Arquivo do blog

quinta-feira, 8 de março de 2018

E se Gideão liderasse um Exército de Mulheres?

Para as mulheres: Estou sempre em TPM...
Terrivelmente Poderosa por ser Mulher.
(Alexandre Dahmer)


O Velho Testamento foi escrito no contexto de uma sociedade patriarcal, tendo o homem (gênero) em predominância absoluta. Isto não impediu que mulheres virtuosas tivessem seus nomes (e feitos) gravados a ferro e fogo nas páginas do cânone sagrado. E até mais do que isto. Rute e Ester, por exemplo, se destacam neste cenário, não apenas por suas ações memoráveis, mas também, por darem nomes próprios a dois livros bíblicos, ainda que não sejam autobiográficos.

A grande verdade, é que entre os quarenta autores reconhecidos da Bíblia Sagrada, não temos catalogado o nome de nenhuma mulher. Mesmo assim, é inegável que muitos textos possuem a assinatura com um “coraçãozinho” no “i”. Mulheres são caprichosas por essência. O louvor de Midiã. A profecia de Débora. O cântico de Ana. O poema da sunamita. A pregação da samaritana. São muitos os exemplos. O que nem todos sabem, é que um dos mais conhecidos versículos do Velho Testamento, embora seja comumente dedicado a Salomão, não foi escrito pelo “rei”, mas sim, por “uma rainha”: 

- Mulher cheia de virtudes. Quem a irá encontrar? Ela é mais valiosa que pedras preciosas (Provérbios 31:10).

Nenhuma grande história consegue ser contada sem a presença de suas personagens femininas. O que seria de Abraão sem Sara? Pense nos grandes juízes de Israel, e você certamente se lembrará de Débora antes de recordar o nome de setenta por cento deles. Dá pra descrever a encarnação do verbo e ignorar Maria? Imagine o “Cântico dos Cânticos” sem os versos da Sunamita. Certamente não seria uma canção de amor.

Mas, convenhamos. Em muitas narrativas, as mulheres são subestimadas, e por uma questão cultural, reduzidas a um contexto secundário, mesmo que esta coadjuvância não retire delas o imenso valor.  Leitores mais pragmáticos, tendem a interpretar o texto de Cantares como mera “liberdade poética”, onde um “homem” gasta seu vasto repertório de galanteios, para fins de acasalamento. Em outras palavras, mais uma vez, teríamos a mulher sendo objetificada. Teorias a parte, Provérbios 31 é de imensa relevância, porque foge completamente da conotação romantizada, e se desenvolve linearmente como uma conversa literal entre iguais. E um texto feminino, sem ser feminista. De mulher para mulher. Antes de ser escrito, o roteiro foi vivido. Exatamente por isso, a autora fala com propriedade, sobre comportamentos por ela já demostrados. Não sabemos ao certo o nome da mulher segurando a caneta, já que a informação se limita apenas ao fato que seus ensinamentos foram repassados ao filho (o rei Lemuel de Massá), e compilados por Salomão em seus provérbios. Esta sábia rainha árabe tinha excelentes conselhos aos príncipes, e instruiu seu herdeiro a ser respeitoso com as mulheres, prudente diante do vinho, benevolente com os desafortunados e justo em cada palavra dita (Provérbios 31:1-9).

Mas, haviam cuidados especiais a serem tomado. Para que um bom rei exerça a plenitude de seu reinado, ele precisa estar ladeado por uma rainha igualmente dotada de bondade. Exatamente por isto, a mãe de Lemuel, fazia questão de ressaltar as qualidades que transformariam até mesma a mais simples entre as plebeias, numa rainha amável e exuberante. Mulher virtuosa. Diamante de valor inestimável. Tesouro pelo qual vale gastar a vida na busca.

E qual o segredo?

Simples. Ela faz do coração de seu marido, um cofre particular. Ali, deposita seus bens mais preciosos. Amor. Respeito. Confiança. Não existe maldade em suas intenções, e cada gesto das mãos, é motivado por bondade. Filha amada. Esposa honrada. Mãe amorosa. É impossível não se encantar com seus trejeitos, ou deixar de enamorar-se por tamanha doçura. Senso de justiça ilibado. Sensibilidade que  domestica feras. Um rubi de rara beleza moldado em açúcar e leite de rosas. Ela é, e ela faz.

