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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A Chuva e o Mar

Não tenha sobre ti, um só cuidado, qualquer que seja. 
Pois um, somente um, seria muito para ti.
(Josué Rodrigues)


Sabe aquela visão otimista sobre a vida, que nos faz sempre enxergar o “copo meio cheio”? Pois é. Nunca tive. Sou mais o tipo de pessoa que projeta o pior cenário, para ver se, pelo menos assim, é possível retirar alguma coisa boa de situações desagradáveis. Endosso a enorme estatística daqueles que sofrem de véspera. O problema apenas mandou uma mensagem de texto dizendo que está chegando, e lá vou eu roer minhas unhas até sangrar as pontas dos dedos. Enquanto alguns dançam alegremente na chuva, eu estou aflito com as possíveis goteiras em cima da cama. 

E esta analogia me remete as lembranças do dia de meu casamento.

Nove de dezembro de dois mil e seis. A manhã chegou trazendo de presente um belíssimo céu de brigadeiro. Exatamente como estava previsto no meu roteiro ideal. Eu e a Valquíria nos encontramos na porta do cartório e assinamos a papelada. Marido e mulher perante a lei dos homens. Almoçamos juntos (já casados), e então seguimos caminhos opostos. Enquanto ela se dirigiu com sua comitiva para um tratamento de “princesa”, eu, menino brejeiro como sempre fui, tinha planos menos glamorosos. Apenas ficar em casa, esperando ansiosamente a hora de vestir um terno preto e correr para igreja onde seria realizada a cerimônia religiosa. Simples assim. 

E o script fluía com naturalidade...

Foi então, que sem maiores alardes, o segundo ato chegou com sua reviravolta mirabolante. Por volta das três da tarde, um tapete negro se desenrolou sobre os céus com a velocidade de um trem bala. O dia ganhou contornos soturnos. A sala de minha casa enegreceu. Em poucos minutos, uma chuva torrencial desabou sobre a cidade. E o mundo, na minha cabeça. Como disse, o copo para mim está sempre meio vazio.

E agora? O que fazer? A chuva não estava nos planos. Os convidados ficariam encharcados na porta da igreja. A chapinha das damas de honra se desmanchariam como manteiga quente. Os sapatos dos padrinhos cheios de água. A estrada do local onde seria a festa se tornaria um pântano. - Meus Deus, as mesas estão todas ao ar livre! E a barra do vestido da Val? - Branco! É meus amigos, eu transformei uma simples chuva de verão numa terrível tragédia. Olhava para cima e pensava em como Deus não deveria gostar de mim. Porque Ele tinha decidido jogar o oceano Atlântico em cima de Mogi Guaçu exatamente no dia do meu casamento?

E foi imerso nestes pensamentos tão mesquinhos, que eu entrei no quarto, me deitei sobre a cama e adormeci reclamando. O que não tem remédio, remediado já está. Uma hora depois, quando acordei, percebi a claridade acolhedora que tinha invadido o ambiente. Abri a janela, e para minha surpresa, lá estava o sol. Belo e radiante. Não havia nem mesmo sinais de nuvens negras no céu. O único vestígio da chuva era a grama molhada. Tanta preocupação para absolutamente nada. Questionamentos sem propósitos. Tem horas, que o melhor antídoto contra o desespero é deitar-se e dormir. Enquanto fazemos isto, Deus mantem as rédeas da natureza em suas mãos.

- Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois aos seus amados Ele o dá enquanto dormem (Salmo 127: 2).

Quando leio este verso escrito por Davi, fico indignado com as oportunidades que perdi na vida, em decorrência desta mania tola de exasperação. Poderia ter me preocupado menos, e com isso, sorrido muito mais. Este estilo de vida leve e buliçoso teria me poupado de alguns fios brancos na barba (precoces, é claro). E certamente, afugentaria o dragãozinho que passeia em meu estômago todas as manhãs. O pior de tudo, é que mesmo tendo plena consciência desta realidade, vez ou outra, lá vou eu (teimosamente), me arriscar numa tentativa fútil de colocar arreios em cavalos indomáveis, quando posso permitir que o mesmo Deus que domou os mares faça isso por mim. Enquanto sou derrotado por uma ratazana que se esconde no sótão da mente, o Senhor coloca cabresto no Beemote e cavalga sem sela no Leviatã (Jó 40:13-24).

