Arquivo do blog

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Mantenha a porta fechada!


A força de vontade dos fracos chama-se teimosia.
(Marie Von Ebner-Eschenbach)


Existe uma grande diferença entre “perseverança” e “teimosia”. O teimoso é apegado as suas convicções pessoais de forma tão enraizada, que não aceita opiniões e argumentos externos (ainda que venham dos céus), mesmo ciente que está visivelmente errado. Já o perseverante, não desiste de seus objetivos, mantendo em equilíbrio ações e pensamentos, o que lhe permite uma visão mais abrangente sobre os obstáculos do caminho, e consequentemente, maior facilidade para encontrar maneiras de contorná-los, seja sozinho ou com a ajuda de alguém. Enquanto o teimoso tropeça em seu próprio ego, o perseverante entende que a teimosia é uma pedra interditando a estrada, e tem a humildade de retirá-la de seu caminho.

A perseverança caminha amparada pela fé, enquanto a teimosia saltita pelos valados, alheia a tudo e todos. Auto-suficiente em vida, a tendência é que na morte, ela esteja sempre sozinha.

Toda vez que leio o texto de Mateus 7:7, me vejo as voltas com a mesma indagação. Em minhas preces, petições e anseios, como tem sido meu comportamento? Qual combustível impulsiona o motor de minhas crenças, esperanças e afirmações? Perseverança consciente e amadurecida ou teimosia débil, demagógica, inconsequente e pueril?

Neste texto supracitado, Jesus estava censurando os hipócritas de plantão. O Mestre se mostrava indignado com as atitudes incongruentes daqueles que criticavam as pequenas falhas de seus irmãos, enquanto falhavam miseravelmente em suas próprias atitudes. Cristo também exortou seus ouvintes sobre o perigo da banalização daquilo que é santo: -  Não joguem aos cães aquilo que é sagrado. Eles devorariam até mesmo as mãos que os alimentou. Não atirem pérolas aos porcos. Elas serão pisadas, esmagadas e as preciosas migalhas desaparecerão na sujeira. Duras palavras. Ensinamento cirúrgico. Exortação pungente. E foi neste exato ponto do sermão, que ecoou dos lábios de Jesus os versos que, ainda hoje, tão agradavelmente ressoam aos nossos ouvidos:

Peçam, e vós será dado!
Busquem, e encontrarão!
Batam, e a porta lhes será aberta.
Quem pede, recebe!
Quem busca, encontra!
Quem bate na porta, é atendido!
(Mateus 7:7-8)

Em suas ministrações, Jesus Cristo entregou respostas definitivas para questões eternas. Apontou o Caminho. Revelou a Verdade. Apresentou a Vida. Mesmo fazendo uso desta abordagem direta em seus ensinamentos, Ele nunca privou seus seguidores das interpretações pessoais. A essência da mensagem nunca deixou de ser prática e objetiva, mas a forma como era ministrada, abria um leque de perspectiva aos ouvintes. Jesus nos ensinou a pensar, analisar, meditar e refletir. O cristianismo não nasceu para ser uma “religião” de comida enlatada. A Palavra se renova diariamente. Alimento fresco todo dia e com temperos variados, sem perder o sabor original. Sempre há algo novo a se descobrir incrustado em verdades descortinadas dois milênios atrás. Basta não ter preguiça de ponderar.

Certa vez, Jesus foi questionado por seus discípulos sobre era a sua real identidade. Havia muitas teorias circulando entre o povo: - Senhor... Uns dizem que você é Elias... Outros dizem que você é Moisés... Quem você é de verdade? - Jesus não entregou uma resposta pragmática. Apenas lhes deu indícios. Cegos descrevendo as cores do Arco Iris. Aleijados saltando pelas ruas da Galileia. Leprosos almoçando com seus familiares. Mães enlutadas brincado de “amarelinha” com seus filhos moribundos. E, então, devolveu a pergunta: - Quem “vocês” dizem que eu sou? - Os discípulos tiveram que pensar. Analisar. Refletir. Entender a mensagem coletiva e chegar a uma conclusão pessoal: - Você é o Cristo! O Filho de Deus!