A mulher virtuosa é uma mistura de “ovelha” e “leoa”. Sabe se comportar de acordo com as necessidades. O toque suave e delicado, não se esquiva do trabalho pesaroso. Ela recolhe a lã e tece o linho. Sabe se vestir com elegância, e da mesma forma, veste seus cordeirinhos. Diante das dificuldades da vida, cinge-se de força e seus braços não desfalecem. Busca o pão pela manhã e o recheia de carinho durante a tarde. Quando o dinheiro lhe é confiado, sabe fazer bom uso de cada moeda, investindo com prudência, sensatez e empreendedorismo. Em sua mão direita, maneja com destreza agulha e linha, enquanto na esquerda, segura um castiçal ainda acesso...

Ufa.... Haja coordenação motora.... Duvido que um homem execute com tamanha desenvoltura tantas tarefas simultâneas. Considerando as minhas habilidades pessoais de concentração em multitarefas, provavelmente rechearia a lã, costuraria o pão e acenderia o castiçal com uma agulha. Temo em pensar na sorte das pobres crianças que estariam sob meus cuidado, e no destino insólito das ovelhas a serem tosquiadas. Seria uma catástrofe. Mulheres são seres dotados de braços adicionais invisíveis, visão extra-sensorial e pequenos cérebros nas pontas de cada dedo. O "jeito" suplantando a "força". Mesmo que a força seja notária e presente.

Marmanjos barbudos, não se deixem enganar pela testosterona. Em uma disputa de habilidades contra o “vaso mais frágil”, apenas se assentem sobre os próprios culhões e reconheçam a derrota acachapante. Não se compete contra a pró-atividade feminina. E fim de papo.

Sempre que me vejo as voltas com este tema, penso na história de “Jerubaal” e seu “Clube do Bolinha”. Não conhece? Deixe-me contextualizar. 

Quando os amalequitas começaram a saquear as tribos de Israel, Deus levantou um homem chamado Gideão para liderar a resistência contra os invasores. O corajoso comandante conclamou aos moradores da região a se apresentarem em armas para o combate, e prontamente foi atendido. Ao todo, mais de trinta e dois mil homens se voluntariaram para guerra. Deus considerou o contingente excessivo. Com tantos soldados, a vitória seria creditada a perícia militar israelita, e o Senhor não estava disposto a dividir sua glória com ninguém. Gideão (ou Jerubaal, se preferir), foi instruído a dispensar todos os homens que estivessem “temerosos”, “inseguros” e “despreparados”. Mais de vinte e dois mil soldados desertaram. Correram para casa sem ao menos dar baixa na reservista. Se bobear, alguns estão correndo até hoje. Forrest Gump certamente se encontrou com muitos deles em seus anos de corrida.  

Haviam sobrado dez mil homens. Gideão estava desesperado. Com uma infantaria tão reduzida, seria esmagado pelo inimigo. Deus, por outro lado, sentia-se incomodado com a quantidade de soldados. Seria preciso reduzir ainda mais. Todo o pelotão foi levado à beira do rio e ordenado a beber de suas águas. O comandante deveria observar a forma como cada um matava a sede. Somente os cautelosos, que tomassem a água na mão, enquanto vigiavam a retaguarda, seriam aprovados. Após o teste, nove mil e setecentos “afoitos”, “relapsos” e “descuidados” foram mandados para casa.

O final miraculoso desta história, você já conhece. Gideão e seus trezentos soldados venceram em nome do Senhor, uma batalha contra milhares. Um milagre perpetrado na história.

- Miquéias... Para de rodeios! Que raios a história de Gideão tem a ver com as mulheres virtuosas de Provérbios 31?

Nada. E tudo. Estou apenas exercendo meu direito de conjecturar. Deixar as ideias fluírem em cascata. E te convido a fazer esta introspecção comigo. Propor mentalmente uma hipótese, e desenvolver a tese baseado nas informações coletas por Salomão.

E se Gideão liderasse um exército de mulheres?

Primeira questão.
Quantas atenderiam o chamado?

