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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Padrão de Beleza


Viver é isso: ficar se equilibrando o tempo todo,
entre escolhas e consequências!
(Jean Paul Sartre)


Como diz o velho ditado, “a beleza está nos olhos de quem vê”. Pois é.  Nada é feio (ou bonito), até que padrões prévios sejam estabelecidos. No Brasil, gasta-se horas sob o sol afim de bronzear a pele. Em países como a Coréia do Sul, a regra é abrigar-se na sombra, para manter a cútis branqueada. As magérrimas e longilíneas modelos que fazem sucesso nas passarelas europeias, seriam um fracasso retumbante em qualquer desfile na Mauritânia, onde o “acúmulo de tecido adiposo” caracteriza as mulheres mais belas. Em algumas regiões da Etiópia, as adolescentes passam por um processo cirúrgico no qual tem o lábio inferior cortado, para ali, usarem  um tipo de disco esculpido em madeira ou porcelana, cujo diâmetro vai ficando maior a cada inserção. Quanto mais esticado for o lábio, mais “bela” e “sexy” é considerada a mulher. Em Kaian, na Tailândia, a moda é usar bobinas de bronze no entorno do pescoço para esticá-lo ao máximo possível. Quanto mais “pescoçuda”, maior é o glamour.

Algo considerado “feio”, “estranho” ou “deselegante” numa cultura, se revela “belo”, “exuberante” e “luxuoso” em outra. Tudo é questão de parâmetro. Se achamos anormal que mulheres tenham pescoço de “girafa”, em alguma parte do mundo, alguém estará ridicularizando as mulheres com pescoço de "tartaruga" que povoam nossas cidades.

Socialmente falando, a questão mais interessante é entender quem determina os padrões. Em algum ponto da história, uma mente “brilhante” com capacidade de influenciar a opinião pública, baseado em critérios e gostos estritamente pessoais, determinou que “azul” é coisa de menino, sendo o “rosa” uma cor exclusiva para uso de meninas. E assim foi por anos a fio, até que uma nova tendência emergiu, miscigenando cores e gêneros.  A mídia dita a moda e a moda dita a regra. E a grande maioria, simplesmente segue a regra sem ao menos entendê-la ou questioná-la. Se todos dizem que é “belo”, realmente, “belo” deve ser.

Mas, este tipo de consciência coletiva absoluta, sem confrontamento consistentes, é deveras perigoso. O fato de todos "acreditarem" não é prova cabal de veracidade. Joseph Goebbels, ministro de propaganda na Alemanha Nazista de Adolf Hittler, defendia o conceito que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Infelizmente, mesmo sem perceber, também acreditamos nisto. Afinal de contas, o que é mais “humano” que valer-se da mentira para alcançar seus objetos? Seja em busca de benefício pessoal ou meramente por autopreservação. E se o tempo for capaz de banalizar o objeto da crença nebulosa, escondendo nos arquivos históricos os mais falíveis argumentos, não há realmente motivos para se preocupar com a falência da tola ideologia hedonista.

Toda beleza é uma verdade momentânea, com localização geográfica muito bem definida. Meias verdades, e nada mais. Efêmeras. Passageiras. Transitórias. Metamorfose em constante evolução. A verdade suprema e absoluta, mesmo diante de contestações eloquentes, permanece inalterada. “Sim é sim. Não é não”. E se nossos parâmetros estão suscetíveis ao tempo e ao multiculturalismo, jamais poderão ser tomadas por “verdades”. Logo, são mentiras.

Se os padrões sociais e culturais carecem de confiabilidade, o cristão precisa buscar parâmetros que não se corrompam com o passar dos anos. Nosso objetivo é uma eternidade que apenas refletirá os efeitos das escolhas realizadas no presente. Não podemos ser levados por ondas de modismos ou nos deixar vislumbrarmos com belezas pré moldadas. É preciso manter o pé calçado em bases bem mais sólidas, estabelecidas antes da criação do mundo, e que permanecerão inalteráveis, mesmo depois que toda existência conhecida encontrar seu fim. Este parâmetro definitivo, a prova de variações e perpétuo por essência, é o próprio Deus. Sua Palavra. Sua Vontade.