E é fazendo este exercício de reflexão tão estimulado por Jesus, que me visualizo diante da porta pela qual pretendo desesperadamente passar. Ela está fechada. Eu toco a campainha e ninguém atende. Insisto, e as trancas continuam cerradas. Respiro fundo, e bato na porta de madeira. O som oco das batidas secas, logo é engolido pelo silêncio. Nova lufada de ar. Irritabilidade. As mãos aceleradas esmurram a porta com violência. Nada acontece! Então, eu abro a minha Bíblia e leio em voz alta, o texto sublinhado de amarelo: - Peça, e receberás. Procure, e então encontrarás. Bata, e a porta se abrirá. -  Ali, diante da porta fechada, faço chantagem emocional com Deus. Questiono a veracidade de sua Palavra. Movido exclusivamente pela minha “enorme” insistência, o Senhor atende o meu pedido. Permite que a porta seja aberta. Somente nesta hora, é que de fato, eu vou ter plena ciência “do que” (ou quem) “estava” trancafiado neste quarto selado. Deus, por outro lado, sempre soube da verdade. Por isso mantinha os acessos lacrados. A porta aberta é uma via de mão dupla. Quem está fora entra, e quem está dentro sai. E o monstro trancado no sótão, acabou de ganhar um passe livre, e também poderá andar por todos os cômodos, devorar os moradores da casa, começando exatamente, por mim, que sou o mais próximo da porta escancarada. E foi a minha insistência que forçou sua abertura.

E aqui estamos nós, diante de um dilema moral (e espiritual).

Qual é a linha que delimita as fronteiras?
Onde a persistência termina e a teimosia tem seu gêneses?   

Antes de gritarmos com Deus exigindo mimos e galanteios, reverberando o texto de Mateus 7:7-8 como se fosse um mantra que condiciona o Senhor a uma posição subserviente, lembre-se que nos versos seguintes, Jesus faz uma observação muito relevante. Talvez, o ponto chave do ensinamento: -  Até mesmo um “homem dotado de maldade” é criterioso na hora de atender os desejos de sua cria. Imagine, então, o cuidado de Deus para com a vida de seus filhos (Mateus 7:9-10). 

O amor verdadeiro é incondicional, mas nunca é irresponsável. Lembro-me quando meu filho Nicolas pediu um “leão” de presente em seu aniversário. Não o bichinho de pelúcia, um “leião” de verdade (sim, a pronuncia era exatamente esta – “leião”).  Ele queria um “Simba” para chamar de “seu”. Eu poderia passar horas listando os motivos pelos quais jamais poderia atender este pedido, e mesmo assim, no auge de seus três anos, o Nicolas não iria compreender nenhum deles. Estava convicto que ter um “leião” seria a melhor coisa da sua vida. Como pai, eu disse “NÃO”. Conheço a “Bela” e a “Fera”. Sei que o mais mansinho dos leões tem o potencial para arrancar o braço de um homem adulto com apenas uma dentada. Jamais vou dar um deles de presente para o meu filho. Nem se pudesse. Deus também é assim. Ele sabe a nocividade escondida em desejos singelos, e nos nega “privilégios” que trazem em seu bojo o caos, destruição e morte. Mesmo tendo o poder para conceder todos os desejos que eclodem de nossos corações.

Segundo o texto de Jeremias 29:11, o Senhor jamais irá intentar o mal contra seus filhos. Ele nos ama, e deseja que sejamos plenos de felicidade. Deus tem pensamentos de paz sobre nós. E planos para nos conduzir a um “final feliz” que não tenha fim. E como todo pai sabe muito bem, isso implica em educar com austeridade, direcionar passos inconformados e cercear liberdades perniciosas. O amor responsável sabe dizer “NÃO”, mesmo quando quem lhe é amado, implora copiosamente por um “SIM”.

Deus faz a sua parte visando a minha (e a sua) segurança. Fazemos a nossa? Diante das negativas divinas, temos sido perseverante ao propósito ou teimosos nas ambições?

