Arquivo do blog

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O Monstro no Armário

Será que são pastores ou semi-deuses?
(Pr. Júlio Cesar da Silva)



O que grandes personagens bíblicos como Pedro, Moisés, Davi, Elias, Salomão, Jó, Ana, Jeremias, Noemi e Pedro tiveram em comum?

Antes da resposta, porém, precisamos falar de uma patologia que tem atravessado milênios, e que especialistas da área da saúde, hoje a identificam como sendo o “mal do século”. E este é nosso "monstro no armário", escondido atrás de ternos e gravatas, se camuflando entre vestidos estampados. Não conseguir enxergá-lo em seu esconderijo sagaz, é uma ameaça ainda maior que o próprio monstro. Ele fica ali, na espreita, pacientemente aguardando o momento exato do ataque. A fragilidade da vítima.  E então, usa seu poder de influência. A capacidade infame da sugestão perniciosa. O assombro diante de olhos escurecidos. A mente sendo minada por duvidas e constatações pessimistas. O coração perfurado por adagas invisíveis. E quando a fraqueza atinge o auge, e o homem está indefeso diante da fera, a bocada é fatal. Uma única dentada retirando nacos da alma, onde a regeneração espontânea simplesmente não existe.

Depressão. Um mal tão sutil quanto devastador. Nunca chega arrombando a porta da sala. Ela rasteja durante a noite pelos cantos mais escuros da casa, e se esconde na gaveta de meias. Seu início vagaroso é paradoxal ao ataque derradeiro, sempre mortal, de uma forma ou de outra. É uma doença tão ardilosa, que a maioria dos que sofrem dela, não percebem que estão doentes. E alguns, se negam a aceitar esta condição, por causa de uma espiritualização banalizada da fisiologia humana. 

A depressão é uma enfermidade psicossomática, que se manifesta em diversos níveis de intensidade. Nos casos mais simples, bastam algumas semanas para uma cura natural. Infelizmente, na maioria das vezes, o quadro tende a se agravar. Progressivamente, ela vai gerando sintomas por todo o corpo, sendo que o estrago maior acontece na mente. Uma implosão da alma. De forma bem pragmática, a depressão pode ser descrita como uma condição psicológica que afeta a tricotomia humana, provocando uma tristeza profunda e infindável, impossibilitando vislumbres de esperança com o futuro. O mundo passa a ser cinza opaco, e a existência perde todo o significado. Como já disse o Pr. Everardo Marques, “a depressão faz um homem olhar em uma só direção: a pior". Exatamente por isso, que um número cada vez mais crescente de pessoas optam por uma saída deveras drástica.  O suicídio. A mordida fatal de um monstro voraz, porém, paciente. E a religião não é uma apólice de seguro contra este mal. Muito pelo contrário, a institucionalização da igreja tem sido um anabolizante ministrado em doses regulares a este ogro nefasto.

Ao tentar vender uma imagem de “super-crentes”, “semi-deuses” e “invencíveis”, a igreja cria em seus adeptos, a tola ilusão que esta “coisa” de “monstro no armário” é para os fracos, os pecadores e os meninos da fé. Neste ponto, incautamente, muitos “fieis” baixam a guarda. O jantar da besta acabou de ser posto no prato.

É preciso aceitar que todos nós somos atingidos por traumas emocionais. Viver é uma aventura perigosa, e ninguém passa pela vida sem acumular alguns ferimentos. Desde simples arranhões, até fraturas expostas. Estas experiências desagradáveis tendem a deixar marcas profundas na alma. Dores crônicas no espírito. Impotência, comiseração, amargura, medo, insegurança, ódio... E isto, meus amigos, não é obra do diabo. São nossos sentimentos, inerentes a condição humana. Servir a Deus não traz imunidade contra o sofrimento e nem anula nossa sensibilidade emocional. Ainda somos uma esponja dentro do balde, em contato direto com a água suja. É simplesmente impossível não absorver parte deste chorume. A grande questão é aprender a esvaziar o recipiente, antes que o monstro no armário faça um drinque com este líquido apodrecido, enquanto desfruta de seu jantar. E existem algumas alternativas para proporcionar esta vazão.

