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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Castelos de Palavras

O silêncio é um amigo que nunca trai.
(Confúcio)


Há algum tempo atrás, meu filho Nicolas mostrou-se um ambientalista em potencial. Esta faceta de sua personalidade veio à tona quando sua turma no Jardim da Infância assistiu a uma palestra sobre o uso consciente de água. E uma frase repetida a exaustão durante o evento impressionou profundamente o meu filhote.

- A água do mundo está acabando!

Pense numa criança que ficou obsessiva com a encomia de água. Um baluarte contra o desperdício! Pelo menos, o desperdício alheio. Ficava revoltado com pessoas lavando carro e reclamava da mãe jogando no quintal a água da máquina de lavar roupa. Estava disposto a salvar o mundo da escassez aquífera, nem que fosse sozinho. Este engajamento ambiental era até “bonitinho” de se observar, mas ficava insuportável quando “eu” entrava no chuveiro. Lá ficava o Nicolas batendo na porta e gritando: - Pai, toma só um pouquinho de banho, que a água do mundo está acabando. E como se fosse o próprio “Chaves” no “Festival da Boa Vizinhança” citando o celebre poema “Volta o Cão Arrependido”, ele repetia a frase pelo menos umas quarenta e sete vezes.

Porém, quando era o Nicolas que estava dentro do box, cercado de bichinhos de borracha e potinhos coloridos, os critérios de economia já não eram os mesmos. Sua mãe tinha que, “carinhosamente”, o retirar a força do banheiro, caso contrário, ele evoluiria para um anfíbio antes de desligar o chuveiro. Um dia, depois de presenciar uma desta cenas memoráveis, eu questionei meu “projeto de peixinho” sobre seus próprios valores morais:

- Nicolas, se você insiste tanto para que meus banhos sejam rápidos, porque você mesmo passa tanto tempo debaixo do chuveiro? A água do mundo não está acabando?

A resposta que ele deu, me deixou sem ação. Tive que disfarçar, sair de perto e ir para o quintal me debulhar em gargalhadas.

- Pai... Você é grande e usa muita água quando toma banho. Eu sou pequeno, e uso só um pouquinho.

Que senso de justiça imparcial, não? Como diria meu avô: - “Farinha pouca, o meu pirão primeiro”. Em sua ingenuidade, o Nicolas estava pensando como a maioria de nós. Se referenciando pelo próprio umbigo, enquanto elabora um estatuto onde toda a humanidade deva se enquadrar. Egoísmo disfarçado de generosidade. Arrogância vestida de humildade. Hipocrisia fazendo cosplay de sinceridade. Enquanto apontamos erros e falhas em pessoas, instituições e até mesmo no “sagrado”, usamos argumentos banais, infantis e impertinentes para justificar um comportamento egoísta e atitudes levianas. A mesma régua apontando distâncias iguais com medidas diferentes. O argumento válido para mim, perde a força quando aplicado aos outros. Ou o contrário. Tanto faz.  

E nos sentimos confortáveis com esta situação, já que por vezes, em decorrência de uma boa falácia (outras tantas pela ingenuidade de ouvidos pouco aguçados), saímos ilesos desta fogueira de vaidades. É possível enganar “alguém” por muito tempo, “alguns” por certo tempo e a “todos” por um pouco tempo. Mas, como enganar aquele que está acima de tudo e de todos?  Então, inevitavelmente, o Castelo de Palavras que tanto esforçamos para construir, uma hora cairá.

E Deus é especialista neste tipo de trabalho. A sua PALAVRA é a própria “bola de demolição”. O Senhor implode palacetes e fortalezas como se fossem amontoados de gravetos ressequidos. Falamos o que queremos e ouvimos o que precisamos. Argumentos humanos derretam diante de sua vontade, assim como a manteiga se liquefaz na presença do fogo. E esta comparação “piro-metafórica” me traz a memória um personagem bíblico que tentou argumentar com Deus baseado em suas próprias convicções, e literalmente, saiu queimado.