O Senhor deseja que nos enquadremos em seus princípios. Ele almeja ser a referência norteando comportamentos, pensamentos e intenções:

- Anda ao meu lado e seja perfeito! (Gêneses 17:1)

- Seja santo, porque Eu Sou Santo! (I Pedro 1:16)

Mais do que uma exigência autocrática e impossível de ser executada à risca, esta ordenança divina é um estabelecimento de meta. Deus colocou um alvo de perfeição e santidade, para que homens pecadores e imperfeitos tenham uma direção na qual olhar. E lá está ele (o alvo), desde os dias de Adão. Imóvel. Imutável. Intransgressível. Um norte. Um porto. Uma direção segura. Se há alguma moda a ser seguida, é a ditada por Deus. Ela se mantém usual ao longo das eras. Atual em cada dispensação. Moda Eternidade/Eternidade. Um padrão pleno e absoluto que confronta a falácia (e a falência) das mais consistentes verdades humanas cheias de virtudes e defeitos condicionados apenas ao olho (e ao gosto) do observador. Quando a Palavra de Deus é o parâmetro adotado, logo, todos somos nivelados pela condição humana, e começamos a busca por uma excelência sistêmica, que só é alcançada mediante a proximidade com o divino. 

O mais crasso dos erros cometidos neste processo, é a insistência na comparação entre iguais. Absoluta perca de tempo. De nada adianta empregar força e talento para superar o irmão “A” ou “B” e usar o “fulano de tal” para paramentar minha espiritualidade. Qual é a proficuidade de sentir-se mais “santo” que as demais pessoas, se o objetivo estabelecido é chegar ao patamar de santidade do próprio Deus?

Não estamos numa disputa por canonização, e sim, na busca de aprimoramento individual, visando intimidade com o Senhor. Neste processo, somos lapidados, corrigidos, exortados, redarguidos, purificados, justificados e santificados, ainda que a perfeição esteja longe de ser uma realidade terrena. Estamos nos aperfeiçoando, e esta é uma batalha pessoal e intransferível. Quem se rotula "acima da média" no quesito santidade, apenas por se sentir mais próximo de Deus que os outros, geralmente é quem de fato, está mais longe do Senhor.

Particularmente, não gosto de usar roupas brancas. Tenho meus motivos para isto.  Mesmo assim, sinto-me obrigado a manter no guarda roupa, algumas peças alabastrinas. Branco mais alvo que a branca neve. Ou pelo menos, era isso que eu pensava. Dias atrás, todos os obreiros da igreja foram convocados à padronização. Camisa branca era um dos itens escolhidos. Vesti minha indumentária e orgulhosamente me dirigi à congregação. Durante o cerimonial da Santa Ceia, no exato momento em que todos se perfilaram lado a lado, tive a clara revelação. Quando comparado ao branco da vestimenta alheia, o meu branco (ou aquilo que eu julgava branco absoluto) se transformou em "amarelo". Ou quase isso. Basicamente,  o padrão exigido subiu e a qualidade individual se precipitou. Toda comparação é uma faca de gume duplo. E o corte pode ser profundo.

Quem se equipara ao próximo, com a intenção de valorizar a pureza das próprias vestes, tende a interpretar incorretamente a paleta de cores. Uma conclusão viciada e comprometida.

Quer ter parâmetros corretos? Se aproxime de Deus!

Quanto mais perto eu estou do Senhor, mais pecador me sinto. Se a proximidade com Deus me faz ter overdoses de santidade, tem algo estranhamente errado neste sentimento. Afinal, “Ele” é tão puro e perfeito, que minhas impurezas e perfeições saltam as vistas quando estou ao seu lado. Como se fossem pipocas recheadas de nanquim numa panela de cerâmica branca. Deus é santo, e sua presença revela o quão pecador me tornei.