A medicina avançou no entendimento (e na tratativa) das enfermidades psicossomáticas. Psicólogos, terapeutas e psiquiatras estão aí para serem consultados, assim como nos consultamos com ortopedistas, dentistas e clínicos gerais. Pena que a religiosidade mórbida de muitos cristãos, aponta erradamente para a direção contrária. -  A depressão é coisa do Diabo. Se alguém está depressivo, é porque tem escondido algum pecado grave!

Então, me diga. O que grandes personagens bíblicos como Pedro, Rebeca, Moisés, Davi, Elias, Salomão, Jó, Ana, Jeremias, Noemi e Pedro tiveram em comum? 

- Todos eles lutaram contra a depressão.

Por motivos diversos, homens e mulheres devotados ao Senhor, em algum momento específico da vida, foram atingidos duramente pela tristeza e desabaram emocionalmente. Ana deixou de se alimentar, por que queria morrer. Elias pediu ao Senhor que o matasse. Jó amaldiçoou o dia em que nasceu. Salomão declarou que os mortos são mais felizes que os vivos, e melhor do que morrer é nunca ter nascido.

Foi o diabo quem oprimiu estes patriarcas?
Os profetas estavam escondendo seus pecados?  
Os reis de Israel foram possessos pelo inimigo?

Não! Todos estavam fragilizados pelo desgaste emocional.

O monstro no armário não vem do inferno. Ele é gerado na alma do homem e chocado pelos traumas emocionais. Satanás, estrategista como é, pode sim contratá-lo como um agente infiltrado, mas por si só, ele (o monstro) já é um inimigo assolador.

E as famílias têm sido assoladas. A igreja, ainda cheia de tabus e dogmas arcaicos, está sendo dominada por este mal. A religião alimenta o monstro. Impõem regras desnecessárias e implanta misticismo barato em seus ensinamentos. Recrimina ao invés de perdoar. Julga sem demostrar compaixão. Líderes egocêntricos escravizam mentes langorosas. Uma geração espiritualmente fraca enxerga seus pastores apenas como um vaso sanitário onde despejam seus dejetos emocionais e defecam palavras irresponsáveis. E quando a mídia divulga o “suicídio” de um “pastor evangélico”, ficamos horrorizados: 

- “Como pode um homem de Deus fazer uma coisa destas”?

Sou filho de pastor assembleiano. Ao longo das últimas décadas, testemunhei meu pai carregando fardos que não eram dele. De cada cem pessoas que entram em um gabinete pastoral, noventa e cinco querem apenas se livrar da carga. - Agora o problema é do pastor! Poucos abraços, cobranças infinitas.  A negatividade de muitos sendo jogada irresponsavelmente sobre um único ser humano. Pense e faça uma conta de matemática simples: - Qual é a possibilidade real de um colapso psicossomático em alguém que (por amor ao seu ofício ministerial) absorve o lixo descartado por todos a sua volta? Como cirurgicamente argumentou o Pr. Jonathan Olevaqui: - Não nos confundam com laranjas! Não somos do tipo que você pode sugar e depois descartar como bagaço!

Meu pai, pastor em atividade há trinta anos, conviveu por muito tempo com a depressão. Acredita-se que cerca de 97% dos líderes eclesiásticos lidem com crises emocionais e quadros depressivos. Fico muito surpreso com esta projeção. Eu acreditava que fosse muito mais. O testemunho de Paulo em II Coríntios 11:23-28 me faz pensar assim:

Trabalhei muito mais, fui encarcerado mais vezes, fui açoitado mais severamente e exposto à morte repetidas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus trinta e nove açoites. Três vezes fui golpeado com varas, uma vez apedrejado, três vezes sofri naufrágio, passei uma noite e um dia exposto à fúria do mar. Estive continuamente viajando de uma parte a outra, enfrentei perigos nos rios, perigos de assaltantes, perigos dos meus compatriotas, perigos dos gentios; perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, e perigos dos falsos irmãos. Trabalhei arduamente; muitas vezes fiquei sem dormir, passei fome e sede, e muitas vezes fiquei em jejum; suportei frio e nudez. Além disso, enfrento diariamente uma pressão interior, a saber, a minha preocupação com todas as igrejas.