Isaías é hoje conhecido como “O Príncipe dos Profetas”. O conteúdo de suas mensagens inspiraram, impactaram e modificaram milhares de pessoas por centenas de gerações.  Ele anunciou o exílio Babilônico com um século de antecedência. Predisse em minúcias de detalhes o nascimento, a vida e a morte de Cristo, setecentos anos antes da conversa entre Gabriel e Maria. Anunciou a decadência de reis famosos e o apogeu de governantes desconhecidos. Sua postura destemida estava alinhada a mensagem incisiva que pregava. Isaías não desvaneceu de sua fé, nem mesmo diante da morte. Segundo a tradição história (baseada no registrado do milenar – e apócrifo - “Livro dos Profetas”), quando o perverso rei Manasses se viu confrontado pelo profeta do Senhor, ordenou que o mesmo fosse assassinado com requintes de crueldade. Assim, Isaías foi amarrado de cabeça para baixo com as pernas abertas em forma de “v”. E ainda vivo, lentamente serrado ao meio. Nesta posição, os órgãos vitais demoram a ser atingidos, e dependendo da perícia do carrasco, o flagelo e a agonia podem ser prolongados por horas a fio. Tempo o suficiente para mudar por completo as crenças da pobre e infeliz alma condenada. Nada disso abalou sua convicção ou amortizou a esperança que residia em suas palavras. Um tempo de paz brotaria da guerra. Um menino especial iria nascer em Belém, Deus caminharia entre os homens. Isaías acreditava na própria mensagem, e isto o fortalecia contra a dor.   Um homem inabalável. Um profeta serrado ao meio, mais nunca quebrado em dois.

Mas, nem sempre foi assim....

Voltando alguns anos nesta mesma história, vamos nos deparar com um Isaías bem menos confiante, mais interessado em suas relações diplomáticas do que na espiritualidade de seus compatriotas. Tendo laços sanguíneos com o rei Uzias, ele acompanhava de perto as vicissitudes do reino, mas não se atinava para a urgência do próprio ministério. Então, Deus apressou em revelar-se com intensidade. O Senhor se descortinou a Isaías, permitindo que o jovem profeta partilhasse dos sentimentos divinos. Um homem sentindo a angústia do próprio Deus.

E como Deus estava triste. Seu povo querido caminhava cada vez mais distante, espiritualmente surdo e insensível a presença do Criador. Até mesmo o boi reconhecia a voz do dono, e o jumento sabia o caminho do pasto, mas Israel, teimava em se afastar do abrigo. Seguia mercenários e ignorava o chamado do sumo pastor. Mentes enfermas e corações enfraquecidos. Pais carregados de iniquidades gerando filhos corruptores. A perpetuação de uma descendência maldosa. Na demarcação geográfica de Deus, Judá estava no mesmo quadrante que Sodoma e Gomorra. Apenas a misericórdia do Senhor impedia o caos absoluto.

Isaías tinha uma missão árdua pela frente. O sermonário escrito por Deus não lhe reservava temas palatáveis. O profeta tinha um chamado, e também uma inquietação. Ele estava inserido no contexto ao qual deveria condenar. Era tão judeu quanto seus compatriotas apostatados e negligentes. Um povo de lábios impuros, que destilavam aos quatro ventos todo tipo de injúrias. E não se privavam de maledicências, blasfêmias e murmurações. Teria ele condições morais de ser o portador de palavras tão definitivas?

E neste ponto, que Deus se revela ao profeta pessoalmente. Olho no olho. Isaías faz parte de um seleto grupo que contemplou em vida, uma nuance das venturas eternas.

O profeta foi transportado a um templo de magnitude imensurável. No centro do Santuário, um trono altíssimo e sublime, de onde emanava a glória cintilante que envolvia toda a sala num brilho fulgural. Isaías olhou em sua volta e viu os Serafins. Anjos adoradores dotados de grande beleza e possuidores de imponentes “seis” asas. Com duas delas, cobriam o rosto, em respeito e reverência, tamanha era a intensidade da luz que emanava do Trono. Em uníssono eles cantavam a santidade de Deus: - Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos! Toda a Terra se enche com sua Glória!

E então, a voz daquele que estava assentado no Trono ressoou como se fosse um trovão ecoando pelos mares em fúria. E tudo estremeceu. Os umbrais do Templo dançaram sobre as próprias bases, mas permaneceram de pé. Uma fumaça em tons alvos e dourados envolveu todo o ambiente.  Apavorado, Isaías se lançou ao chão, em prantos e externando toda sua frustração interior:

- Aí de mim! Porque agora eu vou morrer!