A perseverança é amiga da fé. Contam segredos entre si. Dormem na mesma cama com total liberdade. Elas se entendem mesmo que palavras não sejam ditas. A fé se regozija quando Deus diz SIM, mas, aceita de bom grado quando a resposta é NÃO. Por sua vez, a perseverança sabe ouvir conselhos. Compreende os sinais. Por isso mesmo, deixa de bater em certas portas, mesmo sem nunca interromper sua busca. Existem centenas de oportunidades esperando para serem aproveitadas. Milhares de portas esperando para serem abertas. Não há motivos para insistirmos exatamente nas que nunca deveriam se abrir.

E aqui, vejo uma mensagem de alerta num texto onde a maioria só enxerga promessas de prosperidade e sucesso. Quando você insiste em bater numa determinada porta, ela vai, de fato, se abrir. E isto, nem sempre é bom. Tiago 4:1-7 nos acautela sobre a deficiência de nossas petições. Não sabemos “o que pedir” e nem “como pedir”. Pedimos mal e pedimos errado. E quem pede, recebe. Procuramos coisas (e pessoas) que Deus tem mantido fora de nossa vista. Mesmo assim, insistimos na busca. Procuramos pelo em ovo. Chifre na cabeça de cavalo. As pernas da serpente. A agulha do pecado num palheiro de santificação. Quem busca, encontra.

Quando era criança, eu e meus irmãos gostávamos de uma boa traquinagem (graças a Deus por isso, éramos crianças sadias e normais). Nos dias mais espevitados, quando extrapolávamos certos “limites”, minha mãe (de sangue italiano e paciência moderada), mordia o dedo indicador da mão direita, estalava os olhos e “ronronava” entre os dentes - Hoje vocês estão procurando.... É já que vão achar- Até que por fim, achávamos. E acredite, a descoberta não era nada agradável.  A grande verdade, é que nem toda espera é recompensadora e nem toda busca é gratificante.

Sou de uma geração que se arrepiou ouvindo a lenda da “Maldição do Faraó”. Histórias aterrorizantes sobre homens de má sorte que cruzaram as fronteiras do etéreo e despertaram a ira dos “antigos espíritos do mal”. Hoje se sabe, que muitos saqueadores e arqueólogos, ao violarem criptas, tumbas e sarcófagos escondidos por milhares de anos, embora procurassem apenas riquezas ou fama, encontraram fungos, bactérias e infecções mortais. Foram consumidos não pela ira de Tutancâmon ou Miquerinos, mas sim, pelas próprias ambições. Encontraram o que procuravam, e no fim do Arco Iris, ao invés do pote de ouro, só havia morte.

A grande questão não é o que “pensamos” estar procurando, mas sim, “onde estamos procurando” e o que vamos “realmente encontrar”. E novamente ouço a voz metódica e amável de Jesus em meus ouvidos: - Cuidado com o que você procura, pois quem insiste na busca, sempre acabará encontrando “algo” ou “alguém”. A benção e a maldição estão sempre a uma esquina de diferença. Basta um passo errado na direção incorreta para que o ciclo devastador tenha início, meio e fim.  A perseverança não desiste da caminhada, mas tem a humildade de corrigir a rota sempre que for necessário. Ela não rasga as faixas de segurança que Deus coloca na estrada, impedindo a passagem. A teimosia, por sua vez, não aceita limites estabelecidos por outros. Nem mesmo se o “outro” for o próprio Deus.

Podemos dizer que a perseverança é filha da obediência. E honra sua mãe. Se Deus manda seguir, seguimos. Se a ordem é parar, paramos. Estar debaixo da vontade de Deus é caminhar sempre em frente, mesmo que os pés não se movam do lugar. Caso contrário, fora dos propósitos divinos, podemos caminhar mil quilômetros rumo ao horizonte, e mesmo assim, estaremos andando sempre para trás. Aprenda esta lição com o rei Ezequias.