A preocupação com a igreja. Uma pressão interior testando os limites de Paulo. Mais que as prisões, os açoites e a fome. Um fardo pesado demais, e que mesmo assim, estes “anjos” trajando ternos, se dispõem a carregar. Mas, não se esqueça que estes "eles" são homens de carne e osso. E seres humanos se quebram com facilidade. Por isso precisamos de amparo. Todos nós. Ombros amigos. Choros coletivos. Aliados na luta contra o monstro que se esconde atrás de nossos cargos eclesiásticos. Menos condenação e mais benefício da dúvida. Menos julgamentos preconceituosos e mais mãos estendidas na direção do próximo. Quem está afundando, precisa que lhe joguem uma boia. E o que temos feito? Em nome de ”Deus” e da sua “Justiça”, jogamos uma âncora na direção do naufrago.

Sinto-me confortável falando sobre este monstro metafórico, porque convivi com ele por vários meses. Também tive algumas âncoras jogadas em minha direção. Conheço bem o tipo de pensamento que leva uma pessoa a tirar sua própria vida. Já estive na beira deste abismo, encarando a escuridão sem ao menos se lembrar de como é estar na luz. O mostro é absurdamente forte e escapar de seus braços parece impossível. Parece. Não é. O primeiro passo é reconhecer que existe algo errado no armário. Compreender que há uma monstruosidade ali dentro, e que não a expulsamos com crucifixos ou leituras sistemáticas do Salmo 91.  É preciso usar todas as armas disponíveis nesta guerra emocional. E o arsenal é grande, bem diversificado.

Na maioria dos casos, a depressão precisa ser tratada por especialistas, e não há nenhum pecado em se fazer isto (mesmo ainda existindo muito preconceito no meio evangélico a esse respeito). Alguns cristãos confundem depressão com falta de espiritualidade, se esquecendo que muitos fatores físicos contribuem para a doença, tais como desequilíbrio hormonal, medicamentos targeados, doenças crônicas, temperamento melancólico, alimentação inadequada e vulnerabilidade genética. A Igreja (bem como os familiares de pessoa deprimida) deve compreender a situação e ter o cuidado para não fazer julgamentos inapropriados. Até mesmo o cristão mais dedicado, pode sim ficar deprimido, o que não significa que tenha perdido a comunhão com Deus. A grande verdade, é que Deus não tem limites, nós temos. E tem horas, que sem ajuda correta, sucumbimos diante da dor.

O mundo que nos cerca é deprimente. Os ambientes eclesiásticos são marcados pela competitividade, isolamento e ostentação (não deveriam, mas são). Está armado o cenário propício para o desenvolvimento de quadros depressivos, e nós estamos inseridos nele. A depressão não é exclusivista, e nem escolhe com muitos critérios o pescoço no qual passará uma corda. O que eu aprendi com minha própria experiência é que não podemos impedir que a depressão faça o laço e coloque uma venda nos olhos, mas, a escolha de pular ou não do banquinho está em nossas mãos.

Então, não se renda ao monstro. Lute contra ele. Encontre aliados. O monstro escondido no armário gosta da rotina. Quebre-a! Faça um esporte para o qual não tenha aptidão. Escreva um livro que ninguém irá ler. Cante no chuveiro para uma plateia imaginaria. Ore em horários que nunca orou. Leia textos bíblicos em voz alta. Frequente aqueles cultos que você não gosta de ir. Faça tudo que lhe for possível. E busque ajuda. Vá o médico. Tome os remédios. Mude os hábitos alimentares. Transforme-se de dentro para fora. 

E nunca perca a esperança. E nem a fé. Deus sempre estará do seu lado, pronto a lutar por você quando as suas forças se extinguirem. Jamais se sinta sozinho: - “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza” (Romanos 8:26).

Nas palavras do psicólogo e escritor best-seller Augusto Cury, “antidepressivos tratam a dor e a depressão, mas não curam o sentimento de culpa e nem tratam a angústia da solidão”. Ou seja, esta luta nunca será vencida completamente, se não alinharmos nossos pensamentos aos do Senhor. Vivermos sua vontade em plenitude. E todo cuidado é pouco. O período da depressão nos deixa mais susceptíveis aos ataques de Satanás, e o inimigo se aproveita quando estamos fracos e debilitados para soprar aos ouvidos seu convite mortal. Antes da tragédia (que se anuncia com muita antecedência), precisamos aprender a relaxar e encontrar refrigério em Deus. Ele nos dará a força suficiente para vivermos a restauração. Durante as tristezas, ou nos momentos de fraquezas, “a alegria do Senhor nos fortalece” (Neemias 8:10).