Pobre Isaías. Inseguro do próprio chamado. Deus não precisa descer dos céus brandindo espadas assassinas. Para exterminar cento e oitenta e cinco mil soldados assírios, foi preciso um anjo. A arrogância de Herodes foi extirpada da terra por vermes desprezíveis. Basta um pensamento do Altíssimo, e a natureza se encarrega de abater exércitos poderosos. Conta-se que um homem armado até os dentes gritava num campo aberto, convocando Deus para um duelo de vida e morte. Enquanto berrava ensandecido acusando Deus de covardia, uma pequena mosca entrou na bocarra aberta, pousou tranquilamente em sua garganta e o valentão morreu asfixiado.  Quando o próprio Deus se dá ao trabalho de descer dos céus até nós, não é caso de morte, mas sim de vida.

Mesmo assim, o profeta estava apavorado. Ele fez uma análise de sua própria condição e concluiu que Deus estava sendo... hummm... digamos, um tanto, “imprudente”: - O Senhor se mostrou a um homem pecador e com isso decretou minha morte! E aqui, neste ponto, estão as similaridades (guardada as devidas proporções) entre os comportamentos de Isaías (o príncipe dos Profetas) e do meu filho Nicolas (até, então, apenas mais um aluno do pré-primário). O Nicolas justificando o banho demorado. Isaías, justificando a própria morte.

Qual a semelhança? 

Em ambos os casos, o argumento utilizado é valido na boca de quem fala, mas não convence os ouvidos quem o escuta.

Entenda. A verdade de um momento nem sempre é duradoura. Mesmo que não seja mentira. O Nicolas realmente acreditava que por ser “menor” que eu, gastava uma quantidade menor de água, mesmo passando mais tempo debaixo do chuveiro. Faz sentido? Para mim, não. Para ele, fazia.  Já as palavras de Isaías estavam revestidas de embasamento. O próprio Deus havia alertado Moisés sobre o perigo mortal que reside em se olhar diretamente para a face do Santíssimo. Porém, o profeta não estava preocupado com os critérios estabelecidos por Deus, mas sim, com o que pensava sobre si mesmo. As limitações que tinha colocado em sua própria vocação.

- Eu sou um homem cuja boca está contaminada, e meu círculo de amizade, é composto por pessoas com lábios tão impuros quanto o meu. Agora que meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos, minha ousadia seria castigada com a morte!

Não Isaías. Você não ousou olhar para Deus. Ele se revelou a você. E a visitação do Senhor não amaldiçoa. Ela traz benção, alegria e paz. Foi Ele quem nos escolheu, jamais o contrário. Deus parou de frente a vitrine, observou todos os detalhes. Identificou cada trinca, ranhura e defeito. E mesmo assim, me escolheu. Escolheu você. O pacote completo, contendo virtudes e imperfeiçoes. E se eu confio que Deus sempre sabe o que faz, devo confiar também em suas escolhas, e me lembrar diariamente que sou uma delas. Não apenas um item de coleção. Primeiro, “Criatura”. Depois, “Servo”. Mais tarde, “Amigo”. Agora, “Filho”.

Mesmo assim, o Rei da Glória não deseja que nos sintamos coagidos e desconfortáveis em sua presença, onde impera a liberdade reverente. Ele fará o for necessário para que fiquemos “a vontade”. Então, muito cuidado com o que se pensa, critérios bem estabelecidos para o que deseja e prudência com tudo o que fala. Deus deseja dar os fins que o nosso coração almeja, e isso nem sempre é tão bom como imaginamos.

Geralmente, nossos argumentos (habilmente esculpidos com palavras rebuscadas e conceitos pessoais bem definidos) são como “Castelos de Cartas” na rota de um furacão. Serão dispersados por Deus como a neblina que ousa flertar com a ventania. O Senhor derruba (e derriba) nossos conceitos, porque seu entendimento supera a junção de todo saber humano. Nossas debilidades são ferramentas de poder em suas mãos poderosas. Nossas fraquezas se tornam fonte de força através de sua misericórdia inesgotável.  Para Deus, este processo consiste apenas em soprar as cinzas que estão no Altar, já para nós, é como segurar brasas acessas com as mãos desnudas.

Próximo ao Trono, havia um Altar reluzente, cujo braseiro fumegava.  Um dos Serafins se aproximou cautelosamente das chamas, tomou nas mãos uma tenaz, e com ela, removeu uma brasa incandescente. Depois, voou na direção de Isaías, e sem maiores avisos, encostou a brasa nos lábios do profeta. Chiiiiiiiiiii! O cheiro de carne queimada impregnou o ar.