Haviam milhares de homens em Israel, e apenas trinta e dois mil se voluntariaram para a guerra. Um número irrisório em proporcionalidade a população local. Penso (apenas penso), que se a convocação fosse estendida as mulheres virtuosas que lavoravam o trigo plantado por suas famílias, o exército inicial seria três vezes maior. Porém, fiquemos na casa dos trinta e dois mil, apenas para termos uma base matemática precisa.

Voltemos a conjectura. Por um instante, suspenda a descrença e deixe-se levar pela imaginação...

Gideão chama seu exército de mulheres e propõem que as “amedrontadas”, “acovardadas” e “temerosas” retornem para casa. Quantas desertariam? Seria preciso passar o contingente em diversos filtros antes da primeira centena abrir mão do combate. Lá estariam elas, empunhando espadas na mão direita, e trocando fraldas com a esquerda. Para cada continência, uma batidinha com pó de arroz do nariz. Charme e furor no mesmo olhar. E nenhuma intenção de abandonar a farda. Quando chegassem ao rio, não haveria entre elas, nenhuma mulher descuidada. Na mochila de cada uma, copos descartáveis e espelhos. Errar pelo excesso, as vezes. Por omissão, jamais! Guerreiras bebendo água com classe, com os olhos ávidos no retrovisor, atentos ao bater de asas da mais inofensiva mariposa.

Pobres amalequitas. Se não puderam resistir aos trezentos soldados de Gideão, que poderiam fazer diante de um exército formado por mais de trinta mil mulheres virtuosas? A guerra acabaria antes mesmo de começar. Penso que Deus escolheu homens para o combate, apenas para manter um certo equilíbrio entre as forças.

Mulher virtuosa. Quem a acha, encontra um tesouro. Ela é destemida e faz a neve derreter quando caminha por entre a nevasca vestida de vermelho. Os cidadãos da cidade parabenizam seu marido todos os dias, pela sorte que teve na vida. Ela estende as mãos a necessidade do próximo, é forte em tempos de crise e ninguém ousa macular a dignidade construída. Em sua mesa não é servida a preguiça, e as preocupações diárias não ofuscam o sorriso matinal. Quando fala, todos se calam para ouvir. O esposo compõe canções sobre ela nos intervalos do trabalho. Os filhos a elogiam na escola. Nas ruas, sua presença não passa desapercebida, e logo, alguém testifica a respeito dela: - Existem muitas mulheres virtuosas nesta cidade, mas nenhuma é igual é esta!

Provérbios 31:30 ressalta que o charme de uma mulher é enganoso, e que a beleza de seu rosto é apenas temporal. Nada disto dura muito tempo. Porém, quando a mulher virtuosa teme ao Senhor de todo coração, suas mãos se tornam permanentemente frutíferas, e todos em volta admiram sua vida, e louvam tais obras publicamente. Basicamente, ela é um arraso, e põem ao chão as estruturas que cerceiam os objetivos estabelecidos. Uma força da natureza imparável e avassaladora. Sem jamais perder a classe. 

E neste ponto, me vejo coagido a recalcular o contingente de meu perfumado exército imaginativo.

Seria um desperdício muito grande, enviar trinta e duas mil mulheres contra os amalequitas. Com tantas qualidades, atribuições, habilidades e destreza, podemos reduzir drasticamente este número. Se Gideão precisou de trezentos homens para vencer uma batalha impossível, se liderasse um exército de mulheres, creio que metade deste número seria mais que suficiente. Cento e cinquenta guerreiras, com espada na mão, nécessaire na cintura e blush no rosto. Não sobrariam nem lembranças sobre o inimigo. Vitória absoluta, limpa, justa e digna. Trombetas, cântaros, tochas acessas e salto alto! (Juízes 7:20)
  

domingo, 4 de março de 2018

Linha de Chegada



Deus nunca disse que a jornada seria fácil.
Mas Ele disse que a chegada valeria a pena.
(Max Lucado)


A Bíblia é um manancial de promessas. Universais. Personalizadas. São mais de cinco mil no Antigo Testamento e outras três mil no Novo Testamento. Alguns estudos compilam 8.810 promissões nas páginas sagradas. A “Bíblia JFA – Edição Promessas”, cataloga 1.100 categorias de promessas seladas entre Deus e os homens, e destacadas pelos quarenta autores dos livros bíblicos. É muita benção agendada sobre o servo de Deus! 