O que grandes personagens bíblicos como Pedro, Moisés, Davi, Elias, Salomão, Jó, Ana, Jeremias, Noemi e Pedro tiveram em comum?

- Todos venceram a depressão!

E com muito orgulho, posso me inserir nesta lista. Você também pode ter seu nome nela. Um monstro a menos neste mundo monstruoso é também  uma vitória da fé inteligente sobre o emburrecimento da tendiciosa pseudo-teologia moderna.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A Chuva e o Mar

Não tenha sobre ti, um só cuidado, qualquer que seja. 
Pois um, somente um, seria muito para ti.
(Josué Rodrigues)


Sabe aquela visão otimista sobre a vida, que nos faz sempre enxergar o “copo meio cheio”? Pois é. Nunca tive. Sou mais o tipo de pessoa que projeta o pior cenário, para ver se, pelo menos assim, é possível retirar alguma coisa boa de situações desagradáveis. Endosso a enorme estatística daqueles que sofrem de véspera. O problema apenas mandou uma mensagem de texto dizendo que está chegando, e lá vou eu roer minhas unhas até sangrar as pontas dos dedos. Enquanto alguns dançam alegremente na chuva, eu estou aflito com as possíveis goteiras em cima da cama. 

E esta analogia me remete as lembranças do dia de meu casamento.

Nove de dezembro de dois mil e seis. A manhã chegou trazendo de presente um belíssimo céu de brigadeiro. Exatamente como estava previsto no meu roteiro ideal. Eu e a Valquíria nos encontramos na porta do cartório e assinamos a papelada. Marido e mulher perante a lei dos homens. Almoçamos juntos (já casados), e então seguimos caminhos opostos. Enquanto ela se dirigiu com sua comitiva para um tratamento de “princesa”, eu, menino brejeiro como sempre fui, tinha planos menos glamorosos. Apenas ficar em casa, esperando ansiosamente a hora de vestir um terno preto e correr para igreja onde seria realizada a cerimônia religiosa. Simples assim. 

E o script fluía com naturalidade...

Foi então, que sem maiores alardes, o segundo ato chegou com sua reviravolta mirabolante. Por volta das três da tarde, um tapete negro se desenrolou sobre os céus com a velocidade de um trem bala. O dia ganhou contornos soturnos. A sala de minha casa enegreceu. Em poucos minutos, uma chuva torrencial desabou sobre a cidade. E o mundo, na minha cabeça. Como disse, o copo para mim está sempre meio vazio.

E agora? O que fazer? A chuva não estava nos planos. Os convidados ficariam encharcados na porta da igreja. A chapinha das damas de honra se desmanchariam como manteiga quente. Os sapatos dos padrinhos cheios de água. A estrada do local onde seria a festa se tornaria um pântano. - Meus Deus, as mesas estão todas ao ar livre! E a barra do vestido da Val? - Branco! É meus amigos, eu transformei uma simples chuva de verão numa terrível tragédia. Olhava para cima e pensava em como Deus não deveria gostar de mim. Porque Ele tinha decidido jogar o oceano Atlântico em cima de Mogi Guaçu exatamente no dia do meu casamento?

E foi imerso nestes pensamentos tão mesquinhos, que eu entrei no quarto, me deitei sobre a cama e adormeci reclamando. O que não tem remédio, remediado já está. Uma hora depois, quando acordei, percebi a claridade acolhedora que tinha invadido o ambiente. Abri a janela, e para minha surpresa, lá estava o sol. Belo e radiante. Não havia nem mesmo sinais de nuvens negras no céu. O único vestígio da chuva era a grama molhada. Tanta preocupação para absolutamente nada. Questionamentos sem propósitos. Tem horas, que o melhor antídoto contra o desespero é deitar-se e dormir. Enquanto fazemos isto, Deus mantem as rédeas da natureza em suas mãos.

- Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois aos seus amados Ele o dá enquanto dormem (Salmo 127: 2).