Aproximar-se de Deus evidência minhas falhas de caráter, meus pensamentos perniciosos e minhas intenções escusas. Meu pecado mais obscuro é descortinado pelos olhos de fogo daquele que tudo sabe e tudo vê. Logo, não me sinto santo. Me descubro miserável. Imundo. Desgraçado. E se isto acontece, tudo esta indo muito bem. Reconhecer a própria condição pecaminosa é o requisito básico para que a Graça encontre propósito, e a Misericórdia seja validada em nós. Famintos de justiça são fartos. Mendigos espirituais são recolhidos ao albergue do amor. 

Imagine que a escravidão do pecado seja o ponto inicial da paleta. Escuro. Negro. “Preto Vantablack”. Uma cor tão escura que pode ser entendida apenas como "ausência". Carência de luz. Aposto a este negror, está o padrão estabelecido por Deus. O alvo. A meta. Um branco límpido e cristalino. Imaculado. Incontaminável. A “santificação” é uma jornada que passa por cada tom entre eles. São muitos cinzas pelo caminho. E por vezes nos iludimos achando que o “cinza níquel” de um, revela mais santidade que o “cinza elgengrau” do outro. Ledo engano. Tudo é cinza. Mais próximo do preto que do branco.

Só existe um tipo de branco para Deus. E ainda estamos longe na escala de cores. São muitos degraus cinzas para percorrer. E a subida, obrigatoriamente, precisa ser realizada com os olhos voltados para cima. Na direção de Deus. A beleza da santificação revelada. Cada vez mais claro.  A escuridão ficando para trás. Foco no alvo que é Cristo. Ele é o padrão. O parâmetro. Sua Palavra confronta nossa arrogância. A Bíblia expõe as fraquezas. Joga no rosto a sujeira escondida embaixo do tapete. Revela que meias verdades são mentiras absolutas. Prova que nenhum cinza é branco, mesmo que reverberemos ao mundo está discromatopsia espiritual.

A Bíblia confronta o avarento, o luxurioso, o soberbo, o hipócrita, o vaidoso, o idolatra, o arrogante, o glutão, o perverso, o sodomita, o adúltero, o homicida, o bêbado, o invejoso, o maledicente, o lamurioso, o blasfemo, o herege, o apostata e o contencioso (a lista é imensa e sua paciência é curta). Mas, também confronta o pai de família, o pastor das ovelhas, o evangelista, o mestre, a mulher virtuosa, o discípulo abnegado, e até mesmo, o ganhador de almas. Eu não tenho argumentos para confrontar alguém que dedica sua vida a resgatar almas das mãos de Satanás. A Bíblia tem.

- O que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e no fim perder sua alma? (Mateus 16:26).

Todos precisam de confrontamento. De parâmetros que determinem com minúcias de detalhes nossa real condição: Náufragos num mar tingindo de cinza. Fugitivos de um buraco negro infernal e insaciável, que almejam chegar a margem ao norte, de onde um farol resplandecente emite a mais branca entre todas as luzes brancas. 

É nesta direção que devemos seguir. O tamanho do pescoço não importa. A flexibilidade dos lábios é irrelevante. A cor da pele não tem influência. A quantidade de gordura no corpo é irrelevante. Durante a jornada, todos somos iguais. Desesperados por Misericórdia. Dependentes da Graça. Pecadores nas mãos de um Deus irado, que em seu infinito amor, insiste em se compadecer por aqueles a quem deveria exterminar. Esta sim, uma "tendência" ousada e corajosa. O tipo de “moda” que todas as culturas do mundo deveriam incorporar.

Então, é isso.

A única beleza perfeita reside em contemplar a face de Deus. Ainda não estamos preparados para isso. Mas, estamos nos preparando. Um pecado a menos por dia. Uma tentação negada por vez. Passo a passo. O objetivo não é superar meu irmão no que tange a santidade. O que preciso é melhorar sempre. “Eu, superando a mim mesmo”. Sendo hoje, um pouco melhor do que fui ontem, e um "pouquinho" pior do que serei amanhã. Que minha maior alegria seja olhar no espelho e perceber que, pelo menos, o branco do meu olho já se assemelha ao de Cristo. Em breve, meu sorriso será parecido com o Dele também. Branco. Verdadeiro. Eterno.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Procura-se alguém para amar!