Mas, nada de oba-oba! Existem critérios para vivenciar cada uma delas. Deus só tem promessas para vencedores!

O que vencer comerá do fruto da Árvore da Vida, que está no meio do Paraíso de Deus.

O que vencer não receberá o dano da segunda morte.

O que vencer partilhará do maná escondido.

O que vencer será chamado por um novo nome.

O que vencer julgará as nações com vara de ferro.

O que vencer vestirá roupas brancas.

O que vencer caminhará com o Senhor por ruas de ouro.

O que vencer manterá seu nome escrito no Livro da Vida.

O que vencer terá seu nome confessado pelo próprio Cristo.

O que vencer se edificará como coluna no Santuário celeste.

O que vencer levará sobre si o nome de Deus.

O que vencer dividirá um trono com o Jesus glorificado.

Não existe um só lugar na “Glória Eterna” que tenha sido reservado para os derrotados. O fracasso não consegue ultrapassar as catracas da Nova Jerusalém. O céu é o destino de campeões! Gente que superou os mais volumosos obstáculos, e por fé, ultrapassou os limites da própria capacidade humana. Imagine o Paraíso como um gigantesco pódio, apenas com a plataforma do primeiro colocado. O segundo lugar, infelizmente, vai ficar de fora.

E esta condição me deixa agoniado. Com oito bilhões de almas numa corrida desenfreada rumo a eternidade, qual é a probabilidade de meu nome constar entre os vencedores? Não importando qual a categoria, sei que sempre existirá milhões de pessoas mais credenciadas, capacitas e produtivas. Que chances tenho eu?

Nestas horas, quando a insegurança toca maliciosamente a campainha, preciso me lembrar que esta não é uma disputa no estilo “um” contra “todos”. Só existem dois concorrentes diretos. “Eu” vs “Eu”. “Homem Natural” vs “Homem Espiritual”. Só chega na Glória, e desfruta plenamente das promessas, aquele que vence a mais árdua das batalhas, e no ringue das prioridades, consegue derrotar a “si mesmo”. Como bem dizia minha amiga Eliana Felix: - O céu é ganho a força!

Imagine que seja oferecido a você um baú cheio de ouro. Gratuito e intransferível. Se não for seu, não será de mais ninguém. Na verdade, cada pessoa já nascida recebeu a mesma proposta. Um tesouro particular, único e exclusivo. Não existem motivos de disputa em torno dele. Caso sua resposta seja sim, ninguém poderá roubá-lo de você. Obviamente, para isto, uma única exigência precisa ser aceita de bom grado. É preciso buscá-lo pessoalmente. E qual a localização? No alto do monte Everest. Não há helicópteros disponíveis ou alpinistas contratáveis. A busca também é pessoal e intransferível. O tesouro está reservado apenas para você, e a escalada também. Este é o filtro que retém os derrotados, para os quais, os céus não permitirão acesso.

A disputa não é “quem” chega primeiro, ou escala mais rápido. Na verdade, vencem todos aqueles que “não” desistem da escalada. Eu X Eu. Você X Você. Uma batalha diária contra o desânimo, a apostasia e o comodismo. A montanha, em si, nunca será o problema. Sabemos o que esperar dela no exato instante que optamos pela subida. Conhecemos bem as consequências desta escolha. Cansaço, fadiga, dores crônicas, ar rarefeito, as pontas dos dedos em carne viva, frio e extremidades do corpo suscetíveis a necrose. Estas dificuldades estão descritas no “contrato” em letras garrafais. Deus não as esconde de ninguém. A montanha está ali exatamente para limitar os acessos. É um teste. Geralmente, motivados pelos valores ofertados, prontamente aceitamos a jornada, e iniciamos o caminho dispostos a concluir o percurso. Esta é a verdade do momento, banhada de emocionalismo e empolgação, nos catapultando pelos primeiros estágios. Fogo e fúria agindo como combustível humano. Faca entre os dentes e muitos metros conquistados com extrema facilidade. O início é sempre promissor.