Nas páginas do Êxodo encontramos uma história de desespero precoce e angustia antecipada que muito se assemelha ao meu destempero diante do “irrelevante” temporal de dois mil e seis. Porém, o que assustava os israelitas era uma ameaça bem mais significativa. Ao invés de convidados molhados, a consequência seria o extermínio de uma nação. Pobres hebreus. Encurralados entre as águas do Mar Vermelho e o poderosíssimo exército do Egito. Pouco restava para eles, a não ser uma entrega total e irrestrita à exasperação.

E os egípcios perseguiram-nos, todos os cavalos e carros de Faraó, e os seus cavaleiros e o seu exército, e alcançaram-nos acampados junto ao mar, perto de Pi-Hairote, diante de Baal-Zefom. E aproximando Faraó, os filhos de Israel levantaram seus olhos, e eis que os egípcios vinham atrás deles, e temeram muito; então os filhos de Israel clamaram ao Senhor. E disseram a Moisés: Não havia sepulcros no Egito, para nos tirar de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos fizeste isto, fazendo-nos sair do Egito? Não é esta a palavra que te falamos no Egito, dizendo: Deixa-nos, que sirvamos aos egípcios? Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto. (Êxodo 14:9-12)

Israel estava vivendo um momento de festa. Após quatrocentos anos de exílio, a nação caminhava rumo ao lar. Canaã, a Terra Prometida, onde do solo, manava leite e mel. Os últimos séculos haviam sido marcados por um sofrimento inenarrável. Flagelados pelo chicote de Faraó. Humilhados pelas divindades egípcias. Os hebreus viram seus velhos descartados no lixo, e mães foram obrigadas a jogar no Nilo, os filhos que ainda amamentavam. Eles clamaram por socorro com a boca cheia de areia, e como resposta, ouviram um longo silêncio. Agora, estavam livres. Os idosos sobreviventes eram amparados por crianças saltitantes, e juntos, calcorreavam na mesma direção. O horizonte da esperança era um território a ser conquista. E então, de repente, o sonho se desmoronou como um castelo de cartas soprado por ventos ocidentais.

O mar. As montanhas. Faraó.

Desde que saiu do Egito, os hebreus se moviam de acordo com a direção divina. Eles não deram um único passo fora do propósito, e seguiram aqui na terra, a rota estabelecida nos céus. Portanto, foi o próprio Deus que conduziu Israel até o centro de uma armadilha mortal. PI-HAIROTE.  O beco sem saída. A geografia de Pi-Hairote era simples de compreender. Uma gigantesca fenda lavrada numa região rochosa, que se encerrava exatamente no grande Mar Vermelho. Quando Faraó soube que os israelitas tomaram este caminho, mal conseguia acreditar na facilidade que teria para exterminar aquela gente. Seu coração estava incandesço pela ira, desejoso por uma vingança cega e ensandecida. Faraó não mediria esforços para concluir seu intento. Todos os soldados de Egito convocados para a guerra. Mais de seiscentos carros bélicos se movendo velozmente na direção dos hebreus. Os cascos dos cavalos faziam a terra tremer. Não haveria batalha, apenas extermínio.

Os hebreus não tinham armas, e se quer, sabiam lutar. Eles não possuíam treinamento militar ou destreza com espadas. Não passavam de agricultores sazonais especializados em carregar tijolos nos lombos. Nada mais que um cardume de sardinhas contra a correnteza infestada de tubarões. E sequer, tinham para onde correr. Presos em PI-HAIROTE, cercados de rochedos, com o Mar Vermelho à frente e Faraó na dianteira. Beco sem Saída. Medo justificado. Desespero avalizado pelas circunstâncias.

Sem opções de ataque e desprovidos de qualquer defesa, a nação voltou-se para Moisés: - Não haviam sepulturas no Egito? Viemos até aqui para sermos enterrados nas areias do deserto?