O que nós mais desejamos e buscamos, é nosso objeto de adoração.
(John Piper)


Cinco casamentos fracassados. Todos, por iniciativa dos maridos. Altos. Baixos. Gordos. Magros. Bastavam alguns dias sob o mesmo teto, para que juntassem suas cuecas numa sacola de supermercado, e batessem a porta sem ao menos olhar para trás. Sentada no chão do quarto vazio, a mulher apenas fitava as paredes branqueadas com um olhar disperso. Não haviam mais lágrimas a se derramar. Um abalo sísmico não é tão impactante, se uma sucessão de terremotos já jogou no chão todas as estruturas existentes. A dor que sentia não era pelo quinto abandono consecutivo, e sim, em decorrência da “iluminação” que finalmente lhe clareava o pensamento. 

-  Eu não nasci para ser feliz!  

E da hecatombe emocional, surgiu uma nova mulher. Livre, leve e solta. Avessa a compromissos. Quando se entende que a felicidade permanente é apenas ilusão, contenta-se em ser feliz sempre que possível. Viver de aventuras. 

- Quem precisa de  “seratonina” quando se pode conseguir doses cavalares de “adrenalina” apenas atravessando a rua? 

A samaritana estava cansada de comprometimentos. A ideia de uma nova aliança dourada no anelar esquerdo lhe provocava urticárias. E como não se pode abandonar aquilo que não possui, ela simplesmente passou a usar o que era dos outros. De outras. 

Seu nome se tornou conhecido na cidade. Desejada secretamente pelos homens. Odiada publicamente pelas mulheres. Presença ilustre em sonhos luxuriosos e pesadelos inquietantes. Quem a beijava na calada da noite, lhe virava o rosto quando o sol amanhecia. Amada entre os lençóis, desprezada nas praças e avenidas. Uma sensação de liberdade que não retirava dos pulsos a algema. E assim como o doce do chiclete se acaba rapidamente, deixando apenas uma massa insossa ocupando espaço na boca, a vida escolhida pela samaritana logo perdeu a graça também. Achava que nenhum homem seria capaz de lhe estampar um novo sorriso no rosto. Não de verdade. Pelo menos, não até aquela manhã.

Quando os primeiros raios de sol surgiam no horizonte, as mulheres da região de Sicar, iniciavam uma verdadeira peregrinação até o “Poço de Jacó”, de onde retiravam água para seus afazeres diários. Enquanto conversavam despreocupadamente, enchiam seus cântaros e voltavam para casa com os jarros trasbordando. A samaritana desta história, tinha um hábito diferente. Sem amigas para conversar, preferia uma caminhada solitária até a fonte, num horário alternativo, quando todas as vasilhas da cidade já estavam abastecidas. Enquanto as famílias se sentavam para o almoço, ela se preparava para ir buscar a água do feijão. Era melhor assim. Estava cansada de ser apontada, recriminada e coagida, como se vermes purulentos eclodissem de sua pele.

Mas, naquele dia, havia um homem no poço. Judeu. - O que ele fazia ali? Assentado sobre as pedras, o desconhecido cantarolava, enquanto observava alguns pássaros bebericando numa pequena poça formada no chão. Afim de passar incógnita (não se sentia "bonita" naquele momento), a samaritana caminhou nas pontas dos pés, amarrou uma corda na alça do jarro, e se debruçou sobre o poço, deslizando suavemente o cântaro até enchê-lo por completo, enquanto olhava de soslaio para o viajante. Sentiu o peso. Rapidamente se recompôs, içou o cântaro, abarcando o jarro entre a cintura e o braço direito. Deu de costas. Porém, antes do primeiro passo, ouviu a voz meiga, suave e gentil que fez disparar seu coração. 

Há tempos ela não se sentia assim...

- Boa tarde, moça... Você saberia me dizer que horas são?