Porém, os dias se sucedem, os ventos sopram rigorosos e o inverno açoita o lombo já despido, enquanto os dedos sangram a cada toque no rochedo. Começamos a recalcular o custo benefício. - Será que realmente vale a pena tanto desgaste na busca de um tesouro, para o qual, não tenho ao menos, alguma prova tangível de sua existência. O “Eu” racional, calculista e pragmático, desafiando o “Eu” espiritual, esperançoso e atemporal para um duelo de “vida” e “vida eterna”. Quem vence? Quem perde? Quem avança? Quem recua?

Perder para ganhar ou ganhar para perder?

O céu será entregue aos vencedores. Para aqueles que abarrotam sua mochila com as promessas, e não a abandona na beira do caminho, mesmo que o peso empurre vertiginosamente para baixo. Nos critérios divinos, vencer não é necessariamente ser o melhor, ou chegar primeiro. Mas sim, não desistir no meio do caminho. Só os perseverantes viverão a plenitude de tudo aquilo que foi prometido desde o começo do mundo.

Deixe-me explicitar este conceito através da vida de Paulo. Este homem dotado de grandiosas virtudes e inteligência superior, abriu mão de uma vida acadêmica muito promissora em Jerusalém, quando recebeu a proposta de um tesouro espiritual. Mesmo sabendo das dificuldades da escalada, se lançou sem reservas montanha cima, crendo que o Senhor que o esperava no cume, também seria seu guia por todo o rochedo. O custo desta escolha?  Escárnios, açoites, prisões, naufrágios, fome, frio, abandono, angústias e muitas tribulações. Será que realmente devemos considerar Paulo um exemplo de vencedor?

Faça um exercício de memória e volte a Roma do século primeiro. Mais precisamente, ao corredor da morte em uma destas prisões romanas que você conhece bem pelos filmes épicos que já assistiu. Lá você se encontra com um homem magro, a barba viscosa e olhar cansado. Na próxima hora, sua cabeça rolará em praça pública. Será o fim para ele. Nas mãos do condenado, você observa um pedaço de papel. Os dedos engruvinhados seguram firmemente a pena,  enquanto escrevem um tipo de carta. As últimas palavras do prisioneiro. Você observa as cicatrizes nos braços e nas pernas, e entende que aquele homem foi surrado por várias vezes ao longo de sua vida. E logo conclui: - Deve ter sido alguém muito ruim para apanhar tanto.

Curioso, você inicia uma conversa “despretensiosa”. – Está frio aqui, não? O homem para de escrever e gentilmente olha na sua direção. – Já estive em situações piores.... Uma vez, depois que meu navio naufragou, passei a noite inteira nas águas geladas do mar, agarrado a um pedaço de madeira, enquanto nadava numa busca desesperada por terra seca... Com a Graça de Deus, eu e meus companheiros sobrevivemos... Mas, naquela noite, meu filho... Eu senti frio de verdade... Aqui até que está bem quentinho... Você fica impressionado com a serenidade na voz do pobre condenado, que em nada se enquadra na aparência esquálida que ostenta. E insiste no diálogo:

- Que história... Certamente você deve ter muitas delas para contar!

E ele, de fato, as têm. Trôade. Malta. Felipo. Atenas. Éfeso. Macedônia. Colosso. Galacia. Tessalônica. Corinto. Antioquia. Jerusalém. Histórias sobre apedrejamentos. Linchamentos públicos. Julgamentos. Prisões. Eram incontáveis as vezes que a morte quase o tinha tomado para si. E o motivo era sempre o mesmo. A maioria das pessoas desprezava a mensagem que transmitia. Jesus Cristo. Aquele que foi morto e reviveu. A Graça capaz de soterrar uma montanha de pecados. Arrependimento. Renúncia. Perdão. Frutificação espiritual. O amor sendo apontado como o mais excelente dos caminhos. A morte do velho homem e o renascimento para uma vida nova, enquadrada nos desígnios de Deus. Os religiosos repudiavam a doutrina. Os políticos se incomodavam com a revolução espiritual. Os poderosos sentiam o ego violado pelas ideias igualitárias, que nivelava todos os homens sob a égide do pecado, carentes de misericórdia e passiveis de julgamento. Então, o portador da mensagem foi coagido. Perseguido. Maltratado. Portas fechadas. Fugas no meio da noite. A cada passo dado, uma dor lancetava seu corpo. A cada alma ganha, uma pedra atingia seu dorso. Milhares de vidas resgatas das garras de satanás. A mesma quantidade de pedras lançadas contra um único pregador. Um espinho maligno infligindo diariamente a carne de um homem santo.