A movimentação do anjo é um mero detalhe, já que ele é apenas um mensageiro do Senhor. É a ordenança divina que conta. Deus sabe como inutilizar nossas desculpas e desmotivar os medos que nos travam, por maiores que sejam. Se o argumento de Isaías era a impureza de seus lábios, o contra-argumento do Senhor foi a purificação. Dói, mas resolve. A cauterização é uma técnica que Deus usa rotineiramente. Se uma cicatriz traz a cura definitiva, porque se conformar com feridas abertas eternamente? Deus não se conforma. Ele age quando deseja e reage quando lhe convém.

Assim que Isaías sentiu o ardor nos lábios, ouviu a voz que lhe retirou as dores da alma e o peso que esmagava seus ombros: - Com o toque desta brasa, a tua iniquidade foi tirada, e todo o teu pecado deixou de existir...

A menor das experiências pessoais que temos com Deus, já é por si só, transformadora. Basta um toque para que a mudança aconteça de dentro para fora. Agora, Isaías não tinha argumentos para refutar a vontade de Deus ou procrastinar a plenitude de seu ministério pessoal. Ele estava limpo. Perdoado. Avalizado. O Castelo de Palavras tinha se espatifado pelo sopro divino, sem a menor possibilidade de reconstrução. – A quem eu posso enviarei? Quem será o meu representante na Terra? – Bradou a voz daquele que estava assentado sobre o Trono. O profeta sentiu o senso de urgência percorrer suas veias. O calor que se concentrava apenas nos lábios irradiou-se por todo o corpo, aquecendo o coração ao ponto de fervura. Um novo Isaías imergiu das cinzas. Renasceu entre as brasas.

- Estou aqui! Pode me enviar! Não importa qual a mensagem, e a quem terei que falar... Eu vou! 

Ainda hoje, o Senhor está contando com seus embaixadores neste mundo. Homens e mulheres que transmitam sua mensagem numa terra onde Deus tem se tornado apenas uma silhueta no retrovisor. E você (gostando ou não), está na lista dos aprovados pelo RH celeste. O trabalho já é teu, mesmo que não se sinto preparado, apto ou digno para tão grandioso serviço.

A escolha não foi feita baseada em seus critérios. Muito menos, nos meus. Deus não lida bem com cartas de renúncia ou recusa de propostas. E Ele sabe ser convincente. A desistência não é uma opção para o Senhor. Então, caso esteja tentado a declinar da oferta de trabalho (ou seria convocação?), esteja preparado para uma conversa ao pé do ouvido. Reunião as portas fechadas no último andar do edifício. Uma experiência única, definitiva e transformadora. Que pode sim, ser um “pouco desagradável”, caso os argumentos trazidos à pauta não surtam nos ouvidos de Deus, o mesmo efeito que palavras balbuciadas por lábios trêmulos, causam na alma do homem.

Então, ao invés de perdermos tempo com retórica desnecessária, sintaxe redundante e gramática ineficaz, talvez seja melhor resumir nossos conceitos, opiniões pessoais, achismos, medos, anseios, incertezas, e a famigerada justiça própria, numa única frase: - Eis-me aqui, envia-me a mim!

Como pai, eu não desmereci o argumento do meu filho. Ele tinha razão no que falava. A água do mundo está cada vez mais escassa e precisamos urgentemente investir numa rotina de economia consciente. Todos, inclusive, o Nicolas. Sua verborragia eloquente atingiu o objetivo. Meus banhos ficaram mais curtos. E os dele também. Contra-argumento a um bom argumento. Isaías, também argumentou com propriedade. O pecado é uma trava impedindo ao homem de servir a Deus. A boca maledicente não serve ao Senhor, pois já está escravizada pelo próprio Satanás. Então, Deus expulsou a “serpente” usando o fogo, e como efeito colateral à ação divina, Isaías se queimou... e lá se foi o profeta, falando “fofo” e doloridamente, por muitos dias. Mas, anunciando a mensagem que lhe foi confiada

Particularmente, eu acho (apenas acho), que é mais vantajoso servir ao Senhor de “bico fechado”, do que com o “bico queimado”.  Então, como já bem disse meu patrão, “mais trabalho e menos conversa!”