Pobres hebreus. Perdendo uma oportunidade singular de descansar no Senhor. Não conseguiam enxergar além do mar, da mesma maneira que eu não pude visualizar o sol radiante atrás da nuvem escura. E assim tem caminhado a humanidade, vivendo o momento, imersa em apreensão com o futuro. Andamos por ruas calçadas de preocupações, sem atinar que o refrigério nos aguarda ao virar da esquina. Amedrontamos sob a tempestade, nos esquecemos que o trono de Deus resplandece sobre o firmamento. A escuridão momentânea nada mais é do que a cortina do palco guardando em segredo o apogeu do espetáculo.

Moisés perguntou ao Senhor o que fazer, e Deus se incomodou com o questionamento. Como assim, o que fazer? Vocês ainda estão em duvidas sobre o futuro? – Continuem marchando!

Quem disse que uma pedra no caminho é empecilho para se continuar a caminhada? Onde aprendemos que soluções impossíveis justificam o desfalecimento da fé? - Se movam – Diz o Senhor.  Canaã não vai chegar até vocês por esteiras rolantes. Caminhem com firmeza. Olhem além das aparências. Lancem sobre mim toda a impossibilidade, e deixe que Eu converto em possibilidades as probabilidades improváveis.

- Moisés, porém, disse ao povo: Não temais; estai quietos, e vede o livramento do Senhor, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais os tornareis a ver. O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis. (Êxodo 14:13-14)

A partir deste ponto, os eventos que se sucedem, fazem as palavras de Moisés soarem apenas como um frágil discurso motivacional. Tudo convergiu para a histeria coletiva. O ruim ficou pior. O lagarto feroz abriu as asas, rugiu e se transformou num dragão aterrorizador. “Plot Devace” esmerado. Aquela belíssima imagem que temos de Moisés tocando nas águas do mar, e um caminho se abrindo instantaneamente, não passa de licença poética hollywoodiana. Quem testemunhou a cena em loco, precisou ter muita paciência para compreender os planos do Senhor. Milimetricamente traçado. O caminho pode até ser tortuoso e forrado por cascalhos pontilhados, mas, a chegada faz todo o difícil trajeto valer a pena. As dificuldades do trajeto estão no escopo divino. Até, porque, se for fácil, não é trabalho para Deus. 

1º EVENTO – Remoção da Escolta.

Desde que saíram do Egito, os hebreus tiveram um anjo que lhes dava segurança e proteção. Ele caminhava à frente do infante exército israelita, sendo a linha de defesa contra qualquer ataque inimigo. Porém, assim que Moisés ordenou a marcha, o anjo protetor deixou seu posto. Nas horas seguintes, o ministro celestial se manteve numa zona neutra, entre o povo israelita e o exército egípcio, fora do ângulo de visão dos hebreus.

2º EVENTO – Um mergulho na escuridão.

Para proteger seu povo do sol escaldante do deserto, Deus lhes cobriu com uma espessa nuvem, que garantia sombra e refrigério contra as altas temperaturas. À noite, esta mesma nuvem encandecia, e se transformava numa coluna de fogo. Assim, durante a escuridão noturna, os hebreus tinham luz e calor. Para surpresa de todos, Deus removeu a nuvem de sobre os israelitas, e a colocou na divisa entre as duas multidões. Quanto mais próximo ao mar, menos se enxergava e mais frio fazia.

O objetivo daquele povo era seguir em frente e atravessar o mar. E Deus, simplesmente, apagou as luzes da avenida e mandou para casa os policiais, exatamente quando os criminosos estariam à solta. Faz sentido? Obviamente, sim! O Senhor estava movendo as peças no tabuleiro, mesmo que ninguém tivesse ideia de qual seria a próxima jogada. A noite trouxe aos hebreus uma escuridão até ali desconhecida, e o frio finalmente adentrou pelas portas. Sem anjo para lhes proteger. Sem fogo para os iluminar. O único ponto de luz estava voltado aos egípcios, com seus carros poderosos e espadas afiadas. E sem muitas opções para desviar o pensamento de um mal inevitável, o povo teve medo. Não deveria, mas teve. - E como não ter?