A esta altura da conversa, você percebe a vista se embaçando. Uma lágrima teimosa reluta em se desprender dos olhos. Muitos pensamentos lhe surgem a mente, mas apenas uma frase se concretiza nos lábios. - Vale a pena? Então, instintivamente você se aproxima das grades. Deseja vê-lo mais de perto. Respirar o mesmo ar. Sentir a energia espiritual, que só agora, sente reverberando em cada partícula suspensa.

- Depois de tanta dedicação a uma causa, tudo o que lhe resta é sentar-se nesta cela escura, enquanto espera para ser assassinado?  Será que a vida que escolheu viver, realmente valeu a pena?

O homem condenado sorri. Ele retribui a aproximação. Dobra cuidadosamente o papel em suas mãos, e o coloca gentilmente no chão. Usando as paredes da cela como apoio, se levanta com alguma dificuldade, como se sentisse câimbras, e caminha lentamente em direção as grades. Agora, já é possível olhar em seus olhos. Olhos meigos. Olhar imponente. Ele move seus lábios e diz com total convicção:

- Valeu a pena? Como assim? Não haveria sentido em uma vida diferente! Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é ganho! (Filipenses 1:21)

Paulo. Conhecemos sua história e repetimos suas palavras. Admirado por “duzentos” em cada “cem” teólogos. O apóstolo dos gentios. O maior evangelista de todos os tempos. Fundador de incontáveis igrejas. Herói da Fé. Um Campeão do Céu. Sem dúvidas, o exemplo máximo de um vencedor.

Será?

Creio que Paulo não se encaixaria no estereótipo “apostólico” que a nossa geração insiste em idolatrar. Paulo não andava em carros SUV e nem frequentava restaurantes luxuosos. Não se vangloriava por igrejas abarrotadas ou atendia suas ovelhas em salas pastorais refrigeradas. Na verdade, se Paulo vivesse entre nós, provavelmente o criticaríamos severamente por seus comportamentos peculiares. Por instante, me imagino ouvindo os burburinhos da congregação, cada vez que ele tomasse nas mãos o microfone para uma rápida saudação:

- Este homem vive doente... Com certeza está em pecado!

- Soube que ele estava em outro navio que afundou... Misericórdia... Deve estar carregado de encostos... Precisa orar mais!

- Você já viu este irmão namorando alguma moça? Sei não... Acho que ele não é chegado na “fruta”... Se é que me entende...

- Vai viajar outra vez? Não tem nenhum comprometimento com a nossa igreja, mesmo...

- Ouvi dizer que ele envia “cartinhas” para rapazinhos de outras cidades... Nunca me enganou!

- Parece que está trabalhando como servente... Ainda ontem era funcionário do governo! Deus humilha os soberbos! Oh, Glória!

- Você acredita que na semana passada ele foi preso? Que vergonha para o evangelho!  Se ficasse em casa cuidando da própria vida, certamente não se meteria em tanta confusão. Mas, gosta de “bater perna”... Fazer o que? Cada um tem o que merece!

Escrevi estas linhas com dor no coração. Em parte, porque são mais que um mero exercício imaginativo, e sim a reprodução dos pensamentos de pessoas que conheço realmente. Mas, principalmente, por constatar como a nossa geração está propensa a inverter valores. Medindo o sucesso ministerial com equipamentos descalibrados. Calculando o progresso espiritual com a fórmula equivocada. Invertendo o pódio. Se vislumbrando com os aplausos. Se rendendo as distrações do caminho. E tudo isto, nada mais é que um lubrificante viscoso descendo a montanha, nos levando para baixo, enquanto fantasiamos ascender. "Eu", sendo derrotado por "mim".