Quando leio este verso escrito por Davi, fico indignado com as oportunidades que perdi na vida, em decorrência desta mania tola de exasperação. Poderia ter me preocupado menos, e com isso, sorrido muito mais. Este estilo de vida leve e buliçoso teria me poupado de alguns fios brancos na barba (precoces, é claro). E certamente, afugentaria o dragãozinho que passeia em meu estômago todas as manhãs. O pior de tudo, é que mesmo tendo plena consciência desta realidade, vez ou outra, lá vou eu (teimosamente), me arriscar numa tentativa fútil de colocar arreios em cavalos indomáveis, quando posso permitir que o mesmo Deus que domou os mares faça isso por mim. Enquanto sou derrotado por uma ratazana que se esconde no sótão da mente, o Senhor coloca cabresto no Beemote e cavalga sem sela no Leviatã (Jó 40:13-24).

Nas páginas do Êxodo encontramos uma história de desespero precoce e angustia antecipada que muito se assemelha ao meu destempero diante do “irrelevante” temporal de dois mil e seis. Porém, o que assustava os israelitas era uma ameaça bem mais significativa. Ao invés de convidados molhados, a consequência seria o extermínio de uma nação. Pobres hebreus. Encurralados entre as águas do Mar Vermelho e o poderosíssimo exército do Egito. Pouco restava para eles, a não ser uma entrega total e irrestrita à exasperação.

E os egípcios perseguiram-nos, todos os cavalos e carros de Faraó, e os seus cavaleiros e o seu exército, e alcançaram-nos acampados junto ao mar, perto de Pi-Hairote, diante de Baal-Zefom. E aproximando Faraó, os filhos de Israel levantaram seus olhos, e eis que os egípcios vinham atrás deles, e temeram muito; então os filhos de Israel clamaram ao Senhor. E disseram a Moisés: Não havia sepulcros no Egito, para nos tirar de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos fizeste isto, fazendo-nos sair do Egito? Não é esta a palavra que te falamos no Egito, dizendo: Deixa-nos, que sirvamos aos egípcios? Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto. (Êxodo 14:9-12)

Israel estava vivendo um momento de festa. Após quatrocentos anos de exílio, a nação caminhava rumo ao lar. Canaã, a Terra Prometida, onde do solo, manava leite e mel. Os últimos séculos haviam sido marcados por um sofrimento inenarrável. Flagelados pelo chicote de Faraó. Humilhados pelas divindades egípcias. Os hebreus viram seus velhos descartados no lixo, e mães foram obrigadas a jogar no Nilo, os filhos que ainda amamentavam. Eles clamaram por socorro com a boca cheia de areia, e como resposta, ouviram um longo silêncio. Agora, estavam livres. Os idosos sobreviventes eram amparados por crianças saltitantes, e juntos, calcorreavam na mesma direção. O horizonte da esperança era um território a ser conquista. E então, de repente, o sonho se desmoronou como um castelo de cartas soprado por ventos ocidentais.

O mar. As montanhas. Faraó.

Desde que saiu do Egito, os hebreus se moviam de acordo com a direção divina. Eles não deram um único passo fora do propósito, e seguiram aqui na terra, a rota estabelecida nos céus. Portanto, foi o próprio Deus que conduziu Israel até o centro de uma armadilha mortal. PI-HAIROTE.  O beco sem saída. A geografia de Pi-Hairote era simples de compreender. Uma gigantesca fenda lavrada numa região rochosa, que se encerrava exatamente no grande Mar Vermelho. Quando Faraó soube que os israelitas tomaram este caminho, mal conseguia acreditar na facilidade que teria para exterminar aquela gente. Seu coração estava incandesço pela ira, desejoso por uma vingança cega e ensandecida. Faraó não mediria esforços para concluir seu intento. Todos os soldados de Egito convocados para a guerra. Mais de seiscentos carros bélicos se movendo velozmente na direção dos hebreus. Os cascos dos cavalos faziam a terra tremer. Não haveria batalha, apenas extermínio.