(Livremente inspirado nos textos de Isaías 1 e 6)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

O Final e o Começo

Eis um teste para saber se você terminou sua missão na Terra:
Se você está vivo, não terminou.
(Richard Bach)


Qual a diferença entre finais e começos?

Esta indagação pode até soar estapafúrdia quando analisada sob a perspectiva da finitude humana. Mas, faz todo o sentido no contexto da eternidade onde Deus habita. É o Senhor que delimita o tempo, para depois invertê-lo ao avesso, e transformar “inícios” em “finais”, ou vice-versa. Ele é o Ancião de Dias. O Primeiro e o Derradeiro. O Princípio e o Fim. O Alfa e o Ômega. Soberano de “A” até “Z”. Deus está sempre reescrevendo sem precisar reescrever. Recontando histórias que já estão contadas antes mesmo do mundo existir. Escolhas realizadas pela presciência daquele que tudo sabe, tudo pode e tudo vê.

Nós, por outro lado, nada sabemos, pouco podemos e mal enxergamos. Vivemos em uma realidade de começos e finais bem delineados, e temos imensa dificuldades para compreender o inexplicável. Exatamente por isso, Deus usa o tempo (e suas inversões) para nos ensinar a depender e confiar em sua sabedoria. Confuso? É claro que não. A Bíblia está repleta de exemplos práticos desta sistemática, assim como provavelmente, sua vida também esteja.

Em muitos sermões que ouvimos (e outros tantos que pregamos), a travessia do Mar Vermelho é o “final feliz” para uma grande história de aventura, ação e mistérios. Assim que chegaram a margem oposta, e as águas sepultaram a armada egípcia definitivamente, os israelitas promoveram uma grande festa de júbilo e celebração. E tinham motivos para isso. Poucas horas antes, seus corações estavam tomados pelo medo, enquanto se viam encurralados em Pi Hairote, impotentes diante do oceano, e indefesos contra o exército de Faraó. Sem perspectivas ou esperanças. 

Mas, agora, o mar era um obstáculo vencido e as ondas traziam para a praia, os corpos desfalecidos dos egípcios, que a esta altura, já não apresentavam perigo algum. Deus havia somado duas situações impossíveis, e como resultado, entregado ao seu povo uma possibilidade. Vida. Futuro. Páginas em branco à serem preenchidas nos próximos séculos. Haviam sim motivos para comemorar. Este é, com certeza, um momento épico que fecharia com chave de ouro a mais apoteótica das produções cinematográficas. - Pode subir os créditos, que o filme teve um final à altura de sua grandiosidade!

O que Israel ainda não sabia, é que aquele era apenas o primeiro passo de uma jornada longa e extremamente difícil, que se estenderia por, pelo menos, quatro décadas. Para chegar até ali, eles tiveram que confiar no socorro divino e atravessar a pé, muitos metros por entre as águas espumantes. Agora, haveriam centenas de quilômetros sobre a areia escaldante do deserto, e o segredo da sobrevivência para o “Bichinho de Jacó”, passava primeiro pela total dependência da provisão (sempre presente) do Deus de Abraão.

Israel estava prestes a descobrir os mesmos ciclos que vivemos em nossa caminhada cristã. Vitórias que edificam. Derrotas que ensinam.  O Egito opressor daria lugar a dezenas de povos bárbaros e nações agressivas, estrategicamente localizadas entre os israelitas e a terra da promessa. Tudo até ali, era na verdade, uma preparação para coisas ainda maiores. Batalhas mais acirradas. Momentos de imensa tensão, jamais vividos pelos descendentes de Isaque.

A verdade é que, antes do mar, todo trabalho foi feito apenas por Deus, e os hebreus assistiram ao próprio livramento de camarote. Foi o Senhor quem escolheu e preparou Moisés, e também quem enviou as pragas sobre o Egito. Foram as mãos do GRANDE EU SOU que abriram as águas e decretaram a ruína do exército inimigo. Deus lidou com a libertação de seu povo, como se fosse uma questão de honra pessoal. E era. Promessas estavam sendo cumpridas. Pactos honrados. O concerto perpetuo renovado mais uma vez. Deus estendeu o braço forte, desembainhou sua espada de corte afiado, e lutou bravamente pelos hebreus, enquanto seu povo apenas aguardava o momento da vitória (Êxodo 14:10-20). 