O que a maioria não percebeu, é que em meio ao negror sepulcral, Deus providenciava um grandioso livramento, contado e cantado até os dias atuais. Se no acampamento de Israel as coisas aparentavam não estarem bem, entre os egípcios, nada ia bem, de fato. O Anjo do Senhor não se manteve impassível diante do perigo, Ele interviu. Seu toque angelical alcançou os carros bélicos de Faraó, e os incidentes começaram. As rodas se soltavam. Os cavalos se negavam a trotar. Enquanto a equipe de manutenção se esforçava para consertar um equipamento, outros dez apresentavam defeitos irreversíveis. E do que adiante ser veloz, quando não é possível se mover? Qual é a utilidade de seu poderio militar, se os inimigos se mantêm muitos passos à frente? Israel estava parado e o Egito não se movia. Zero a zero no placar de um jogo truncado. O único que se mantinha em ação era o próprio Deus.

Durante toda a noite, uma corrente de ar provinda do oriente, soprou sobre as águas do mar. Cegos pelo desespero, os hebreus não conseguiram enxergar além da escuridão, e se quer, perceberam o trabalhar de Deus. Enquanto famílias choravam abraçadas, apenas aguardando a hora da morte, o Senhor estava lavrando um seguro de vida, com cobertura sem restrição. Pelas perspectivas das possibilidades, Israel tinha todo o direito de sucumbir sob uma avalanche de angústia e desesperança. Mas, perderam uma chance dourada de confiar no Deus que os havia tirado do Egito com braço forte e mão estendida. O histórico lhes garantia tranquilidade, mas, faltou memória. A noite não dormida, tornou a caminhada matinal num exercício pesaroso. Feliz foram aqueles que descansaram no Senhor, e diante da tragédia anunciada, bocejaram despreocupadamente, entregando nas mãos do “Eu Sou” o seu sono mais profundo.

Quando o dia amanheceu, e os raios de sol tocaram no mar, um povo embasbacado pode finalmente enxergar o milagre ocorrido em meio a escuridão. O mar estava aberto. Um caminho seco ligando margem a margem. A rota de fuga definitiva. Pena, que a maioria estava exausta, desvaída de forças e com olheiras de panda. Eles haviam desperdiçado toda a energia acumulada se remoendo em preocupações. Tanto esforço para nada. E este tipo de comportamento, traz o texto de volta para mim. Preocupado com uma chuvinha qualquer, enquanto deveria estar aproveitando um dia inesquecível. A minha vantagem sobre os israelitas, é que pelo menos, eu consegui dormir, enquanto Deus reinava sobre as águas.

Então, é isso. Aprenda com os erros alheio. Preocupações excessivas roubam oportunidades únicas. E ainda fazem agiotagem na alma, no corpo e no espírito. Taxas e juros altíssimos. Se preocupar com o “passado” gera depressão. Se preocupar com o “presente” causa stress. Se preocupar com o futuro produz “ansiedade”. A saída é relaxar. Despreocupar. Estando você atribulado ou em paz, o mar vai se abrir do mesmo jeito. E não é a sua agonia que irá fazer Faraó desacelerar o passo. Tem coisas que só Deus faz.

E nestas horas, o que se pode fazer? Comece fazendo uma pausa no discurso lamurioso. Não se gaste com esforços desnecessários. Ouça a voz do Senhor ecoando sobre as ondas, reverberando na escuridão e retumbando através da tempestade: 

- É "Meu", somente "Meu", todo o trabalho. E o teu trabalho é descansar em Mim...

Silêncio. Aquieta teu coração. Amanhã não existirá mais egípcios em teu encalço. Cochile despreocupadamente. A tempestade é passageira. Durma sem medo. O Senhor vela seu sono. Reserve suas energias para a Lua de Mel. Ou então, para aquela festança que vai acontecer na margem oposta do mar.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Borboletas, Corças e Furacões

Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual.
(Lei de Murphy)


Habacuque era um homem bom. Daqueles sobre o qual se dizem ter um coração de ouro. Sua empatia com o próximo era louvável. A sensibilidade demostrada em suas ações revelavam a compaixão latente que o profeta expressava no olhar. Seu nome significa “abraço”. Teólogos e estudiosos o identificam como alguém hábil para ministrar refrigério ao aflito. Um pai acalentando o filho choroso com mãos ternas e palavras gentis. Habacuque... Figura rara em Judá... Um tipo de pessoa em extinção. O mundo a sua volta era cruel e mesquinho, implantado na sociedade a cultura do “cada um por si e Deus por todos”. Em decorrência deste comportamento generalizado, o profeta estava com a alma ferida.