Ele estava no auge de seu reinado. Deus tinha concedido aos judeus uma vitória miraculosa sobre o poderoso exército da Assíria, onde o invencível Senaqueribe havia conhecido sua primeira (e única) derrota militar. Judá estava em paz. O Templo do Senhor resplandecia em glória. Uma reforma espiritual estava em andamento, e a idolatria, pouco a pouco, ia sendo expurgada das praças, das casas e dos corações. Deus, então, enviou o profeta Isaías com uma mensagem desagradável ao rei: - Ponha sua casa em ordem, porque em poucos dias, você irá morrer! (II Reis 20:1)

Deus estava fechando uma porta para Ezequias. E ele sairia de cena recoberto de honras e méritos. Penduraria as chuteiras ganhando a “Bola de Ouro”. Certamente seria lembrado entre os três maiores reis da história de Israel, e não apenas de Judá. A vontade de Deus estava revelada. E o que Ezequias fez quando ouviu o barulho da chave girando dentro da fechadura? Ele esmurrou a porta. Gritou do lado de fora. Apresentou ao Senhor seus feitos mais memoráveis. Fez das lágrimas, seu artifício de negociação. Pela insistência de Ezequias, Deus não trancou as portas definitivamente. O Senhor concedeu ao rei mais quinze anos de vida. Vontade Permissiva. Deus não quer, mas, pela minha persistência (que não é perseverança), permite que seja conforme o meu desejo. Eu bato, a porta abre. Deveria ficar trancada. Eu busco, e encontro. Deveria permanecer escondido. Eu peço, e recebo. Deveria ficar ausente. Deus me alerta sobre os perigos, e eu assumo o risco. Estultícia pura e destilada.

Em 2016, fiquei desempregado por alguns meses. Na verdade, meses demais. Deus cuidou de minha família durante toda a “estiagem”, e nada nos faltou. Mas, eu queria desesperadamente ver as portas abertas com meus próprios olhos. Estava cansado de promessas e queria me apoiar em algo tangível.  Num domingo, após o culto, cheguei em casa indignado com minha situação (tinha ouvida uma mensagem sobre o poder da determinação e blá, blá, blá). Então, no centro da sala, olhei para os céus, ergui minha voz e esmurrei a porta: - Deus, eu exijo que ainda esta semana, você me abra uma porta de emprego. Tem que ser esta semana, me ouviu? Minha esposa que assistiu à cena com um sorriso irônico no rosto, profetizou de olho aberto: - Deus vai te abrir uma porta de emprego terrível, só para você deixar de ser besta! Dito e feito. Na segunda feira, me ligaram dando a dica de uma empresa que estava contratando. Levei meu curriculum, fiz a entrevista, passei pelos exames e comecei a trabalhar na quarta-feira. E na segunda feira seguinte, não tinha condições psicológicas para voltar mais. Foi a pior experiência profissional que tive na vida. Tudo porque fui teimoso, quando deveria ter sido perseverante.

Guardadas as devidas proporções, Ezequias também agiu assim. Viveu além do estabelecido pela sabedoria divina. Seus últimos quinze anos de vida foram marcados por erros catastróficos. Crassos. Ele recebeu os caldeus em Jerusalém, e praticamente entregou a chave da cidade nas mãos do seu mais perigoso inimigo. Os visitantes eram espiões militares da Babilônia, que alguns anos depois, fazendo uso das informações ofertadas pelo rei, sitiaram Jerusalém, subjugaram Judá e levaram milhares de judeus ao exílio. Em sua “hora extra” na terra, Ezequias teve mais um filho, ao qual chamou de Manassés. O mesmo que aos doze anos de idade assumiu o trono de seu pai, e cuidou de mergulhar o reino numa nova era de trevas, imoralidades e idolatria sem precedentes. A biografia deste perverso monarca se resume numa única frase: - Cometeu sozinho mais iniquidades que todos os seus antepassados juntos. - Manassés se quer chegaria a existir, se Ezequias não insistisse na reabertura de uma porta que já estava fechada.

Não. Este texto não é uma apologia à desistência e nem um ode à mediocridade. É um incentivo à perseverança inteligente, que passa longe da teimosia rotineira de nossas crenças banalizadas. Jogamos pérolas no chiqueiro, e nos sujamos tentando encontrá-las depois. Podíamos muito bem mantê-las guardadas na embalagem que foi feita especialmente para abrigá-las com segurança: - O coração do homem.