Mas, o deserto lhes reservava suas próprias batalhas. E Israel precisava estar pronto para isso. O livramento miraculoso, a escapada maravilhosa e a celebração incontida, eram provas valiosas e inquestionáveis do comprometimento de Deus com seus escolhidos. Porém, não lhes garantia imunidade contra dias de angústia e provações intensas. Mero detalhe. É se lembrando de quem Deus “É”, e de tudo que Ele “JÁ NOS FEZ”, que podemos caminhar destemidos na direção de um futuro nebuloso. O histórico de provisões e livramentos no passado, nos assegura a presença de Deus no amanhã. E sua intervenção miraculosa. Por piores que sejam as condições agendadas, temos agora uma garantia para a eternidade: “ELE FARÁ”.

Para entenderemos este mecanismo usado por Deus (afim de aperfeiçoar seu povo), podemos olhar alguns séculos a frente e fecharmos o foco em um único homem chamado Davi. Mesmo após ser ungido rei de Israel ele retornou ao ostracismo das pastagens e continuou apascentando as ovelhas de seu pai (I Samuel 16:12-13). Porém, foi dado o “start” de seu treinamento.

O primeiro teste foi enfrentar um leão. Davi venceu a fera e ganhou experiência para lidar com um adversário bem maior, “a ursa”. Foram estas batalhas individuais travadas no anonimato que credenciaram Davi como o representante da nação contra o gigante Golias (I Samuel 17:33-51). Mas, se você acha que enfrentar o filisteu de proporções avantajadas seria o derradeiro desafio do belemita, está equivocado. Pouco tempo depois, Davi se viu perseguido por um exército inteiro, liderados por um ensandecido Saul que desejava ardentemente exterminá-lo (I Samuel 23:8). Apenas passados todos os estágios, é que finalmente Davi ascendeu ao trono de Israel, mais forte e preparado do que nunca. E apto a enfrentar seu mais perigoso adversário. Ele mesmo.

Voltemos os hebreus...

No deserto Deus cuidaria do seu povo como sempre fez, provendo, intervindo, ensinando e corrigindo. A diferença é, que agora, eles precisariam se mover, caminhar com as próprias pernas, enfrentar um desafio se preparando para o próximo. Somente assim estariam devidamente capacitados para a retomada de Canaã. Deus trabalha por nós quando mais precisamos, porém, trabalha em nós, quando julga necessário.

Pense em Deus como um pai que está ensinando seu filho a andar de bicicleta. Ele está do lado, amparando, escoltando e sustentando. O filho se sente confiante, e nem percebe que pouco a pouco está se equilibrando sozinho, dando suas próprias pedaladas rumo ao desconhecido. Mas, como tudo é novo, o aprendizado reserva algumas dificuldades e reprovas. Os primeiros passos sempre se intercalam com quedas doloridas. Exatamente por isso, o pai se mantem caminhando ao lado do filho, observando atentamente, pronto a agir caso a queda seja inevitável. Sim, Deus está ali para levantar qualquer filho que perca o equilíbrio e abrace o chão. E pacientemente repetirá este processo quantas vezes forem necessárias.

O Senhor testemunha este cuidar paternal e presente em Oséias 11:1-4: 

Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho. Mas, como os chamavam, assim se iam da sua face; sacrificavam a baalins, e queimavam incenso às imagens de escultura. Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomando-os pelos seus braços, mas não entenderam que eu os curava. Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor, e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e lhes dei mantimento.  

Ali, as margens do Mar Vermelho, Israel deixou de engatinhar e começou a dar seus primeiros passos. Um fim e um começo. Um começo e um fim. Eles nunca deixaram de ser amparados pelo Senhor, e orientados por Moisés, um líder previamente escolhido e que já acumulava mais de 700.800 horas na escola preparatória de Deus. O período letivo estava inaugurado para descendência abraâmica. O problema, é que nem todos estavam interessados em aprender, e a inaptidão decorrente da ignorância desejada, foi a lápide que cerrou o túmulo de uma geração inteira.

O fim?  

Nada disto! 

Apenas o começo.

Que ao contrário destes muitos hebreus, tenhamos a humildade de sermos alunos aplicados e filhos obedientes. Neste caso, o deserto será somente uma ponte, ligando a livramento do mar, com o descanso permanente em Canaã. Alfa e Ômega se fundindo do Princípio ao Fim. O começo de um novo começo.