Ela se virou na direção dele, enquanto matinha os olhos voltados para o cântaro. O desconhecido retomou a conversa.

- Meus amigos foram comprar alguns sanduíches na cidade, mas até agora não voltaram. Sabe que hora é?

- Acho que já é meio dia. -  Respondeu a mulher, um pouco consternada.

- Ainda é cedo! - Ele aponta para o jarro:

- Que cântaro bonito. Conserva bem o frescor da água?

A mulher estava desconcertada com tamanha intimidade. Mas, se sentia confortável pela gentileza do viajante. Não se lembrava com precisão, da última vez que um  homem lhe demostrava tanta cordialidade sem segundas intenções.

- Sim. Quando chego em casa, a água ainda está fresquinha. - Respondeu, já com um meio sorriso nos lábios, mas, ainda olhando para as pedras ao redor do poço.

- Poderia me dar um copo desta água?

Pela primeira vez ela levanta seus olhos e encara o desconhecido.

- Você é judeu! Não é?

Ele afirma positivamente com a cabeça.

- Como pode um homem judeu, pedir água para mim, uma mulher samaritana?

Rótulos. Gêneros. Minorias. Deus se importa com a humanidade. O "Verbo" se fez "Carne" para salvar pessoas. No cadastro habitacional dos céus, informações como nacionalidade, filiação política, sexualidade e profissão, são absolutamente irrelevantes. Jesus veio ao mundo com o propósito de chamar os pecadores ao arrependimento. E ali, junto ao poço, Cristo estava diante de um coração pecador, muito cansado de tanto pecar. Esta era a unica informação realmente necessária.

- Ah, mulher! Se você entender a grandeza do presente que Deus está te dando, e reconhecer quem eu sou, é você quem vai me pedir água. E eu te darei Água da Vida!

Ainda sem compreender o contexto espiritual daquele encontro, a samaritana foi pragmática com o judeu simpático, porém, misterioso.

- Você não tem apetrechos para retirar água do poço. Como poderia matar a minha sede? Por acaso tem mais poder que nosso pai Jacó?

Dizia minha avó, que é a curiosidade quem mata o gato. Neste caso, salvou uma vida. Feliz é aquele que diante do Cristo, se desfaz de toda legalidade, abandona qualquer timidez, e sem receios, o inquire sobre as aflições da alma. Este, encontra as respostas pelas quais a humanidade anseia, sem nunca obter. Mais do que fazer a pergunta correta, é preciso conhecer o Dono da Verdade. E ali estava Ele, a disposição de uma mulher que a sociedade fazia questão de desprezar.

- Quem bebe da água deste poço, em poucas horas volta a ter sede! - Explicou serenamente o homem desconhecido.  – A água que eu ofereço, mata a sede perpetuamente. Uma vez ingerida, transforma-se numa fonte que jorra Águas de Vida Eterna.

A samaritana estava sedenta. Sua alma era semelhante a uma rosa plantada no meio do Saara. Combalida pelos anos de silêncio soturno. Frustrada por sentir-se sozinha, mesmo estando acompanhada. Exaurida dos sorrisos ensaiados e das lágrimas camufladas sob olhos de vidro. Ansiosa por vida. Carente de felicidade. Desesperada por Deus. Então, colocando seu cântaro na borda do poço, ela se aproximou do viajante, e fez uma "meia" reverência respeitosa:

- Senhor, dai-me desta água! Estou cansada de retornar a este poço todos os dias... A jornada é muito pesarosa para mim...

O viajante não estava ali por acaso. Tinha proposto a viagem aos seus amigos, calculado a passada com precisão e atrasado o almoço propositalmente. Solicitou que doze homens fossem "juntos" comprar uma dúzia de pães no “Sicar´s Mercado e Mercearia”, e se assentou sobre a pedra, enquanto olhava os céus para conferir a posição do sol. - Bem a tempo!  - Quando a mulher chegou, Ele já estava a esperando. Um evento planejado antes mesmo do mundo existir. No dia em que Jacó cavou aquele poço, para presentear seu filho José, estava apenas preparando o cenário do encontro perfeito.