Todos os dias, ao abrir a janela de seu quarto, o profeta se deparava com um cenário de violência e destruição. As pessoas não se entendiam, e nem se esforçavam para conviver com o mínimo de dignidade. As leis estavam senda rasgadas e jogadas no lixo. A justiça havia sido pervertida. Virada ao avesso. Judá estava sob dominação egípcia. O rei Jeoaquim não passava de uma marionete nas mãos do faraó Neco. Sem a liderança de um homem compromissado com o Senhor, os judeus desceram a ladeira da fé. A decadência civil e religiosa fez da nação um antro de egocentrismo. Tudo era falso. A adoração formalista. Deus estava nos lábios e ausente nos corações.

E descer o Everest numa bicicleta sem freios é programar a própria desgraça. Judá estava cavando a cova na qual seria sepultado. Velhos que se esqueceram do passado, incentivado crianças a não enxergarem o futuro. Habacuque não se conformava com este cenário tenebroso. Quais perspectivas existiam para as próximas gerações? Até quando a justiça seria ridicularizada nos tribunais? Continuaria a iniquidade a cirandar pelas ruas zombando dos homens de bem?

E é neste ponto, que Habacuque faz suas mais relevantes perguntas:

- Onde está Deus?

- Porque clamo por socorro e Deus não me responde?

- Até quando eu vou denunciar a violência, e Deus não fará nada contra aqueles que praticam o mal?

Habacuque queria respostas imediatas. Ações práticas e decisivas. Ele confiava num Deus poderoso e vencedor, e exatamente por isso, não se conformava com a fraqueza espiritual de sua gente, um povo escolhido por este mesmo Deus. - Faça alguma coisa, Senhor! E Deus não se esquivou deste clamor revoltado. Sua resposta retumbou pelos portais eternos e fez o corpo de Habacuque reverberar. Não era a resposta que o profeta gostaria de ouvir. Mas, desde quando a vontade do homem interfere nos planos de Deus? O Senhor tem controle absoluto, até mesmo, sobre o caos. Ele caminha suavemente por montanhas que estão sendo engolidas pela terra. O mais intenso furacão não consegue nem mesmo balançar um fio do seu cabelo. O mal que triunfa momentaneamente, se dissolve ao sussurro de sua voz. Deus sabe o que fazer no hoje, porque o amanhã dorme na palma de sua poderosa mão.

Então, esqueça a motivação da pergunta e se apegue aos motivos da resposta.

- Ao meu tempo, Habacuque, irei agir! E as nações da terra ficaram pasmas diante do que farei. Quando as futuras gerações ouvirem as histórias deste tempo, elas terão dificuldades para acreditar!

Deus contou seu plano ao profeta. O Senhor iria dar poder a uma nação impiedosa, que subiria ferozmente contra Judá, para se apoderar da terra e fazer sofrer seus moradores. Os judeus que perverteram a justiça, experimentariam do gosto amargo da injustiça. Homens que se digladiavam por motivos banais, agora enfrentariam uma guerra impossível de vencer. Casas saqueadas. Muros queimados. Templo em ruínas. Uma fila interminável de escravos marchando ao exílio. Soldados enterrados em covas rasas. Um povo outrora vencedor, indefeso como um coelho encurralado por centenas de raposas. A lição definitiva ministrada pelo professor mor. Aprendizado duradouro e eficiente.

Habacuque ficou indignado. Ele orava por dias melhores, e Deus lhe dava de bandeja um futuro ainda mais aterrador. O profeta implorava por justiça, e em resposta, Deus entregaria seu próprio povo nas mãos de um rei profano, idolatra e cruel. Judá seria reduzido a um cardume de peixes no aquário, e a Babilônia viria para a pesca munida de anzóis, tarrafas e arpões. – Senhor, tem certeza que isto é justiça? O tratamento mais eficaz contra o mal é uma dose cavalar de maldade?