Jesus continuou seu ensinamento explicando que o caminho para o paraíso é estreito, espinhoso e pouco movimentado. Que as portas dos céus são pequenas demais para atrair a atenção das grandes massas, tornando a entrada na Nova Jerusalém num desafio grandioso até mesmo para os mais hábeis contorcionistas. E é por esta porta que devemos entrar. Esta é a campainha a ser tocada. Mas, para as portas dos céus se abrirem, milhares de outras precisam estar fechadas. Escolha. Abnegação. Renúncia. A passagem pela porta estreita só é possível com uma vida dedicada ao Senhor, perseverante e fiel. O evangelho não é self-service, fast-food ou Uber, onde as bênçãos estão a nossa disposição, como se Cristo fosse um Gênio da Lâmpada obrigado a satisfazer os caprichos de seu amo.

Não se deixe enganar pela facilidade de algumas portas abertas sem muito esforço. Ou das que se abrem após um sessão interminável de pancadas e gritarias.  Nem se vislumbre com desejos realizados. O contexto de portas abertas e descobertas maravilhosas, abrange caminhos largos que conduzem a perdição. Fala também de árvores frutíferas que serão cortadas e lançadas ao fogo, já que a qualidade de seus frutos é péssima. E não se esqueça daqueles que clamam “Senhor! Senhor!”. Eles expulsam demônios e curam enfermos. Profetizam e interpretam as línguas. Mas, não conhecem verdadeiramente à Deus e nem por Ele são conhecidos. Terão o mesmo destino das árvores enganosas. 

O teimoso constrói sua casa na areia da praia, porque está vislumbrado com a beleza da vista. A chuva cai, e leva a frágil estrutura embora. O perseverante edifica sua casa sobre a rocha, pois se preocupada com a longevidade da fundação, mesmo que tenha gaivotas barulhentas como vizinhas. Os ventos sopram e a casa permanece de pé. Portas abertas ou não.

Davi mandou fazer uma chave mestra, que abria todas as portas do palácio em Jerusalém. Apenas os reis eram detentores desta chave, e a confiavam aos seus servos mais honrados. Quando João foi arrebatado aos céus, teve uma visão do Jesus ressurreto que o deixou sem forças para ficar em pé. Prostrado e quase desfalecido, ele contemplou de soslaio, a face resplandecente de Cristo. Cabelos tão brancos quanto a mais branca lã, rosto reluzente como latão polido e olhar intenso feito chamas de fogo. Tudo Ele via. Tudo Ele sabia.

Você não confiaria sua vida a um ser tão onipotente quanto amável?
Não deixaria que Ele lhe dissesse por onde você deveria ir?
Não deixaria Ele escolher as portas a serem abertas?

Então, este Deus Maravilhoso, o Verbo Encarnado revestido de Glória, se revelou a João (e a nós) de maneiras surpreendentes e poderosas. O Alfa e Ômega. O Princípio e O Fim. A Estrela da Manhã. Aquele que caminha entre os castiçais de ouro. Ancião de Dias. Quem tem na mão direita as sete estrelas. O Fiel e Verdadeiro... São tantas atribuições que passaria horas a fio transcrevendo cada uma delas. Por isso, vou me atentar apenas a uma. Aquela que fecha o ciclo de nossas buscas e abre um mundo de possibilidades a todos que forem fiéis até o fim. Perseverantes na provação. Ouça a “voz de muitas águas” reverberando pelo infinito:

- Eu tenho em minhas mãos a Chave de Davi. A porta que eu abro, ninguém fecha. A porta que eu fecho, ninguém abre (Apocalipse 3:7). - E que a teimosia chegue ao fim!


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A Guerra dos Egos


Prefiro ser criticado por pregar a união a ser elogiado por semear a discórdia.
(Itamar Esperanto)


Há alguns anos atrás, mais precisamente em junho de 2012, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografias e Estatísticas) divulgou os dados de um censo demográfico, que levou a comunidade evangélica do país ao frenesi. O número de brasileiros que se declaravam “evangélicos”   tivera um crescimento astronômico de 62% em apenas dez anos. Que revelação abençoada! Finalmente uma instituição secular vaticinava oficialmente a tendência que já era sentida dentro dos templos. A maior nação católica do mundo estava se tornando evangélica.

