquela gente. Eles oraram, e enfermos foram curados. Eles cantaram, e almas foram libertas. O naufrágio serviu para trazer a tona vidas que se afogavam num oceano de pecados. A picada da víbora maltesa, trouxe o antídoto ao veneno pernicioso da antiga serpente. Propósitos que convergem para propósitos ainda maiores.

Precisamos aprender a transformar tragédias em oportunidades e finais em recomeços. Destroços são a matéria prima que Deus nos fornece para a construção de verdadeiras fortalezas espirituais. E, esta, é uma lição que precisamos aprender para poder ensinar. A porta de saída  para qualquer ciclo de caos, e a mesma que dá entrada a um novo mundo de conjunturas abençoadoras. JESUS CRISTO. Seja em Jerusalém, Roma ou Malta.

domingo, 6 de agosto de 2017

O Paradoxo da Cruz

 Se o amor é autodoador, então inevitavelmente é vulnerável à dor.
(John Stott)


Pecado e morte sempre foram faces opostas de uma mesma moeda. Ação e reação. Efeito e causa. Crime e sentença. Ninguém escapa, esconde ou recusa-se a aceitar. É uma regra universal estabelecida desde a fundação do mundo. Não há negociata, barganha ou exceção. Toda alma que peca, está condenada. O salário do pecado é a morte (Ezequiel 18:20 / Romanos 6:16). 

Deus, porém, em sua infinita sabedoria, implantou um pequeno “bug” neste sistema. E esta foi a nossa sorte. Caso um inocente levasse sobre si a culpa por um pecado, o pecador era inocentado e continuaria vivo, enquanto outra pessoa morreria em seu lugar. A grande questão é: Quem? 

Haveria uma alma inocente disposta a morrer por alguém que fosse mal e pecador? 

Romanos 3:10 nos assegura que entre os homens, nunca existiu um único justo sequer. Logo, estaríamos condenados ao ciclo pernicioso de morte, a menos que um milagre acontecesse. E ele aconteceu!

Um inocente se compadeceu dos culpados.
O Verbo se fez carne e habitou entre nós.
E pelas suas pisaduras fomos sarados.

Mas, morrer, não é nada agradável. E conhecer detalhes tenebrosos da própria morte é uma maldição assustadora. Na noite de sua paixão, enquanto orava no Getsêmani, Jesus tomou ciência do grande preço que pagaria por nossos pecados. Como descrito por Davi no profético Salmo 22, na cruz do Calvário, Jesus não enfrentaria apenas uma dor física lacerante, como também seria aterrorizado pela angústia da solidão. Um Deus escarnecido por hordas de demônios. Um homem abandonado por seus amigos. Um corpo se derramando como água. Um coração se derretendo como cera.

Jesus foi transportado em espírito, e visitou as próximas horas de sua vida. Seriam as últimas. Não seriam fáceis. E angustiado, Cristo assistiu cena por cena de um pavoroso filme de horror, do qual, Ele era o protagonista.  

E o roteiro proposto, era mais ou menos assim...

Após ser preso por centenas de soldados romanos e condenado por uma corte judaica arbitrária, ele seria enviado para Pilatos, onde enfrentaria a mais sangrenta de suas flagelações. O flagelo seria executado por meio de um açoitamento, realizado com tiras de couros sobre as quais eram feitos nós nas pontas, ou fixado pequenos pedaços de ossos ou chumbo.

Os carrascos iniciariam o espancamento. E neste processo sua pele seria dilacerada e se romperia, fazendo o sangue espirrar. A cada golpe Jesus reagiria num sobressalto de dor. As forças iriam se esvair, o suor frio desceria pela face e a cabeça giraria. Ânsia. Vertigem.  Calafrios percorreriam o dorso das costas. Se não estivesse preso no alto pelos pulsos, certamente cairia numa poça de sangue. 