Em 1960, o meteorologista americano Edward Lorenz, ao tentar prever o movimento das massas de ar através de um programa de computador, percebeu que era impossível ter precisão sobre os resultados, já que pequenas alterações nas casas decimais nos dados que alimentavam a máquina, causavam mudanças significativas a longo prazo. Baseado nestas observações, ele cunhou o famoso termo “Efeito Borboleta”. Estava fundamentada a teoria do caos. A imprevisibilidade. A soma de pequenos fatores resultando em um evento cataclísmico. E o que isto quer dizer? Simples.

O acidente de carro ocorrido no cruzamento da rua A com a B, não teria acontecido se um dos envolvidos tivesse saído de casa com cinco minutos de antecedência. Esta pessoa só “se atrasou” cinco minutos porque decidiu tomar uma xícara extra de café. O café tentador era de uma marca nova, que ela comprou no dia anterior naquele mercado da esquina. Tinha ido ao mercado comprar maças para fazer uma vitamina. Ações aleatórias simplistas que resultaram numa tragédia fortuita. Como dizia Lorenz, “é como se bater das asas de uma borboleta no Brasil causasse, tempos depois, um tornado no Texas.”

Eu, particularmente, gosto desta teoria. É bom jogar a culpa no acaso. Tirar o peso de nossas decisões mais inconsequentes. É acalentador pensar que as mazelas vividas são apenas as borboletas batendo suas asas. Porém, teorias não são consideradas na ciência divina, que é absoluta e plena de certeza. As ações mundanas e pregressas de Judá estava levando o reino para o exato ponto pré-determinado. E anunciado com muita antecedência. Profetas pontuando a história com o grito de alerta. O próprio Deus firmando as bases de sua lei no amago das primeiras gerações. 

A desobediência aos mandamentos sagrados sempre foi um tapete de boas-vindas para a tragédia.  O pecado é um apito agudo e insistente atraindo a atenção da morte.

- O Senhor, o seu Deus, abençoará o que as suas mãos fizerem, os filhos do seu ventre, a cria dos seus animais e as colheitas da sua terra, se vocês obedecerem ao Senhor, ao seu Deus, e guardarem os seus mandamentos e decretos que estão escritos neste Livro da Lei, e se voltarem para o Senhor, para o seu Deus, de todo o coração e de toda a alma... Se, todavia, o seu coração se desviar e vocês não forem obedientes, e se deixarem levar, prostrando-se diante de outros deuses para adorá-los, eu hoje lhes declaro que, sem dúvida, vocês serão destruídos. O que hoje lhes estou ordenando não é difícil fazer, nem está além do seu alcance. Vida ou Morte. Ponho diante de vocês vida e prosperidade, ou morte e destruição. (Adaptado do texto de Deuteronômio 30:9-17)

Nunca houve eventualidade. Apenas escolhas muito conscientes. Uma sucessão de desmandos encaminhando Judá na direção do caos. E Deus, é o Senhor que domina o caos. Aquele que tem as repostas para tudo que é inexplicável. Dono das asas de cada borboleta existente na terra. Quem determina a rota dos mais volumosos furacões

Habacuque ouviu a resposta que não queria. Percebeu tarde demais que a ignorância pode ser uma benção. Agora, ele tinha plena certeza do futuro. O que já era ruim iria piorar ainda mais. O temor lhe percorreu o dorso. Ele sentiu no ar a fúria do Todo Poderoso. Os lábios balbuciaram palavras que caíram ao chão. As pernas bambearam e Habacuque se prostrou. O profeta sofreu. Chorou por seus irmãos. Não haviam mais orações a serem feitas por eles. Pensou em pessoas que ainda se mantinham boas num mundo dominado mal.