- É claro que vou te dar desta água. Mas, primeiro vai até sua casa e chama teu marido.

O rosto da mulher se ruborizou. Culpa. Vergonha. Constrangimento. Aos olhos de um judeu, na escala social, ela estava abaixo dos vermes. Minoria entre as minorias. Mulher. Samaritana. Divorciada. Divorciada. Divorciada. Divorciada. Divorciada. Adúltera. Seria prudente omitir certas informações em relação a sua vida. Poderia pedir que o viajante esperasse no poço enquanto buscava “seu esposo”, e simplesmente, jamais voltar ali. - Mas, o que fazer com a sede? Decidiu ser direta. Sincera.

- Senhor! Eu não tenho marido.

- Eu sei! - Respondeu o desconhecido. – Você já teve cinco maridos, mas o homem que hoje dorme em tua cama, é de outra mulher.

A samaritana sentiu o corpo estremecer. Havia algo especial naquele homem gentil, e mesmo assim, tão incisivo. Inquietamente. Certamente, era um profeta. E ela, não perderia a oportunidade. Sabia que estar diante de um "homem de Deus" era o mais próximo que poderia se sentir do próprio Deus.

- É verdade, meu Senhor! Esta é a triste história da minha vida.  Você foi enviado por Deus. Conheces os mistérios ainda não revelados aos pobres mortais. Poderia, por favor, responder uma pergunta que há anos tira o meu sono?

O que perguntar para aquele que tem todas as respostas? A origem da vida? Os números da loteria? Qual a cura do câncer? O segredo da felicidade? Como se vingar de ex-maridos? Não. A inquietação daquela mulher deixa minhas prioridades no chinelo.

- Meus pais me ensinaram que devemos adorar a Deus no monte. Os judeus ensinam que Deus só pode ser adorado no templo. Qual o lugar correto para se adorar?

Uma mulher pecadora, cujo coração abscôndito gritava pela presença de Deus. Por isso, o Cristo veio. A sociedade a recriminava, mas aquela mulher era um farol cujo facho de luz atravessava as fronteiras de Samaria, percorria toda a Galileia até chegar incandescente aos olhos de Jesus. Impossível ignorar. Cristo não resistiu ao convite sem palavras. Mesmo sem saber, Ela clamava por Jesus, e Jesus a atendeu. Ele veio! 

- Minha filha querida! O lugar é o que menos importa! A hora vem, e ela já chegou, em que os verdadeiros adoradores irão adorar ao Pai em Espírito e em Verdade. Esta é a adoração que Deus está procurando.

Uma samaritana abrindo portas eternas. Ela era o marco zero. O minuto inicial. Nela, um novo tempo estava se iniciando. A hora havia chegado. Adoração verdadeira. Tão rara no coração dos religiosos da Judeia. Tão intensa no coração de uma mulher pecadora nos subúrbios de Samaria. Ela olhou nos olhos de Jesus e implorou por uma mudança. Queria ser diferente. Melhor: 

– Quando o Messias vier, eu sei que todas as minhas dúvidas deixarão de existir. 

E em resposta, Cristo se revelou a ela, de uma forma que ainda não tinha se revelado a ninguém. Fosse a um “homem religioso” na sinagoga ou para uma “mulher casta” em Jerusalém.

- Eu sou o Messias! Hoje, você conversou pessoalmente com Deus!

Samaritana. Divorciada. Adúltera. Escória da sociedade judaica. Agora, ela corre na direção da cidade. A primeira missionária da história. A voz que apresentou Jesus aos samaritanos. O cântaro ficou no poço, assim como no poço, ficaram suas culpas e seus pecados. Livre. Leve. Solta. Agora, de verdade. Amando e sendo amada, como se fosse a primeira vez. A samaritana seguiu sua vida, vivendo por Jesus, e Jesus seguiu seu caminho, morrendo por ela.  Como bem disse Antoine de Saint-Exupéry, “o amor verdadeiro começa  lá onde não se espera nada de volta”.