Com longos espinhos, os algozes teceriam uma espécie de capacete e o apli­cariam sobre sua cabeça. Os espinhos iriam penetrar seu couro cabeludo fazendo-o san­grar copiosamente. Mas, travariam. O diâmetro de sua cabeça seria um pouco maior. Para compensar o erro de cálculo, os soldados bateriam nos espinhos com um pedaço de madeira, rasgando a pele e arrancando tufos emaranhados de seu cabelo banhado de sangue.  

Pilatos, após exibir seu corpo dilacerado para a multidão, se acovardaria. Atendendo o clamor da turba ingrata e enfurecida, o oficial de Roma entregaria Jesus para ser crucificado.

Sobre seus ombros seria colocado o braço horizontal de uma cruz, pesando cerca de cinquenta quilos. A estaca vertical já estaria o esperando no calvário.

Je­sus iria caminhar com os pés descalços pelas ruas de terreno irregular cheio de pequenas pedras. Aproximadamente seiscentos metros, que pareceriam quilômetros. Fatigado pela dor e cansaço, Ele arrastaria um pé após outro, frequentemente caindo sobre os próprios joelhos. A esta altura, seus ombros já estariam cobertos de chagas, e quando caia por terra, a viga lhe escapava e escorregava pelo dorso. Uma lixa com o peso de dez pacotes de arroz.

Quando chegasse ao Calvário, os soldados iriam retirar suas vestes. Porém, sua túnica estaria intrinsicamente ligada nas chagas, e a fricção produziria uma dor atroz, pois cada fio do tecido já estaria aderido à carne viva. Com a retirada da túnica, as terminações nervosas se laceram. As chagas se rasgam. Os carrascos dão um puxão violento e o sangue começa a escorrer.

Então, Ele seria deitado de costas sobre o braço horizontal da cruz, e seus ferimentos, se encheriam de pedregulhos.  Os carrascos pegariam um longo prego pontiagudo e quadrado, apoiariam sobre seu pulso e com golpes de martelo, o plantariam e rebateriam sobre a madeira. 

Nesta hora, seu rosto se contrairia assustadoramente. O nervo mediano seria lesado. Uma dor aguda se difundiria pelos dedos e se espalharia até os ombros, atingindo o cérebro. A lesão dos grandes troncos nervosos quase o fariam perder a consciência, mas, Ele se manteria firme. Consciente. Sensível. O nervo estaria destruído só em parte, mantendo a sensibilidade. A lesão permaneceria em contato com o prego, causando uma dor interminável. 

Ao ser suspenso pela cruz, o nervo se esticaria como uma corda de violino, e a cada movimento ou solavanco, vibraria, despertando dores dilacerantes.

As pontas cortantes da grande coroa de espinhos pene­trariam no crânio. Por causa dela, seria impossível repousar a cabeça no madeiro. Seu crânio se penderia para frente, pressionando o pescoço e a cervical. Então, seus pés seriam pregados, provocando os mesmos efeitos aflitivos nos membros inferiores.

Três horas depois, ao meio dia, ele teria sede.  A esta altura, uma máscara de sangue já lhe cobria seu rosto. A garganta seca lhe queimava, mas, não conseguiria engolir nem mesmo a saliva. Os músculos dos seus braços se enrijeceriam em uma contração que iria se acentuando. Os deltoides, os bíceps esticados seriam levantados. Os dedos se curvariam. A respiração iria se fazendo cada vez mais curta. O ar entrando no corpo como um sibilo, e de lá, não conseguindo sair. Ele respiraria com o ápice dos pulmões. Sede de ar.  Nas próximas horas, ele se assemelharia a um asmático em plena crise. Seu rosto pálido se tornaria vermelho, e depois num violeta, até, enfim, entrar em estado cianótico. Uma pele azul e sem oxigenação. Ele seria envolvido pela asfixia. Os pulmões cheios de ar não podiam mais se esvaziar. 