Os hebreus não tinham armas, e se quer, sabiam lutar. Eles não possuíam treinamento militar ou destreza com espadas. Não passavam de agricultores sazonais especializados em carregar tijolos nos lombos. Nada mais que um cardume de sardinhas contra a correnteza infestada de tubarões. E sequer, tinham para onde correr. Presos em PI-HAIROTE, cercados de rochedos, com o Mar Vermelho à frente e Faraó na dianteira. Beco sem Saída. Medo justificado. Desespero avalizado pelas circunstâncias.

Sem opções de ataque e desprovidos de qualquer defesa, a nação voltou-se para Moisés: - Não haviam sepulturas no Egito? Viemos até aqui para sermos enterrados nas areias do deserto?

Pobres hebreus. Perdendo uma oportunidade singular de descansar no Senhor. Não conseguiam enxergar além do mar, da mesma maneira que eu não pude visualizar o sol radiante atrás da nuvem escura. E assim tem caminhado a humanidade, vivendo o momento, imersa em apreensão com o futuro. Andamos por ruas calçadas de preocupações, sem atinar que o refrigério nos aguarda ao virar da esquina. Amedrontamos sob a tempestade, nos esquecemos que o trono de Deus resplandece sobre o firmamento. A escuridão momentânea nada mais é do que a cortina do palco guardando em segredo o apogeu do espetáculo.

Moisés perguntou ao Senhor o que fazer, e Deus se incomodou com o questionamento. Como assim, o que fazer? Vocês ainda estão em duvidas sobre o futuro? – Continuem marchando!

Quem disse que uma pedra no caminho é empecilho para se continuar a caminhada? Onde aprendemos que soluções impossíveis justificam o desfalecimento da fé? - Se movam – Diz o Senhor.  Canaã não vai chegar até vocês por esteiras rolantes. Caminhem com firmeza. Olhem além das aparências. Lancem sobre mim toda a impossibilidade, e deixe que Eu converto em possibilidades as probabilidades improváveis.

- Moisés, porém, disse ao povo: Não temais; estai quietos, e vede o livramento do Senhor, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais os tornareis a ver. O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis. (Êxodo 14:13-14)

A partir deste ponto, os eventos que se sucedem, fazem as palavras de Moisés soarem apenas como um frágil discurso motivacional. Tudo convergiu para a histeria coletiva. O ruim ficou pior. O lagarto feroz abriu as asas, rugiu e se transformou num dragão aterrorizador. “Plot Devace” esmerado. Aquela belíssima imagem que temos de Moisés tocando nas águas do mar, e um caminho se abrindo instantaneamente, não passa de licença poética hollywoodiana. Quem testemunhou a cena em loco, precisou ter muita paciência para compreender os planos do Senhor. Milimetricamente traçado. O caminho pode até ser tortuoso e forrado por cascalhos pontilhados, mas, a chegada faz todo o difícil trajeto valer a pena. As dificuldades do trajeto estão no escopo divino. Até, porque, se for fácil, não é trabalho para Deus. 

1º EVENTO – Remoção da Escolta.

Desde que saíram do Egito, os hebreus tiveram um anjo que lhes dava segurança e proteção. Ele caminhava à frente do infante exército israelita, sendo a linha de defesa contra qualquer ataque inimigo. Porém, assim que Moisés ordenou a marcha, o anjo protetor deixou seu posto. Nas horas seguintes, o ministro celestial se manteve numa zona neutra, entre o povo israelita e o exército egípcio, fora do ângulo de visão dos hebreus.

2º EVENTO – Um mergulho na escuridão.

Para proteger seu povo do sol escaldante do deserto, Deus lhes cobriu com uma espessa nuvem, que garantia sombra e refrigério contra as altas temperaturas. À noite, esta mesma nuvem encandecia, e se transformava numa coluna de fogo. Assim, durante a escuridão noturna, os hebreus tinham luz e calor. Para surpresa de todos, Deus removeu a nuvem de sobre os israelitas, e a colocou na divisa entre as duas multidões. Quanto mais próximo ao mar, menos se enxergava e mais frio fazia.