Habacuque. Amável. Complacente ao sofrimento alheio. Um coração solidário e acolhedor, recebendo em primeira mão a notícia desoladora. Um futuro de dor, lágrimas e enlutamento. O profeta sentiu o golpe. Tremeu na base. Mas, não sucumbiu ao desespero. Ele se posicionou sobre a muralha. Manteve-se em posição de atalaia. Escreveu mensagens aos moradores de Judá. Anunciou os juízos do Senhor, na esperança de que os compatriotas se preparassem para o dia mal. – O que há de vir, virá. E não falhará. Mesmo que pareça demorar, se prepare. Porque certamente virá, e não se atrasará. (Habacuque 2:3).

E então, forjou nas fornalhas do coração o lema de sua vida. E o gritou para todos ouvirem.

- O JUSTO VIVERÁ DA FÉ (Habacuque 2:5).

O profeta acalmou seu coração. Havia esperança para aqueles que praticavam a justiça. Mesmo que o mundo desmoronasse, existia uma certeza capaz de manter firmes os pés de todos que se voltassem ao Altíssimo. O Senhor é o Deus da nossa salvação. Socorro bem presente na angustia. Tudo passa, enquanto Ele permanece. E então, sereno em sua crença, Habacuque para de se preocupar, e simplesmente... canta:

Se a figueira não florescer... Se não houver uvas nos vinhedos... Se a safra das azeitonas falhar... Se as lavouras não derem alimentos... Se faltar ovelhas nos currais... Se os bois desaparecerem dos pastos... Ainda assim, eu vou descansar no Senhor. Vou me alegrar em Deus, pois Ele irá me salvar!

O canto de Habacuque nos inspira a enfrentar a escassez. Sua postura nos suscita para adoração mesmo diante de notícias trágicas e prognósticos pessimistas. Quando o solo se abre e engole toda a razão, ainda nos resta a fé. E se existir a fé, também existirá certeza de vida. Justos vivendo pela fé. O grito de Habacuque ecoando pela história. (Gálatas 3:11; Romanos 1:7; Hebreus 10:38) Paulo ouviu, e o replicou a plenos pulmões. Martin Lutero ouviu, e a Reforma se incendiou. Se você também ouvir, poderá provocar mudanças significativas a sua volta. Atalaia em meio a uma geração dispersa. Estrela cintilante se destacando no céu de breu. A ordem prevalecendo sobre o caos.

Sem figos. Sem uvas. Sem azeitonas. Não há leite. Não há carne. Pratos vazios. Lavouras ressequidas. Tribunais a postos. Chicote estralando no lombo. Caldeus esmurrando à porta. A humanidade em desespero vivendo a lógica latente nas razões humanas. Quando o mundo rodopia em suas próprias bases, o justo se mantém em paz, descansando sobre os escombros, vivendo a loucura da fé. Os sãos perecem, pois descendem ao inferno. Os loucos são preservados, e por fé, ascendem aos céus. Mas, não se deixe influenciar negativamente. E nem se conforme com as videiras infrutíferas. Se hoje você receber a notícia que o amanhã será muito pior, então deposite suas esperanças no dia seguinte a tragédia. Ou no próximo mês. Quem sabe no ano vindouro. Deus sempre trabalha com ciclos crescentes. O vale é um caminho até montanha. A noite escura nos encaminha ao amanhecer dourado.

José saiu da cisterna.
Daniel não ficou na cova.
Jeremias foi retirado do poço.
Sadraque, Mesaque e Abdenego apenas passearam na fornalha.

Habacuque termina seu livro "pessimista" com um brado de vitória. Um ode à esperança. Os pastos não ficariam vazios para sempre. As pizzas voltariam a ter azeitonas (Sim, pizzas!). As taças se encheriam novamente. No último suspiro de sua caneta, o profeta evoca o socorro divino, que nos dá confiança para caminhar seguramente por pântanos lamacentos. – Deus faz os meus pés firmes como os da corça.

A corça. Pés firmes e boca sedenta, correndo ininterruptamente na direção das águas. E a fonte está no alto da montanha. Longe do vale. Longe do caos. Onde as asas das borboletas produzem apenas brisas suaves. Nenhum furacão. Perto dos céus. Longe do mundo. - Deus me faz habitar, e caminhar, por lugares altos! (Habacuque 3:19)