E esta, é uma longa história...

O primeiro culto evangélico realizado no Brasil aconteceu em 10 de março de 1557, três dias depois da chegada de missionários franceses enviados ao país por João Calvino. Em 1630, foi inaugurada a primeira igreja evangélica em terras tupiniquins, filiada à Igreja Reformada Holandesa. Depois vieram os anglicanos, os luteranos, os metodistas, e em 1858, inaugurou-se a Igreja Evangélica Fluminense, a primeira no país no estilo congregacional.  Os próximos a se estabelecerem no Brasil foram os presbiterianos, os batistas e os adventistas. Estas “novas” denominações são historicamente fundamentais para o crescimento do protestantismo brasileiro, já que investiram pesado em educação cristã e criaram os primeiros periódicos nacionais da “imprensa evangélica”.

Em 1911, foi inaugurada a primeira igreja pentecostal do Brasil, chamada inicialmente de Missão da Fé Apostólica, que mais tarde viria a se chamar Assembleia de Deus. Outras grandes denominações do gênero se estabeleceram nos anos seguintes. Igreja de Cristo Pentecostal no Brasil (1937). Igreja do Evangelho Quadrangular (1951). Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962). A partir de 1977, com a fundação da Igreja Universal, deu-se início a um movimento chamado “neo-pentecostalismo” (ou pentecostalismo moderno), cujos maiores expoentes são a Igreja Internacional da Graça (1980) e a Igreja Apostólica Renascer em Cristo (1986). Mais recentemente, as comunidades evangélicas também se mostraram um segmento bastante atrativo para novos crentes (Sara Nossa Terra, Projeto Vida, Fonte da Vida, Igreja Mundial do Poder de Deus, Bola de Neve Church, Plenitude do Trono de Deus, entre outras).

Calcula-se que hoje, a cada quatro brasileiros, um é declaradamente evangélico. E as projeções mais otimistas indicam que até 2022, metade da população brasileira será protestante. O segredo para este crescimento estratosférico, passa pela variedade de interpretações teológicas e ideologias diversas que se adequam aos anseios de cada indivíduo. Prosperidade, cura da alma, libertação espiritual, aprofundamento teológico, liberdade de expressão, dogmas, rigidez doutrinária... Independentemente do que você procura em uma igreja, alguma denominação sempre terá um “pacote” que se adeque as suas expectativas. Se isto e “bom” ou “ruim”, não cabe a mim fazer qualquer julgamento. Jesus nos ensinou que não se deve interferir na lavoura, pois ainda não estamos aptos a discernir "o joio do trigo”. No tempo da sega, os anjos se encarregaram do controle de qualidade. (Mateus 13:24.30)

Surpreendentemente, mesmo com tamanha variedade de denominações eclesiásticas, gêneros litúrgicos e estilos teológicos, um fenômeno moderno tem causado apreensão nos líderes cristãos. O crescimento exponencial do efeito MSI - “Movimento dos sem igreja” – Este grupo “não articulado”, e sem lideranças estabelecidas, é formado por antigos adeptos de diferentes denominações, que optam por servir ao Senhor sem participar de nenhuma comunidade eclesiástica, cultuando apenas em casa, ou em pequenos grupos familiares. Com isso, desvinculam-se completamente de qualquer igreja.

A grande maioria dos adeptos deste movimento alegam decepção com as instituições evangélicas e seus líderes, além de discordaram com os rumos tomados pelo “evangelho moderno”.  É claro que o movimento desperta críticas severas à sua ideologia “segregadora”, já que historicamente, o cristianismo tem sido praticado em comunidade. Afinal, a “IGREJA” é identificada nas escrituras como sendo o “Corpo de Cristo”, e qualquer “membro” fora do corpo, estaria fadado a aniquilação (I Coríntios 12:27).