Paulo x Paulo é uma batalha que se repete inúmeras vezes pelas páginas do Novo Testamento. Saulo x Paulo. Odre Novo x Odre Velho. Vinho Novo x Vinho Velho. Vida x Morte. E o apóstolo sempre fez as escolhas corretas. Venceu todas as guerras que travou contra si mesmo. Escalou a montanha sem olhar para baixo, mesmo que inúmeras vozes clamassem por sua queda. Um verdadeiro vencedor. Campeão do Céu. Surdo aos apelos mundanos e pronto a ouvir (e obedecer) a voz de Deus. Até o fim.

As promessas bíblicas que citei no início deste texto, estão compiladas nas primeiras páginas de Apocalipse. Foram inseridas pelo próprio Cristo, nas cartas destinadas as igrejas da Ásia. Uma delas, porém, possui uma característica especial, já que não contém nenhuma promessa feita a “vencedores”. Na verdade, há uma mensagem do Jesus glorificado, alertando a igreja de Esmirna sobre as dificuldades da escalada. – Alguns de vós serão presos por causa do meu nome, pois um tempo de tribulação está chegado, onde o próprio Diabo se levantará contra vocês. E então, o Senhor os esforça a perseverança - Não tenham medo! E faz uma promessa destinada apenas para os sobreviventes eternais: - Seja fiel até a morte, e Eu te darei a Coroa da Vida! (Apocalipse 2:10).

Ser vitorioso no contexto bíblico não é chegar em primeiro. Nem mais rápido. Basta chegar. Não desistir no meio da escalada. Não retroceder no caminho. Não se corromper na jornada. Campeões do Céu tem uma característica que os torna iguais. PERSEVERANÇA. Persistir, insistir e nunca desistir.  Dizer "sim" para Deus, quando o próprio “EU” pede "não". Para eles, a gravidade é mais intensa na atmosfera do que no núcleo da terra. Pisam no solo, enquanto mantem a cabeça nas alturas. Gente que “cai para cima”, “recua para frente” e “morre para vida”. Abrem mão da existência terrena, para viver a plenitude das promessas na eternidade. Sobreviventes eternais. Vencedores! Campeões!

Paulo entregou sua vida sem reservas para Deus. - Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.  (Gálatas 2:20-21). A recompensa terrena que o apóstolo recebeu foi um golpe duro, frio e certeiro da lamina do carrasco. Porém, antes mesmo que a cabeça decapitada tocasse o chão romano, seu espírito voava em direção a Deus. Nas mãos, o fruto de um trabalho penoso e sacrificial. Almas. Milhares. Ganhas em vida. Ganhas na morte.

Voltando a prisão de Roma, lá está você encostado na parede, refletindo sobre a vida. Ao lado, as grades estão abertas, e cela vazia. Lá dentro, sobre o chão, o papel dobrado, onde provavelmente, o prisioneiro de Cristo deixou um bilhete de despedida. Seu desabafo. Suas frustrações. Você entra na cela, se inclina e toma o papel amarelado nas mãos. Desdobra cuidadosamente. Enquanto lê, os olhos se encharcam, e uma gota quente cai sobre o ponto final. Você desaba ajoelhado sobre o chão manchado de sangue. O papel flutua lentamente pelo ar, até repousar na pedra fria. Suas mãos agora estão sobre os olhos, tentando inutilmente conter as lágrimas. Alguém tinha concluído a escalada. Provado que é possível chegar ao topo. Ser um vencedor mesmo sem “vencer”. Ainda que os homens não reconheçam a vitória, uma marcha vitoriosa reverbera pelos céus, enquanto o campeão ultrapassa a linha de chegada.

Você se recompõe. Levanta, e caminha em direção a saída. E então, se lembra do pedaço de papel. Ele não pode ficar ali. Aquelas são palavras precisos demais, e o mundo precisa conhece-las. A última mensagem de um homem que escolheu viver por Cristo, e por Ele, aceitou agradecido o convite da morte.

- Combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé! Sei que agora me espera a Coroa da Justiça, que para mim foi guardada, e que o Justo Juiz me entregará naquele grande dia. Não só a mim, mas para todos aqueles que viverem por Ele! (II Timóteo 4:7-8)

Boa Escalada!