O objetivo daquele povo era seguir em frente e atravessar o mar. E Deus, simplesmente, apagou as luzes da avenida e mandou para casa os policiais, exatamente quando os criminosos estariam à solta. Faz sentido? Obviamente, sim! O Senhor estava movendo as peças no tabuleiro, mesmo que ninguém tivesse ideia de qual seria a próxima jogada. A noite trouxe aos hebreus uma escuridão até ali desconhecida, e o frio finalmente adentrou pelas portas. Sem anjo para lhes proteger. Sem fogo para os iluminar. O único ponto de luz estava voltado aos egípcios, com seus carros poderosos e espadas afiadas. E sem muitas opções para desviar o pensamento de um mal inevitável, o povo teve medo. Não deveria, mas teve. - E como não ter?

O que a maioria não percebeu, é que em meio ao negror sepulcral, Deus providenciava um grandioso livramento, contado e cantado até os dias atuais. Se no acampamento de Israel as coisas aparentavam não estarem bem, entre os egípcios, nada ia bem, de fato. O Anjo do Senhor não se manteve impassível diante do perigo, Ele interviu. Seu toque angelical alcançou os carros bélicos de Faraó, e os incidentes começaram. As rodas se soltavam. Os cavalos se negavam a trotar. Enquanto a equipe de manutenção se esforçava para consertar um equipamento, outros dez apresentavam defeitos irreversíveis. E do que adiante ser veloz, quando não é possível se mover? Qual é a utilidade de seu poderio militar, se os inimigos se mantêm muitos passos à frente? Israel estava parado e o Egito não se movia. Zero a zero no placar de um jogo truncado. O único que se mantinha em ação era o próprio Deus.

Durante toda a noite, uma corrente de ar provinda do oriente, soprou sobre as águas do mar. Cegos pelo desespero, os hebreus não conseguiram enxergar além da escuridão, e se quer, perceberam o trabalhar de Deus. Enquanto famílias choravam abraçadas, apenas aguardando a hora da morte, o Senhor estava lavrando um seguro de vida, com cobertura sem restrição. Pelas perspectivas das possibilidades, Israel tinha todo o direito de sucumbir sob uma avalanche de angústia e desesperança. Mas, perderam uma chance dourada de confiar no Deus que os havia tirado do Egito com braço forte e mão estendida. O histórico lhes garantia tranquilidade, mas, faltou memória. A noite não dormida, tornou a caminhada matinal num exercício pesaroso. Feliz foram aqueles que descansaram no Senhor, e diante da tragédia anunciada, bocejaram despreocupadamente, entregando nas mãos do “Eu Sou” o seu sono mais profundo.

Quando o dia amanheceu, e os raios de sol tocaram no mar, um povo embasbacado pode finalmente enxergar o milagre ocorrido em meio a escuridão. O mar estava aberto. Um caminho seco ligando margem a margem. A rota de fuga definitiva. Pena, que a maioria estava exausta, desvaída de forças e com olheiras de panda. Eles haviam desperdiçado toda a energia acumulada se remoendo em preocupações. Tanto esforço para nada. E este tipo de comportamento, traz o texto de volta para mim. Preocupado com uma chuvinha qualquer, enquanto deveria estar aproveitando um dia inesquecível. A minha vantagem sobre os israelitas, é que pelo menos, eu consegui dormir, enquanto Deus reinava sobre as águas.

Então, é isso. Aprenda com os erros alheio. Preocupações excessivas roubam oportunidades únicas. E ainda fazem agiotagem na alma, no corpo e no espírito. Taxas e juros altíssimos. Se preocupar com o “passado” gera depressão. Se preocupar com o “presente” causa stress. Se preocupar com o futuro produz “ansiedade”. A saída é relaxar. Despreocupar. Estando você atribulado ou em paz, o mar vai se abrir do mesmo jeito. E não é a sua agonia que irá fazer Faraó desacelerar o passo. Tem coisas que só Deus faz.

E nestas horas, o que se pode fazer? Comece fazendo uma pausa no discurso lamurioso. Não se gaste com esforços desnecessários. Ouça a voz do Senhor ecoando sobre as ondas, reverberando na escuridão e retumbando através da tempestade: 

- É "Meu", somente "Meu", todo o trabalho. E o teu trabalho é descansar em Mim...

Silêncio. Aquieta teu coração. Amanhã não existirá mais egípcios em teu encalço. Cochile despreocupadamente. A tempestade é passageira. Durma sem medo. O Senhor vela seu sono. Reserve suas energias para a Lua de Mel. Ou então, para aquela festança que vai acontecer na margem oposta do mar.