Particularmente, eu não sou um “sem igreja”. Tenho bases bem estabelecidas e estou sujeito a uma autoridade eclesiástica hierárquica. Mas, entendo muito bem esta decepção coletiva que se espalha como um câncer nas entranhas dos nichos evangélicos. Tem muita coisa errada acontecendo. A fé se tornou moeda de troca. O ego humano esconde a simplicidade do evangelho em um cofre com trancas codificadas. As “comissões” e “intervenções” estabelecidas pelas grandes catedrais, tem apenas o objetivo de analisar os resultados bancários de suas afiliadas, e pouco se importam com as pessoas. Igreja se tornou “empresa multinacional”, onde se quer temos nome. Somos apenas um número segmentado que produz algum “conteúdo” para a organização, sendo facilmente descartado (ou trocado) quando a rentabilidade é ineficiente. Uma instituição religiosa, financeira, política, e se sobrar tempo, espiritual.

Igreja se tornou “sistema”. Engrenagens rodando. E a devoção de seus fiéis, é o lubrificante que faz a máquina girar. Existe ou não, motivos para tamanha debandada? É difícil se manter impassível diante de tanto descaso com alma humana. O resultado desta inversão de valores é o aumento diário nos números de “placas denominacionais” que são fincadas em cada esquina. Homens e mulheres que para escapar de um “sistema”, criam seu próprio “sistema”, ainda mais corrompido e pernicioso. O Reino de Deus na terra  se transformou numa arena de egos, onde vence o último a ficar de pé. Ao invés de lutarmos lado a lado por uma causa maior, lutamos uns contra os outros, sem aceitar o péssimo testemunho que damos aos homens com este comportamento boçal e mundano. A igreja deveria ser um polo de amor e compaixão, e não ringue de batalha. As pessoas deveriam entrar por suas portas para cultuar ao Senhor, e não para serem manipulada por mentes maquiavélicas. Com isso, muitos estão “fugindo”, quando deveriam estar “participando”.

Biblicamente falando, a comunhão no templo é fundamental para uma vida cristã sadia, fecunda e produtiva. A adoração coletiva sempre fez parte do devocional cristão. O próprio Jesus fazia questão de estar junto dos seus seguidores, e os orientou a preservarem esta prática. Em essência, no templo somos instruídos e crescemos espiritualmente. Vivendo em comunidade, exercitamos o amor, exortamos uns aos outros, instruímos e somos instruídos. Sozinhos, não servimos a ninguém, não estimulamos a fé de ninguém, não choramos com ninguém e nem testificamos para a edificação de outras pessoas. Falta sentido prático na mensagem vivida.  

Agora, de quem é a responsabilidade por estas carências na vida de uma pessoa que se decepcionou com a igreja e deixou de frequentar a denominação que tanto a frustrou? De Deus? Da igreja? Da própria pessoa?

A vida em comunhão no templo é amplamente aconselhada pelos escritores neo-testamentário, que ressaltam inclusive os benefícios terapêuticos da união fraternal (Romanos 12:15 / Tiago 5:16). Penso, então, que ao invés de evitar a comunhão do Corpo de Cristo em nome da justiça própria, o cristão que “condena” o sistema humano que rege as denominações, deveria sempre priorizar a vontade do Senhor Jesus, que é exatamente, ver a sua igreja unida como um organismo único e funcional (João 17:11). Agindo assim, de modo a agradar a Cristo (e não aos homens, o que incluiu “eu mesmo”), certamente seriamos menos amargos e rancorosos, e ao invés de criticar as instituições e seus adeptos, agradeceríamos a oportunidade de poder prestar um Culto ao Senhor, em comunhão com os demais irmãos de fé, sendo realmente Família de Deus na terra. 

Família de Deus. Como é reveladora esta condição. Minha família tem o hábito de se reunir com regularidade para celebrar a vida e comer comida boa. Nos últimos anos, estas celebrações mudaram de endereço várias vezes. A família cresceu, e cada filho buscou um telhado para chamar de seu. Bairros diferentes. Cidades diferentes. Mas, independente da casa onde estamos reunidos, a família continua preservada. Porque ela é formada por pessoas, e não tijolos. A família está onde nós estamos, o que faz do endereço escolhido, o detalhe mais irrelevante da festa. E quando estamos juntos, o que mais tem é imperfeição. Falamos alto, mastigamos de boca aberta, reclamos de um prato que não nos agrada, e por aí vai. E continuamos a ser família. Não porque “escolhemos ser”, mas, porque “somos”. O amor nasce da compreensão, da tolerância, do respeito que se demostra diante das divergências.  E a igreja não é diferente.