A fronte estaria cheia de suor e os olhos saindo da órbita. Lentamente com um esforço sobre humano, Ele tomaria um ponto de apoio sobre o prego nos pés, esforçando-se em golpes, e se elevaria, aliviando a tração dos braços. Os mús­culos do tórax se distenderiam, a respiração tornar-se-ia mais ampla e profunda, os pulmões se esvaziariam e o rosto recuperaria a palidez inicial. Logo após, o corpo começaria a se afrouxar de novo e a asfixia recomeçaria. Cada vez que quisesse falar, deveria elevar-se, tendo como apoio o prego dos pés. Dor sobre dor.

As três da tarde, Ele já estaria há seis horas na cruz. A temperatura corporal diminuindo cada vez mais. Todas as suas dores exponenciadas. Sede desesperadora. Cãibras. Asfixia. O latejar dos nervos medianos lhe arrancariam um angustiante lamento. Ele se sentiria completamente sozinho. Nem mesmo os olhos de Deus estariam mais sobre Ele. Nenhum homem poderia suportar este último flagelo.

O lufar da morte. Uma gargalhada do inferno. A vergonha do mundo. Toneladas de pecados sobre um corpo moribundo. Solidão. Tela preta.

De sobressalto Jesus, retorna ao Jardim...

A angústia pelo sofrimento vindouro faz seu suor se transformar em gotas de sangue, um fenômeno raro que só acontece em condições excepcionais. Para provocá-lo, é preciso que o indivíduo se encontre em um estado de fraqueza física, acompanhado de abatimento moral, causado por violenta emoção e grande medo. Esta tensão provocou em Jesus o rompimento das finíssimas veias capilares. O sangue misturou-se ao suor e se concentrou na pele, escorrendo por todo o corpo.

Jesus estava em choque profundo. O medo afligia sua alma. Por um instante, Ele hesita. Não deseja passar por tanto sofrimento. Não seria justo que Ele, não tendo pecados, fosse castigado pelos pecados de todo o mundo. Então, Jesus pede ao Pai que mude os planos e não o faça beber daquele cálice amargo.

A fraqueza dura apenas um minuto. O dilema se esvai no soprar de uma brisa noturna. Jesus agarra-se a sua missão: -  Pai, seja feita a sua vontade e não a minha! Jesus escolhe a vontade de Deus.

Desde os primórdios do tempo, quando o homem traiu a confiança de seu Criador e cedeu a tentação da serpente, Deus tem se dedicado em tempo integral, buscando se reaproximar da humanidade. Do Gêneses ao Apocalipse, enxergamos o mover do Senhor em prol desta ambição sagrada. Os patriarcas, juízes, profetas, apóstolos, ministros, pastores, evangelistas e mestres, sempre atuaram como porta vozes de Deus na terra, anunciando sua palavra, que em resumo, nada mais é que um convite ao arrependimento, que por sua vez, é a chave que abre as portas dos céus para o homem.

Nada faz o coração de Deus pulsar tão forte quanto um pecador que se arrepende. O universo existe, para testemunhar este evento miraculoso. Deus não move uma única peça no tabuleiro da existência, sem que a motivação seja aproximar-se da humanidade e restaurar o homem para si. A encarnação do Filho do Homem entre nós, tinha como objetivo expiar os pecados da humanidade na cruz, reconciliando os pecadores e salvando todos os que haviam se perdido. Um inocente morrendo pelos pecadores. O sacrifício supremo. Tudo se resumia aquele momento. A redenção do homem só seria possível se Jesus aceitasse morrer afogado num oceano de dor.

No Jardim, Deus revela a seu filho tudo aquilo que Ele iria passar, se aceitasse a missão. E agora? Sim ou não? O paradoxo definitivo. Jesus se lembrou de nós, se compadeceu por nós, e por nós, Ele de bom grado, aceitou a cruz. E valeu a pena!

Os elementos clínicos deste texto são baseados nos escritos do médico francês Pierre Barbet, cirurgião-chefe do Hospital Saint Joseph em Paris por treze anos. Especializado em anatomia humana, ele estudou minuciosamente os efeitos físicos dos flagelos infligidos a Cristo, conforme relatado nos evangelhos.