A igreja institucional, aquela que carrega uma placa em sua marquise, é um templo de alvenaria, onde pessoas se reúnem para compartilhar a fé. O propósito implantado por Cristo é a comunhão e a edificação de todos. Mas, convenhamos, a perfeição nunca foi nosso forte. Como toda instituição que existe na terra, ela é cheia de falhas, está impregnada de egoísmo e tem em seu rol, muita gente perversa agindo em nome de Deus, mas motivado por intenções escusas. É impossível não ser contaminado pela decepção, principalmente, quanto mais se conhece os bastidores onde o “circo” sempre está queimando.

Mas, a igreja que Deus habita verdadeiramente, somos nós. Eu e Você. Santuário do Altíssimo, Morada do Pai, Tabernáculo do Senhor. Deus não habita em tendas ou em templos construídos por mãos humanas. Ele habita em corações. E é este templo que precisa estar puro e imaculado. Limpo de perversidade. Apto a receber a presença do Espirito Santo. Testemunhar o amor de Deus a humanidade. Um tempo sem placas, rótulos e egos inflados.  

Eu sei que não podemos melhorar a igreja institucional, isso depende de um esforço coletivo, que poucos estão dispostos a fazer. Mas, por outro lado, podemos aperfeiçoar a igreja individual, que sou eu. Que é você. Isso só depende de mim. Só depende de você.  Amar aos que te odeiam. Orar por seus perseguidores. Falar bem de que fala mal de você. Este ensinamento de Jesus não foi direcionado a uma instituição. Mas, sim, as pessoas. A igreja institucional pode não colocar em prática estes mandamentos, mas você, não tem o direito de fugir da responsabilidade

Falta amor em sua igreja?  Impregna-a com seu amor! Falta luz em sua família? Ilumine-a com sua luz! A apostasia rebaixou as pessoas no nível da mediocridade? Seja a diferença! Faça a diferença. Nada irá mudar se a mudança não começar em mim. Em você. Pare de reclamar da imperfeição da sua igreja, e assim talvez sobre tempo para que você repare em suas próprias imperfeiçoes. Faça uma autoanalise: - Se toda a membresia orasse, jejuasse, contribuísse, se voluntariasse e servisse na mesma intensidade que eu, será que minha igreja seria, de fato, melhor do que ela é?

Conheci um pastor que sempre aconselhava aos seus membros: - Se um dia você encontrar uma igreja perfeita, por favor, não congregue. Na mesma hora, ela se tornaria imperfeita, já que você a impregnaria com suas próprias imperfeições!

Infelizmente (ou felizmente), as únicas atitudes que podemos mudar, são as nossas. Não podemos decidir nada por ninguém. É por isso que a salvação é individual. Não são as placas das igrejas que terão que comparecer diante do Tribunal de Cristo para o ajuste de contas. São as pessoas. Não adiante ficar focado em instituições humanas, porque vamos encontrar todo tipo de erro. Foque se em Cristo, e cuide de se manter no caminho certo, mesmo que você perceba que a igreja A ou B esteja no caminho errado. Lembre-se que a Igreja não salva ninguém. Em alguns casos, só condena. Mas, Jesus salva a alma do homem que se entrega a Ele de coração.

E neste ponto, destrancamos o cofre, e lá dentro encontramos a singeleza do evangelho. Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele é o alvo, o destino e o porto de chegada. É nesta direção que devemos olhar. Ali não tem erro e nem decepção. Jesus é o parâmetro pelo qual devo me orientar. Ser como Ele. Agir como Ele. Só assim “EU” consigo realmente melhorar. E se a igreja (EU) conseguir ser um pouco melhor, consequentemente, a igreja (NÓS) também será. E o Reino de Deus vai ser honrado em nossas vidas!